Casa Branca estuda custo da tomada da Groenlândia, há tempos na mira de Trump

É o esforço mais concreto até agora para transformar em uma política acionável o desejo do presidente Donald Trump de adquirir o território dinamarquês, apesar da indignação internacional generalizada

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Por Lisa Rein (The Washington Post), Michael Birnbaum (The Washington Post), Natalie Allison (The Washington Post) e Jeff Stein (The Washington Post)

WASHINGTON- A Casa Branca está preparando uma estimativa do que custaria ao governo federal controlar a Groenlândia como um território, de acordo com três pessoas com conhecimento do assunto, o esforço mais concreto até agora para transformar em uma política acionável o desejo do presidente Donald Trump de adquirir a ilha dinamarquesa.

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Enquanto as exigências de Trump provocaram indignação internacional e uma repreensão da Dinamarca, autoridades da Casa Branca tomaram medidas nas semanas mais recentes para determinar as ramificações financeiras da possibilidade de a Groenlândia se tornar um território dos EUA, incluindo o custo de fornecer serviços governamentais para seus 58 mil residentes, disseram as fontes.

No escritório de orçamento da Casa Branca, a equipe tentou entender o custo potencial para manter a Groenlândia se ela fosse adquirida, disseram duas das pessoas envolvidas. Eles também estão tentando estimar qual receita para o Tesouro dos EUA poderia ser obtida com os recursos naturais da Groenlândia.

Com localização estratégica e recursos naturais, Groenlândia entrou na mira de Donald Trump.  Foto: Odd Andersen/AFP

Uma opção em análise é oferecer ao governo da Groenlândia um acordo mais atraente do que os dinamarqueses, que atualmente subsidiam serviços na ilha a uma taxa de cerca de US$ 600 milhões a cada ano.

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“Seria muito mais alto do que isso”, disse um funcionário familiarizado com os planos, que, como outros, falou sob condição de anonimato para discutir planos que continuam em andamento. “A questão é: ‘Pagaremos mais a vocês do que a Dinamarca paga’.”

Trump disse repetidamente que os Estados Unidos “ficarão” com a Groenlândia. “100 por cento”, disse ele à NBC News no sábado. Questionado se isso envolveria o uso da força, ele disse que há uma “boa possibilidade de que possamos fazer isso sem força militar”, mas que “não tiro nenhuma alternativa da mesa”.

O planejamento interno sugere que as ambições do governo de adquirir a Groenlândia vão além das reflexões do presidente e estão começando a se refletir na política governamental.

“O presidente acredita que a Groenlândia é um local estrategicamente importante e está confiante de que os groenlandeses seriam mais bem servidos se protegidos pelos Estados Unidos contra ameaças modernas na região do Ártico”, disse Anna Kelly, vice-assessora de imprensa da Casa Branca, em um e-mail. “O presidente Trump tem o compromisso de estabelecer uma paz de longo prazo em casa e no exterior.”

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O interesse de Trump em arrancar o controle da ilha de um aliado da Otan desencadeou choque e descrença em Copenhague, que repetidamente ofereceu abertura à ideia de Washington aumentar sua presença militar e econômica na Groenlândia sem alterar as fronteiras territoriais. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, está planejando uma visita de três dias à ilha a partir de quarta-feira a convite do novo governo da Groenlândia — em parte para demonstrar o compromisso da Dinamarca em aprofundar os laços com o território.

Um funcionário do alto escalão da Casa Branca disse que o governo está atualmente analisando o custo estimado da aquisição da Groenlândia, incluindo o custo de prestação de serviços governamentais aos seus cidadãos. Os funcionários do orçamento ainda estão trabalhando para determinar qual poderia ser esse custo, disse o funcionário da Casa Branca.

“Há uma discussão a respeito de qual seria o custo-benefício para os Estados Unidos se adquiríssemos a Groenlândia”, disse o funcionário. “Quanto nos custaria manter a Groenlândia como um território americano?”. O funcionário acrescentou que as análises de custo são baseadas na possibilidade de “os groenlandeses votarem e apoiarem isso”. “Se a adquirirmos, então quanto nos custará cuidar dessas pessoas como parte do nosso guarda-chuva do Ártico?”, disse.

Das potenciais aquisições que Trump lançou, incluindo o Canadá e o Canal do Panamá, “ele vê a Groenlândia como a mais fácil”, disse o funcionário com conhecimento de seu pensamento. “Para o presidente, faz sentido de uma perspectiva simples e antiga, do jogo de xadrez de segurança nacional”, afirmou.

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Os líderes da Groenlândia se irritaram com o desejo de Trump de reivindicar sua ilha, declarando que o futuro será determinado por seus moradores e ninguém mais.

“Devemos ouvir quando os outros falam sobre nós. Mas não devemos nos abalar”, escreveu o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, no domingo no Facebook. Ele assumiu o cargo na sexta feira após uma eleição na qual os projetos de Trump para a Groenlândia desempenharam um papel importante.

“Não devemos agir por medo. Devemos responder com paz, dignidade e unidade. E é por meio desses valores que devemos mostrar clara e calmamente ao presidente americano que a Groenlândia é nossa”, escreveu Nielsen.

O gabinete da primeira-ministra dinamarquesa não respondeu a um pedido de comentário.

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Vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance visita Groelândia em meio à pressão de Donald Trump para assumir o controle da ilha dinamarquesa.  Foto: Jim Watson/Associated Press

O vice-presidente JD Vance se tornou a autoridade americana de mais alto escalão a visitar a Groenlândia na semana passada, viajando para uma base militar dos EUA com o conselheiro de segurança nacional Michael Waltz e a segunda-dama Usha Vance.

Ele criticou a administração dinamarquesa do vasto território insular e disse que Washington seria um parceiro melhor.

“Nossa mensagem para a Dinamarca é muito simples. Vocês não fizeram um bom trabalho pelo povo da Groenlândia. Vocês investiram pouco no povo da Groenlândia e investiram pouco na arquitetura de segurança desta incrível e bela massa de terra cheia de pessoas incríveis”, disse ele.

“Não podemos simplesmente ignorar este lugar. Não podemos simplesmente ignorar os desejos do presidente, mas o mais importante, não podemos ignorar o que eu disse antes, que é a invasão russa e chinesa na Groenlândia. Temos que fazer mais”, disse ele.

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Trump viu o controle da Groenlândia como uma vitória estratégica para os Estados Unidos, tanto por causa de seus recursos minerais quanto por sua localização estratégica. Posicionada em um gargalo crucial entre os oceanos Ártico e Atlântico, fica perto de rotas marítimas que são importantes para o transporte e também para viagens militares, incluindo os submarinos que são uma forma essencial de os países que possuem armas nucleares projetarem seu poder.

Mas essa ainda não está no topo da lista de questões de segurança nacional, alertou o funcionário da Casa Branca, descrevendo a aquisição da Groenlândia como uma “bonificação” que virá depois de acabar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, garantir a paz em Israel e Gaza e dissuadir o Irã — todos itens da pauta para este ano.

A análise de custos está sendo feita para Russell Vought, diretor do Escritório de Gestão e Orçamento, pela equipe da Divisão de Assuntos Internacionais do escritório.

O governo Trump espera, em parte, convencer o público dos EUA de que o governo federal recuperaria os custos na Groenlândia por meio de royalties da exploração de minerais e impostos pagos por atividades comerciais.

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Outra pessoa familiarizada com o assunto, falando sob condição de anonimato para descrever conversas privadas com funcionários do governo, disse que a Casa Branca está procurando maneiras de “adoçar a proposta” para tornar mais atraente para a Groenlândia a ideia de fazer parte dos Estados Unidos.

Mas o retorno econômico potencial preciso dos recursos minerais da Groenlândia está longe de ser claro. A exploração de minerais pode ser imprevisível, e o clima severo do território aumenta a dificuldade. O governo da Groenlândia também rejeitou alguns projetos de mineração anteriores.

“A ideia de que os EUA vão estabelecer mineração em larga escala em depósitos que não foram explorados, podem não ser economicamente viáveis e estão atualmente congelados em um país que não nos quer lá não passa pelo teste do riso”, disse Alex Jacquez, que atuou como alto funcionário no governo Biden.

“Isso não passa de uma cobertura para as fantasias coloniais de Trump e uma oportunidade para investidores conectados a ele ganharem dinheiro rápido.”

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Ainda assim, Trump fez referência ao “Destino Manifesto” em sua meta de expandir o território dos EUA, já que ele se concentrou na Groenlândia, Canadá e no Canal do Panamá.

Barco navega nos arredores de Nuuk, Groenlândia.  Foto: Evgeniy Maloletka/Associated Press

“O presidente Trump é obcecado pela Groenlândia, por causa de sua importância para a segurança nacional”, disse Stephen K. Bannon, que serviu por algum tempo como estrategista-chefe do presidente durante seu primeiro mandato. “Esta é a estratégia naval mais brilhante de todos os tempos e é essencial para proteger o país para sempre. Haverá um acordo.”

Em janeiro, o American Action Forum, um centro de estudos estratégicos de centro-direita, disse que o preço de mercado das reservas minerais da Groenlândia sugere um valor de US$ 200 bilhões para comprar a ilha, mas que seu valor estratégico no Atlântico Norte estava mais próximo de US$ 3 trilhões.

“No momento, temos apenas um local onde podemos monitorar o que acontece no Atlântico Norte, que é a Islândia. A Groenlândia lhe daria isso, além de rotas de transporte com as calotas polares recuando — esse é um local mais estratégico”, disse Doug Holtz-Eakin, presidente do grupo.

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Anteriormente, a expansão territorial dos EUA ocorreu por aquisição ou guerra. As Ilhas Virgens Americanas foram compradas da Dinamarca em 1917. Guam, Porto Rico e as Filipinas foram tomadas da Espanha no final da Guerra Hispano-Americana, com as Filipinas mais tarde ganhando independência. O Havaí foi anexado depois que sua monarquia foi derrubada em um golpe que o Congresso mais tarde reconheceu ter incluído a participação dos EUA.

As ambições de Trump parecem conter uma mistura de ideologia e cálculo econômico, disseram analistas.

“Um dos benefícios que eles têm em mente é recriar o ethos da fronteira americana. É difícil quantificar isso em termos monetários”, disse Sam Hammond, economista-chefe da Foundation for American Innovation, um centro de estudos estratégicos de centro-direita. “Mas os benefícios mais práticos para a segurança nacional incluem usar a Groenlândia como um local de preparação para construir quebra-gelos e projetar o controle sobre o Ártico, enquanto, é claro, adquirem mais terras e recursos naturais.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL