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Como a guerra na Ucrânia fez um porto na Grécia renascer e enfureceu a Turquia e a Rússia

Turquia e Grécia são membros da Otan, mas existe uma antiga animosidade entre eles, incluindo um conflito sobre o Chipre e outras disputas territoriais no Mediterrâneo

Por Niki Kitsantonis e Anatoly Kurmanaev
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Trata-se de uma improvável relevância geopolítica: um píer de concreto que mal era utilizado e ainda permanece coberto de gaivotas a maior parte do tempo. Mas o adormecido Porto de Alexandrópolis, no nordeste da Grécia, assumiu um papel central no aumento da presença militar dos EUA no Leste Europeu, à medida que o Pentágono transporta arsenais para conter a agressão russa à Ucrânia.

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Esse fluxo enfureceu não apenas a Rússia, mas também os vizinhos turcos, o que mostra como a guerra na Ucrânia reconfigurou as relações econômicas e diplomáticas na Europa. Turquia e Grécia são membros da Otan, mas existe uma antiga animosidade entre eles, incluindo um conflito sobre o Chipre e outras disputas territoriais no Mediterrâneo.

Ancara vê uma relação mais profunda entre Atenas e Washington como uma ameaça. O aumento na atividade militar foi bem recebido pelo governo da Grécia, pela maioria dos vizinhos dos Bálcãs e por habitantes locais com esperança de que os americanos estimulem a economia regional e forneçam segurança.

“Somos um país pequeno”, afirmou Yiannis Kapelas, de 53 anos, dono de um café em Alexandrópolis. “É uma coisa boa termos um país grande para nos proteger.”

A privatização do Porto de Alexandrópolis eleva o valor e o risco do jogo estratégico. Quatro grupos empresariais competem para comprar uma fatia suficiente para garantir controle do terminal – dois deles incluem firmas americanas, apoiadas por Washington, e dois possuem laços com a Rússia.

As operações militares dos EUA na Grécia se expandiram desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro, e altas autoridades de Moscou e Ancara classificaram esse aumento como uma ameaça à segurança regional. “Contra quem eles foram estabelecidos?”, perguntou o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, em junho, referindo-se aos postos avançados dos EUA na Grécia. “A resposta que nos dão é: ‘contra a Rússia’. Mas não acreditamos nisso.”

Diplomacia

Ainda que a maioria dos membros da Otan tenha se colocado do lado da Ucrânia, Erdogan – sempre disposto a explorar algum novo caminho – posicionou a Turquia como mediadora. Em maio, a Grécia afirmou que caças turcos violaram o espaço aéreo grego sobre Alexandrópolis, a apenas 17 quilômetros da fronteira turca. O incidente enervou moradores preocupados com as reivindicações turcas sobre partes da Grécia.

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A complexa inter-relação de interesses em Alexandrópolis ressalta como a guerra está mudando o foco estratégico da Europa. “O Mar Negro retornou para a agenda global de uma maneira sem precedentes”, afirmou Ilian Vassilev, ex-embaixador búlgaro em Moscou, que trabalha como consultor estratégico. “A segurança no Mar Negro é central para conter e negociar com a Rússia.”

Grécia e Rússia compartilham profundos laços históricos, econômicos e culturais centrados na religião ortodoxa, comum entre os dois países. Os gregos estão entre os poucos europeus que pretendem manter laços econômicos com a Rússia, segundo pesquisas. Mas a guerra na Ucrânia pressiona essas relações.

Farol histórico de Alexandrópolis, cujo porto está sendo usado na guerra na Ucrânia  Foto: Eirini Vourloumis/The New York Times

Guerra

A ocupação do território ucraniano acendeu um alerta entre os gregos, pois muitos deles veem paralelos entre a retórica imperial do presidente Vladimir Putin e as reivindicações territoriais da Turquia, cujo antecessor, o Império Otomano, controlou a Grécia durante séculos.

O sofrimento dos ucranianos também ressoa dentro das famílias gregas, cujos ancestrais fugiram dos pogroms turcos no início do século 20. “Conhecemos a dor dos refugiados”, afirmou o garçom Dimosthenis Karavoltsos, que trabalha em uma taberna de Alexandrópolis. “Não há nenhuma dúvida na minha cabeça sobre qual lado devemos defender.”

O governo conservador da Grécia foi um dos primeiros a enviar ajuda militar à Ucrânia, fazendo com que o Kremlin colocasse os gregos na lista de nações “não amigas”. O medo da Turquia e a solidariedade com a Ucrânia aproximaram Atenas de Washington, e os gregos garantiram aos EUA acesso militar.

A quantidade de material bélico transportado pelos EUA através de Alexandrópolis aumentou quase 14 vezes no ano passado. Autoridades americanas afirmam que o equipamento é destinado apenas para as unidades americanas estacionadas na Europa Central e do Leste, não para a Ucrânia.

Yiannis Kapelas, dono de um café em Alexandrópolis, é simpático aos ucranianos na guerra  Foto: Eirini Vourloumis/The New York Times

Mudança

O salto em atividade representa uma reviravolta drástica para um pequeno porto que passou quase uma década praticamente parado, bloqueado por uma barcaça afundada – removida pela Marinha dos EUA em 2019.

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A lânguida atmosfera da cidade se transforma a cada poucos meses, quando navios de guerra americanos atracam para descarregar tanques, caminhões e sistemas de artilharia. A chegada de centenas de americanos causa escassez de ovos e cigarros – e forma filas diante de estúdios de tatuagem.

Entre essas explosões de atividade, poucos sinais apontaram para a nova importância da cidade. No calçadão da praia, próximo ao porto, casais passeiam com bebês e turistas turcos tiram selfies diante do farol.

A navegação civil permanece em um nível mínimo, porque faltam ao porto guindastes grandes, mas o Pentágono está instalando equipamento pesado para o processamento de cargas maiores. “O que fizemos foi transformar o porto em um polo dinâmico de operações militares”, afirmou Andre Cameron, que supervisiona a logística militar dos EUA. “Nada desse tipo foi feito antes.”

Revolução

Autoridades locais afirmaram esperar que as modernizações militares no porto atraiam investimentos em outros setores, transformando Alexandrópolis em um polo comercial voltado para a vizinhança: Bulgária, Romênia e até a Ucrânia bloqueada.

A crescente importância estratégica do porto ressaltou vínculos da Rússia com dois grupos empresariais gregos que competem para assumi-lo. Um é dirigido por Ivan Savvidis, oligarca que cumpriu mandato no Parlamento russo e integra uma comissão de relações exteriores que trabalha aconselhando Putin.

“Grego de nascimento, estilo de vida russo, de fé ortodoxa”, afirma o website de Savvidis, que exibe uma foto dele ao lado de Putin. O lance de Savvidis pode enfrentar obstáculos, porque ele já é dono do Porto de Tessalônica, o segundo maior da Grécia, o que poderia representar violações da lei antitruste.

A situação de outro interessado na compra do porto, o Copelouzos Group, subsidiário de um conglomerado grego, é mais complexa. O grupo é o parceiro local da Gazprom, a estatal russa de gás, e, em um empreendimento conjunto chamado Prometheus Gas, o <IP9,0,0>Copelouzos</IP> virou o terceiro maior fornecedor de gás natural para os gregos.

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Um memorando a respeito do fundador do grupo, Dimitrios Copelouzos, redigido pelo embaixador americano na Grécia, em 2007, e publicado pelo WikiLeaks, intitula-se “A Gazprom tem outro nome?”. Competidores e críticos afirmam que esses vínculos tornam o grupo mais vulnerável à pressão russa, o que compromete o futuro das operações estratégicas em Alexandrópolis.

“Existem preocupações, porque a situação com a Rússia pode se deteriorar”, disse John Charalambakis, um dos donos do BlackSummit Financial Group, firma americana de administração de ativos que também compete pelo controle de Alexandrópolis. “O fato de a Rússia estar usando a energia como arma é importante.”

Porto de Alexandrópolis estava esquecido até ser usado na guerra na Ucrânia  Foto: Eirini Vourloumis/The New York Times

Laços

Preocupações sobre os vínculos de Copelouzos com a Rússia reverberam entre alguns membros do Congresso americano. O grupo é privado e não publica seu desempenho financeiro, mas afirma que seu empreendimento conjunto com a Gazprom representa uma fatia minúscula de sua carteira de negócios, que abrange os setores de construção civil, imobiliário e de energia.

“O grupo tem negócios em todo o mundo com muitas empresas”, afirmou Ioannis Arapoglou, diretor do Copelouzos Group. A Prometheus Gas “é apenas um deles; e relativamente pequena para o tamanho da empresa”.

Ele notou que a família Copelouzos está investindo no projeto de um terminal de gás natural liquefeito próximo a Alexandrópolis, destinado a reduzir a dependência dos Bálcãs do gás russo, aumentando o fornecimento dos EUA.

Charalambakis, o empresário americano, afirma que seu interesse no porto começou em 2018, quando o então embaixador americano na Grécia, Geoffrey Pyatt, lhe disse que os EUA precisavam começar a competir com Rússia e China na região. A crescente atenção de Washington ficou evidente quando o senador Robert Menendez, de New Jersey, presidente da Comissão de Relações Exteriores, fez uma visita surpresa a Alexandrópolis.

Privatizações

A Grécia tem privatizado empresas estratégicas desde o início de sua crise da dívida, em 2009. O Porto de Tessalônica ficou com Savvidis. O Porto de Pireu, o maior da Grécia, foi arrematado por uma estatal chinesa.

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Pyatt, que deixou o cargo em maio, tem apoiado os lances americanos por Alexandrópolis. A outra interessada dos EUA, Quintana Infrastructure & Development, recusou-se a comentar o caso.

A virada do Copelouzos Group na direção de parceiros americanos espelha uma realidade econômica em transformação, à medida que a economia russa, sufocada por sanções, busca alternativas.

Os gregos esperam que a guerra na Ucrânia e as tensões regionais transformem o porto em uma rota alternativa aos estreitos controlados pela Turquia. “Toda crise cria oportunidades”, disse Konstantinos Chatzikonstantinou, diretor da Autoridade Portuária de Alexandrópolis. TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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