É o fim do sonho americano?
Donald Trump volta aos EUA com uma promessa: deportar milhões de imigrantes dos EUA.
Gerando resumo
ENVIADA ESPECIAL A GOVERNADOR VALADARES, ALPERCATA E IPATINGA - Em 24 de janeiro, pousou em Manaus o primeiro avião trazendo brasileiros deportados dos Estados Unidos sob a segunda administração de Donald Trump. O voo foi um marco, primeiro por ocorrer em meio às promessas de Trump de deportação em massa, segundo por ter sido o estopim para que o Brasil finalmente rascunhasse uma política de acolhimento a deportados.
Em mais de 60 anos de emigração sustentada, nunca houve uma política nacional, estadual ou municipal voltada aos que voltam de uma emigração frustrada. Governador Valadares, sendo o epicentro desse êxodo, até tentou impulsionar algumas políticas no passado, mas elas nunca foram para frente. Até que o avião pousou em Manaus.

A aeronave já havia feito uma parada no Panamá e tinha como destino final o aeroporto de Confins, em Belo Horizonte - como sempre ocorre com os voos fretados dos Estados Unidos - com uma escala prevista no Amazonas. Mas um problema no sistema de ar condicionado fez com que o avião ficasse parado no aeroporto, sem prosseguir viagem.
Foi quando a porta de emergência do avião se abriu e pessoas começaram a caminhar pela asa. Elas estavam com as mãos e os pés algemados. “Eu brinco com os colegas que nós temos a pós-verdade e a pré-verdade. A pré-verdade é a verdade que ninguém queria ver. Aí de repente ela está na asa do avião”, comenta o professor da PUC-Minas Duval Magalhães.

A pré-verdade, segundo o professor, é que todos sabiam que os brasileiros vinham algemados nesses voos fretados. O acordo bilateral EUA-Brasil que retomou essas deportações fretadas a partir de 2019 permite a prática, desde que as algemas sejam retiradas antes do desembarque, pois, em solo brasileiro, essas pessoas não são criminosas.
No entanto, após a cena, os 88 brasileiros daquele avião relataram maus tratos por parte da tripulação e dos agentes americanos. “Desde o começo foi um um voo bem conturbado”, relata Ruan Filipe Lima, 32 anos, que estava no voo.
O povo já estava revoltado pelos maus tratos, pelas coisas que aconteceram no decorrer da viagem. Eles começaram a pedir ajuda e o pessoal a todo momento sendo rude, ignorante, prepotente e até que o pessoal entrou em luta corporal depois de ter apanhado dos agentes e conseguiram abrir a porta de segurança do avião. Foi aí que filmaram aquele vídeo.
Ruan Filipe Lima, mecânico industrial
Segundo a Polícia Federal, só em 2025, mais de 700 brasileiros foram deportados dos EUA. Desde 2019, quando os voos com repatriados foram retomados, mais de 11 mil brasileiros retornaram. Os números, porém, não são claros. Dados da PF divergem dos números da migração americana, que divergem das informações dos aeroportos de chegada.

Faltam políticas de acolhimento
As imagens daquele voo provocaram revolta no governo brasileiro que pediu explicações aos EUA. Em nota, o Brasil afirmou que “o uso indiscriminado de algemas e correntes viola os termos do acordo com os EUA, que prevê o tratamento digno, respeitoso e humano dos repatriados”. O governo proibiu que os americanos seguissem viagem e enviou um avião da Força Aérea Brasileira para terminar o trajeto até Belo Horizonte. A prática se mantém desde então.
“A viagem toda não foi bacana, não que eu estivesse esperando ser cinco estrelas, mas eu pensava que ia ser uma deportação digna para as pessoas que estavam ali. Tinha pai de família ali, não era só bandido como o povo está falando na mídia, tinham crianças no voo, tinham mulheres. Acho que deveria ter um tratamento diferente, não do jeito que foi”, desabafa Ruan Filipe.
A partir deste dia, o governo brasileiro criou um posto de atendimento a deportados em Confins, onde visa oferecer atendimentos psicológicos, assistência social, locais com tomadas para carregamento de celulares, acesso a internet, casas de câmbio, entre outros, segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

Mas o secretário Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Bruno Renato Teixeira, reconhece que o serviço está longe de ser uma política pública. “É importante frisar que já existe uma política para imigrantes, entretanto os repatriados não se enquadram nessa condição de imigrantes, porque são nacionais”, diz.
Nós estamos dialogando com organismos internacionais, a Organização da ONU para Migração, que já tem uma expertise voltada a esse processo de acolhimento e diante disso estamos em tratativas para verificar como a gente faz o monitoramento, acompanhamento dessas pessoas, ofertando a eles melhores condições de se restabelecerem aqui no Brasil.
Bruno Renato Teixeira, secretário Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos
A cidade de Governador Valadares também anunciou a criação de Serviço de Apoio ao Valadarense em Situação de Deportação. Em uma sala na secretaria de Assistência Social, funciona um call center, onde pessoas que chegam dos EUA podem ligar e buscar apoio, seja em busca de um emprego, de atendimento psicológico ou outra demanda, segundo a prefeitura.
“A gente faz encaminhamento para dar esse suporte para o restabelecimento dessa pessoa novamente aqui no Brasil e principalmente aqui em Governador Valadares”, defende o prefeito Coronel Sandro (PL). “Nós temos pessoas que ficaram lá um ano e foram deportadas, tem outros que entraram e com um mês estão deportados de volta, tem pessoas com 20 ou 30 anos que estavam lá e a gente sabe a dificuldade que é essa readaptação.”

Especialistas em migração celebram as iniciativas, mas ressaltam que são apenas emergenciais. “São bem vindas essas políticas sim, mas elas precisam se tornar políticas de atendimento mais amplo”, observa a professora Sueli Siqueira, coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Desenvolvimento Regional da Univale.
“Uma pessoa que chega nesse estado de estresse, numa situação de não se sentir bem no território e no local de onde ela saiu, precisa de um acompanhamento. Não há um remédio que eu dê, uma vacina que eu dê e ela vai ficar bem. Nós temos os sistemas que podem ser sistemas de saúde interligados, que podem ser utilizados. Precisa de uma política voltada para isso. Eu acho que isso agora pode acontecer dado que eles se tornaram visíveis”, continua.

Frustração
Há quem retorne por conta própria, seja porque atingiu o seu objetivo de acumular dinheiro, seja por medo das políticas de migração, como tem ocorrido neste novo governo Trump. Da mesma forma, os especialistas defendem políticas de acolhimento e reinserção dessas pessoas, afinal, muitos voltam para um estado de vulnerabilidade.
Fizemos um diagnóstico e identificamos que em torno de 70 a 75% dos emigrantes que iam para trabalhar fora, quando voltavam capitalizados, em um ano eles perdiam o capital. Aí eles tinham que voltar para ficar lá mais 7 ou 8 anos para juntar o capital, porque eles não tinham uma orientação aqui sobre como tocar o negócio dele. E uma boa parte era era de origem rural.
Antônio Linhares Borges, fundador da ONG CIAAT (Centro de Informação e Assessoria Técnica)
A organização de Borges busca ajudar os emigrantes que voltam à região a identificar a melhor forma de utilizar aqueles dólares que eles trouxeram sem arriscar perder tudo.

Uma história muito compartilhada em Governador Valadares é da lavanderia aberta por um desses retornados, que imitava o estilo das lavanderias americanas. O negócio não prosperou porque todos tinham máquinas de lavar roupas em casa.
O grande sonho na região de Valadares é ter uma grande fazenda. A história do peão que vai para os EUA, faz dinheiro, volta e compra a fazenda onde ele trabalhava. Isso é bobagem. Nesse momento que se precisa de uma ação coordenada de forma que essa pessoa com capital possa empregar esse capital naquilo que ele quer e faça sentido.
Duval Magalhães, professor da PUC-Minas
E isso é ainda mais grave para quem retorna sem ter feito tanto dinheiro quanto gostaria ou, no pior dos casos, foi deportado depois de anos no país. “Muitos não conseguem retornar, porque o retorno é como se fosse uma nova migração. Voltar como? É o que eu escuto muito. Voltar como? Voltar para onde? Porque eu já não tenho mais esse lugar. Depois de um tempo fora, eu já nem me reconheço como pertencente a esse lugar”, afirma Sueli Siqueira.
Os prefeitos de Governador Valadares e de Alpercata, Rafael França (PSD), dizem que suas cidades estão se preparando para acolher não só os deportados prometidos por Trump, mas muitos que estão voltando por medo. Foi o caso da família de Ruan Filipe. Quase dois meses depois da deportação, sua mulher e seu filho se organizaram para voltar a Ipatinga.
As pessoas saem do Brasil com uma ideia de ‘vou para os Estados Unidos, mudar minha vida, vou fazer com que meu filho tenha uma qualidade de vida melhor do que eu tive’. E hoje eles estão voltando com essa frustração de não ter conseguido isso. É muito triste ver que um sonho, que como a gente fala na nossa região, um sonho americano, se acabou.
Rafael França, prefeito de Alpercata
É o fim do sonho americano?
Trump assumiu como novo presidente dos EUA em 20 janeiro fazendo da deportação em massa uma de suas maiores promessas. Até o momento não foram “em massa” como prometeu, mas definitivamente controversas. Como o envio de venezuelanos a El Salvador e até deportações por engano.
A promessa, porém, tem sido suficiente para que migrantes começassem o movimento de se preparar para voltar voluntariamente. Os especialistas, contudo, são céticos que isso signifique o fim do sonho americano.
Não o foi quando a pandemia de covid-19 diminuiu a circulação entre fronteiras, não o foi com a cerca no México e não o foi quando o mesmo Trump prometeu construir um muro na fronteira em 2016. A tendência agora é as rotas se redesenharem e o tráfico humano se tornar ainda mais lucrativo.

“Quanto mais restrição você cria, menos a migração é motivada pelos fatores dinâmicos da economia. Por exemplo, Portugal é um país que tem bem menos restrição para imigrantes brasileiros. A imigração ali oscila de acordo com o vento da economia. Se a economia brasileira está mal, os brasileiros vão para Portugal. Se a economia brasileira melhora, os brasileiros que estão em Portugal voltam”, aponta Romerito Valeriano, professor de geografia e migração internacional do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), que estuda a migração de brasileiro em Portugal.
Sua teoria é de que, com maiores barreiras nos EUA, a migração brasileira se foque um pouco mais em Portugal, passe um tempo na Europa e só então busque formas de retornar sua rota para os EUA.
E outra, você torna mais caro e mais intenso o processo de tráfico e contrabando de pessoas. Os Estados Unidos viram o que aconteceu com a bebida quando eles proibiram a bebida, fez um Al Capone surgir.
Romerito Valeriano, professor de geografia e migração internacional do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG)
O que sim pode reduzir a emigração é melhorar os incentivos no local de origem das pessoas para que elas não acreditem que ir embora é única opção para melhorar de vida. “Vejo com muito bons olhos todo esse processo de interiorização das universidades e dos institutos federais”, opina Stela Maris, professora de Geografia do IFMG em Ipatinga.
Eu vejo muitos ex-alunos que foram impactados positivamente de não desejar migrar, porque conseguiram desenvolver seu estudo e se tornarem profissionais sem desejar mais migrar. E isso é particularmente verdade para os moradores das áreas rurais dos municípios menores. A capacitação com desenvolvimento tecnológico é fundamental para eles não quererem migrar.
Stela Maris, professora de Geografia do IFMG em Ipatinga
“A gente não deve fantasiar”, alerta Romerito Valeriano. “Mesmo tendo acesso à casa, todo mundo tendo acesso à educação, a imigração vai continuar existindo porque ela sempre existiu. E outros fatores motivam. Mas a migração em massa depende muito dessas políticas públicas educacionais dar as condições básicas.”
“As pessoas que vão, querem uma vida digna. Se a gente conseguir ter essa vida vida digna aqui, é óbvio que alguns ainda vão querer emigrar, mas sim porque querem conhecer outra cultura, não porque é a única opção de ter uma vida um pouco melhor”, conclui.





