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China abandona política de filho único para tentar conter crise demográfica

Com desaceleração do crescimento, redução da força de trabalho e rápido envelhecimento da população, a China anunciou ontem o fim da política de filho único implantada há três décadas e meia e sua substituição por um novo limite de dois filhos por casal. Mas, para muitos analistas, a histórica mudança veio tarde demais para evitar os efeitos negativos do desequilíbrio populacional sobre a economia do país habitado por 20% da humanidade. Imposto no fim dos anos 70, o rígido controle de natalidade agravou o desequilíbrio entre os sexos na população e provocou ressentimento em famílias submetidas ao controle estatal em uma de suas escolhas mais íntimas e pessoais. A política de filho único criou uma burocracia gigante, com agentes responsáveis por sua implementação em centenas de milhares de comitês espalhados pelas vilas rurais, empresas e bairros do país.

Por Cláudia Trevisan , CORRESPONDENTE e WASHINGTON
Atualização:
Na China, passa a valer para toda a população a permissão para ter dois filhos Foto: AFP PHOTO / FRED DUFOUR

Sua aplicação levou a abortos, esterilizações forçadas e à aplicação de penalidades severas aos que a descumprissem. O ressentimento aumentou ainda mais quando os novos ricos chineses passaram a pagar as pesadas multas impostas aos que violam o limite de um filho, ficando fora das restrições. Efeitos. A grande dúvida é se os chineses responderão à mudança em uma sociedade cada vez mais competitiva. Em 2013, o governo amenizou o controle e permitiu que casais formados por filhos únicos tivessem até dois filhos. A expectativa oficial era de que 2 milhões de famílias aproveitassem o benefício no ano seguinte, mas apenas 1,1 milhão se registrou. "A política de dois filhos é um passo positivo, mas insuficiente. Muitas pessoas escolherão ter apenas um filho ou nenhum e isso precisa ser compensado por casais que tenham mais de dois filhos", disse ao Estado Andrew Mason, do Centro East-West da Universidade do Havaí e especialista em questões demográficas e seu impacto econômico. "A melhor política seria permitir que os casais escolhessem." Grande parte do espetacular crescimento registrado pela China a partir dos anos 80 se deveu à entrada no mercado de trabalho de milhões de jovens, que encheram as linhas de montagens das fábricas e os canteiros de obras que se multiplicaram em todo o país. Esse bônus demográfico se esgotou e a China é hoje uma das nações que envelhecem mais rapidamente em todo o mundo. Isso significa que haverá um número cada vez menor de pessoas produzindo para sustentar um universo cada vez maior de aposentados, com efeitos devastadores sobre a capacidade do país de manter seu elevado ritmo de crescimento.  A China já vive uma desaceleração e deve fechar 2015 com expansão de 7%, o menor índice desde 1990. Um dos maiores especialistas na questão demográfica chinesa, o professor Wang Feng, da Universidade da Califórnia em Irvine, estima que a relação entre a população economicamente ativa e os que possuem 60 anos ou mais cairá de 5 por 1, em 2000, para 2 por 1 em 2030 - as projeções foram feitas antes das mudanças anunciadas ontem. Em sua avaliação, dentro de 28 anos, a China terá 25% de sua população na faixa de 65 anos ou mais, o que classifica de "envelhecimento severo".

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