Como um plano para aumentar diplomatas russos nos EUA traz o risco do ‘retorno’ de espiões

Governo Trump está negociando a volta de mais diplomatas russos aos Estados Unidos. Alguns provavelmente são espiões

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Por Paul Sonne (The New York Times) e Michael Crowley (The New York Times)

Conforme busca transformar suas relações com a Rússia, o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, está conversando com Moscou sobre readmitir diplomatas russos após anos de expulsões. Mas o gesto, que pode ser retribuído pelos russos, pode ser uma espécie de Cavalo de Troia, afirmam especialistas e diplomatas, uma vez que o Kremlin pode enviar espiões entre os readmitidos para restaurar parte de suas capacidades de inteligência nos Estados Unidos.

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Representantes dos dois países se encontraram no mês passado em Istambul para discutir o retorno de diplomatas, após anos de expulsões e o fechamento de instalações diplomáticas. As conversas, parte de uma rápida reaproximação entre o Kremlin e a Casa Branca, ocorreu na residência do cônsul americano.

Dias antes, em Riad, na Arábia Saudita, uma delegação liderada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e representantes de alto escalão de Moscou concordaram “em garantir que nossas missões diplomáticas possam funcionar”, como explicou Rubio a jornalistas. Os dois lados dizem que isso pode pavimentar o caminho para um acordo de paz mais amplo para encerrar a guerra na Ucrânia.

As bandeiras da Rússia e dos EUA na Embaixada dos EUA no centro de Moscou em 5 de novembro de 2024, dia da eleição presidencial americana: reaproximação cada vez maior  Foto: Alexander Nemenov / AFP

Um acordo para normalizar as operações diplomáticas pode permitir que os EUA lancem atividades de espionagem próprias: há anos Washington posiciona espiões em sua embaixada e consulados na Rússia. Mas especialistas dizem que mesmo se um acordo expandir os contingentes diplomáticos em números similares, espiões russos podem ter uma vantagem ao trabalhar em uma sociedade mais aberta, como a dos EUA.

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O novo acesso, combinado com os acenos de Trump ao presidente russo, Vladimir Putin, podem soar como uma oportunidade para o aparato de espionagem do Kremlin, no momento em que as operações russas contra o Ocidente se tornaram mais agudas, afirmam especialistas de inteligência e ex-diplomatas.

Dentro do governo Trump agora há vários integrantes simpáticos às visões de mundo do Kremlin, levantando dúvidas se continuarão a priorizar a contrainteligência contra a Rússia. E a indicação de Kash Patel e do comentarista conservador Dan Bongino para a liderança do FBI, a polícia federal americana, promete mudanças nas operações para rastrear espiões russos.

“Se eu estivesse sentado em Iasenevo ou Lubianka e trabalhando contra americanos, estaria esfregando minhas mãos com alegria”, disse Paul Kolbe, pesquisador no Centro Belfer para Ciência e Assuntos Internacionais na Universidade Harvard, se referindo às sedes das inteligências estrangeira (SVR) e doméstica (FSB) russas.

No ano passado, a Rússia planejou usar explosivos improvisados em aviões de carga na Europa, além de tentar assassinar o presidente de uma empresa de armas que fornece seus produtos para a Ucrânia. Os russos ainda foram acusados de liderar uma campanha de sabotagem destinada a elevar os custos do apoio europeu para Kiev.

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Especialistas dizem que a Rússia está ansiosa por uma reversão das recentes ações dos EUA contra seus agentes de inteligência que trabalham sob a fachada de postos diplomáticos.

Conforme a hostilidade entre os EUA e a Rússia aumentou nos últimos anos, três presidentes americanos expulsaram mais de 100 diplomatas acusados de espionagem e fecharam algumas instalações russas, muitas das quais eram, segundo as autoridades americanas, usadas para atividades de inteligência.

A Rússia respondeu da mesma forma, e agora os dois lados impuseram um limite ao número de diplomatas permitidos em seus países. Com isso, equipes básicas permanecem nos postos, incluindo poucos integrantes de agências de informação.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, participa de uma missa em Moscou, Rússia  Foto: Alexander Zemlianichenko / AP

A presença dos EUA na Rússia foi reduzida em cerca de 90%, passando dos anteriores 1,2 mil diplomatas e trabalhadores de apoio espalhados em cinco representações para os atuais 120 americanos na embaixada em Moscou, de acordo com antigos funcionários do governo dos Estados Unidos. O Departamento de Estado diz que não discute questões relacionadas aos seus funcionários por motivos de segurança.

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Cerca de 220 diplomatas russos permanecem nos EUA, segundo um dos ex-integrantes do governo americano. A maior parte está na embaixada em Washington, mas alguns estão na missão do país na ONU, em Nova York, e em um consulado em Houston.

Os governos reclamam que mesmo funções diplomáticas simples, como o processamento de vistos e o apoio a cidadãos, se tornaram quase impossíveis. No mês passado, Rubio disse que trabalharia “para rapidamente restabelecer a funcionalidade de nossas missões”.

Russos e americanos “identificaram passos iniciais concretos” em Istambul, e esperam se encontrar novamente, disse o Departamento de Estado em comunicado.

Imagem de 2017 mostra russo Serguei Cherkasov, espião que se disfarçava de cidadão brasileiro. Inserção de espiões com passaportes falsos é prática comum na Rússia Foto: Departamento de Justiça dos EUA/Reprodução

A delegação russa em Riad foi liderada por Alexander Darchiev, um diplomata veterano que foi indicado como novo embaixador em Washington. A delegação americana foi comandada por Sonata Coulter, funcionária de carreira do Departamento de Estado que já serviu na Rússia.

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Se a expansão do quadro diplomático incluir espiões dos dois lados, os russos podem sair em vantagem. Moscou é muito agressiva sobre a indicação de agentes de inteligência que trabalham sob credenciais diplomáticas, disse um ex-diplomata americano. Também é mais fácil para os agentes russos operarem nos EUA, que não enfrentarão as mesmas dificuldades dos americanos em um país autoritário e em estado de guerra, como a Rússia, afirmou Kolbe, que trabalhou por 25 anos na CIA.

Os cortes de funcionários no serviço público também podem beneficiar o Kremlin. Para Kolbe, “todos os fatores que criam potencial para entrada ou recrutamento”, incluindo descontentamento político, simpatia ideológica, problemas financeiros ou raiva dos chefes parecem estar em jogo agora.

Por outro lado, disse Andrei Soldatov, especialista em inteligência russa baseado em Londres, simplesmente conversar com um americano agora é um risco para funcionários do governo russo. “Até isso pode ser considerado um crime”, afirmou. “Você pode ser classificado como um agente estrangeiro ou ser acusado de alta traição”.

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