Chanceler de Lula vê mundo em encruzilhada e diz que Brics deve ‘resistir às políticas de Trump’

Ministro das Relações Exteriores abre reunião de negociadores diplomáticos com recados indiretos sobre protecionismo e hegemonia

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Foto do autor Felipe Frazão
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BRASÍLIA - O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta terça-feira, dia 25, que o mundo vive uma “encruzilhada”, com tensões e choques, em reunião inaugural do Brics, um acrônimo para o bloco formado originalmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O grupo é presidido neste ano pelo Brasil. Mauro Vieira afirmou que o Brics deve “resistir” ao que chamou de processo de “desglobalização”, com “políticas protecionistas, fragmentação comercial, barreiras não econômicas”.

O chanceler discursou na abertura da primeira reunião de sherpas do Brics, também o primeiro encontro presencial no País, em 2025. No jargão diplomático, sherpa é o nome dado ao negociador-chefe de cada país nas conferências internacionais.

O chanceler Mauro Vieira discursa na abertura da primeira reunião de Sherpas do Brics - 25/02/2025 Foto: Isabela Castilho

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve falar nesta quarta-feira, dia 26, aos diplomatas reunidos em Brasília por dois dias. Lula presidirá a Cúpula de Líderes do Brics, nos dias 6 e 7 de julho, no Rio, em que se reunirão as principais autoridades dos países-membros e convidados.

“O cerne de nossas discussões hoje e amanhã é a necessidade de redefinir a governança global de modo a refletir as realidades do século XXI. As instituições mundiais devem evoluir para acomodar perspectivas diversas, garantindo que as nações em desenvolvimento não sejam meros espectadores, mas sim arquitetos ativos do futuro. O Brics representa uma nova visão de governança global — uma que prioriza inclusão, equidade e cooperação em detrimento da hegemonia, injustiça, desigualdade e unilateralismo", afirmou Vieira.

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Fim do dólar

O embaixador afirmou que, na esfera econômica, “testemunhamos um processo de ‘desglobalização’”. “Políticas protecionistas, fragmentação comercial, barreiras não econômicas e a reconfiguração das cadeias de suprimentos ameaçam aprofundar as desigualdades globais. O Brics deve resistir a essa fragmentação e advogar por um sistema de comércio multilateral aberto, justo e equilibrado — um que atenda às necessidades do Sul Global e promova uma ordem econômica verdadeiramente multipolar.”

Vieira advogou que a reforma da arquitetura financeira é um aspecto central da transformação. “O sistema vigente foi concebido para uma era distinta e, muitas vezes, falhou em atender às realidades enfrentadas pelos países em desenvolvimento. O Brics deve continuar avançando em mecanismos financeiros alternativos, como o Novo Banco de Desenvolvimento, que desempenha um papel vital no financiamento de infraestrutura e projetos de desenvolvimento sustentável em economias emergentes.”

O ministro enumerou as seis prioridades escolhidas pelo governo Lula para o Brics em 2025: cooperação em saúde global; comércio, investimento e finanças; combate às mudanças climáticas; governança da inteligência artificial; reforma do sistema multilateral de paz e segurança; e desenvolvimento institucional do Brics.

O Brasil quer deixar de lado temas geopolíticos, como as guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza - embora diplomatas entendam que será impossível contorná-los, bem como seus efeitos econômicos e sociais.

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O País também não vai fomentar agora a discussão sobre uma moeda do Brics, uma unidade de referência comum para transações comerciais e financeiras internacionais. O Brasil vai incentivar primeiro o debate sobre outras formas de reduzir a dependência do dólar americano, como comércio em moedas locais.

A agenda do fim do uso do dólar como moeda em relações comerciais no Brics provocou ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump. Ele prometeu impor 100% de tarifas sobre produtos dos países que ousassem substituir o dólar.

O governo brasileiro diz que a intenção não é essa, mas criar alternativas e complementares. Destronar o dólar como moeda padrão interessa a países como Rússia e China, além do Irã - seja por sanções ou pela rivalidade econômica e geopolítica.

O presidente Lula defende enfaticamente a criação de uma moeda, desde 2023, mas há divergências se isso interessaria a todos no bloco agora e também o diagnóstico de que seria um projeto complexo e de muito longo prazo.

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Reforma das instituições

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Sem citar nominalmente os impactos da volta de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos, o ministro disse que a “resposta mais eficaz à crise do multilateralismo é mais multilateralismo”. Trump tem alimentado uma onda de políticas tarifárias unilaterais, ameaças de sanções e do abandono de instituições multilaterais - ele anunciou que vai retirar os EUA da OMS, do Acordo de Paris e do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

“Estamos reunidos em um momento crucial — de profundas transformações, em que os princípios do multilateralismo e da cooperação são testados por crises que exigem ação urgente e coletiva", afirmou o ministro. “O mundo está em uma encruzilhada, e as escolhas que fizermos hoje moldarão o futuro da governança global por gerações. O Brics foi fundado sobre os princípios de cooperação, equidade e respeito mútuo. Que reafirmemos nosso compromisso com a construção de uma ordem internacional mais justa, inclusiva e sustentável.”

O chanceler repetiu a avaliação da diplomacia brasileira sobre a necessidade de reformar instituições como as Nações Unidas e organismos financeiros (FMI, OMC e Banco Mundial). Ele disse que “instituições de longa data enfrentam dificuldades para se adaptar, enquanto economias emergentes reivindicam, com razão, um papel mais equitativo na definição de decisões que nos afetam a todos”.

O chanceler Mauro Vieira discursa na abertura da primeira reunião de negociadores do Brics, em Brasília, em 25 de fevereiro  Foto: Isabela Castilho / BRICS Brasil

“A ordem internacional estabelecida após a 2ª Guerra Mundial baseou-se em duas grandes promessas: um sistema coletivo de segurança centrado na Organização das Nações Unidas e uma visão de prosperidade por meio de um sistema multilateral de comércio baseado em regras. Hoje, as limitações dessas promessas tornam-se cada vez mais evidentes”, afirmou o ministro.

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O ministro classificou como “alarmante” o aumento de crises humanitárias, conflitos armados, deslocamentos forçados, insegurança alimentar e instabilidade política. “As necessidades humanitárias crescem, mas as respostas internacionais permanecem fragmentadas e, por vezes, insuficientes. Para enfrentar esses desafios, devemos defender uma reforma abrangente da arquitetura global de segurança — uma que reflita as realidades contemporâneas e sustente nossa responsabilidade moral compartilhada de agir. Devemos também promover um sistema humanitário que seja isento de pressões políticas, neutro e verdadeiramente universal — garantindo que a ajuda chegue a quem dela necessita sem condicionalidades ou motivações políticas."

Da reunião iniciada em Brasília participam representantes dos 11 países-membros do Brics (Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã). Para assistir ao discurso de Lula, foram convidados embaixadores dos 9 países parceiros (Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão).