Comunicações interceptadas mostram os planos do Hamas para 7 de Outubro

Memorando e gravações convocavam os combatentes a mirarem em soldados e comunidades civis, segundo autoridades israelenses

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Por Ronen Bergman (The New York Times) e Adam Rasgon (The New York Times)

Após assassinar um importante comandante do Hamas, Muhammed Sinwar, em maio de 2025, as forças armadas israelenses enviaram uma unidade especial a um complexo subterrâneo que ele havia usado. Lá, encontraram um computador desconectado da rede — e muito mais difícil de ser acessado pelas operações israelenses que espionavam as comunicações do Hamas.

Os destroços queimados na vila de Kfar Azza, Israel, em 25 de março de 2024. O prédio foi arruinado durante o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023. Foto: (Avishag Shaar-Yashuv/The New York Times)

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O computador continha a imagem de um memorando de seis páginas, escrito à mão em árabe, que a comunidade de inteligência israelense acredita ter sido redigido por seu irmão Yahya Sinwar, que, como poderoso líder do Hamas em Gaza, ajudou a planejar o ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel. Datado de 24 de agosto de 2022, parece ser uma diretiva de Sinwar com instruções para o ataque, de acordo com sete autoridades israelenses.

O memorando, cuja cópia foi obtida pelo The New York Times, pede que os combatentes tenham como alvo soldados e comunidades civis — bem como transmitam os atos violentos para evocar o medo nos israelenses e desestabilizar o país. Os comandantes então emitiram instruções semelhantes em 7 de outubro, de acordo com horas de comunicações anteriormente não divulgadas entre comandantes e subordinados interceptadas por Israel durante o ataque e compartilhadas com o The Times.

As autoridades israelenses afirmam que o memorando mostra que Sinwar queria que seus combatentes atacassem civis desde o início, contrariando o que a liderança do grupo afirmou publicamente.

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Embora o memorando não mencione explicitamente planos para sequestrar ou matar civis, ele dá ordens para que os combatentes entrem em bairros residenciais e os incendeiem “com gasolina ou diesel de um caminhão-tanque”.

“Duas ou três operações, nas quais um bairro inteiro, kibutz ou algo semelhante será incendiado, devem ser preparadas”, dizia o memorando.

Vídeo divulgado por Israel mostra líder do Hamas Yahya Sinwar em túnel subterrâneo horas antes de ataque de 7 de outubro. Foto: FOTO EXERCITO DE ISRAEL

Ecoando o memorando, pouco antes das 10h do dia 7 de outubro, um comandante de um batalhão da cidade de Gaza conhecido como Abu Muhammed disse aos seus subordinados: “Comecem a incendiar casas”.

“Queimem, queimem”, disse ele, de acordo com as interceptações. “Quero que todo o kibutz esteja em chamas”.

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“Incendeiem tudo”, disse um comandante da cidade de Jabaliya, no norte de Gaza, conhecido como Abu al-Abed, mais ou menos na mesma hora.

O memorando e as interceptações ampliam a compreensão do planejamento e da execução do ataque de 7 de outubro pelo Hamas, complementada por outros documentos e gravações coletados por Israel durante a guerra. Israel e o Hamas concordaram agora com um cessar-fogo, com o futuro do grupo militante em Gaza incerto.

Sima Ankona, que anteriormente atuou como especialista em análise de documentos na polícia israelense, disse que a caligrafia no memorando corresponde a outros exemplos de Yahya Sinwar, que foi morto pelas forças israelenses em outubro de 2024. A pedido do The Times, Ankona comparou o documento com amostras coletadas pelas autoridades israelenses, incluindo aquelas capturadas pelos militares em Gaza, uma nota que Sinwar escreveu ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em 2018 e sua assinatura em uma declaração à polícia israelense em 1989. (Ele foi condenado no final daquele ano por matar quatro palestinos suspeitos de colaborar com Israel.)

O The Times traduziu o memorando. Várias palavras e frases nele aparecem em outros documentos do Hamas anteriormente analisados pelo The Times.

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Izzat al-Rishq, diretor do escritório de mídia do Hamas com sede no Catar, não respondeu a uma lista de perguntas detalhadas, incluindo se a liderança do Hamas fora de Gaza estava ciente do memorando e das ordens que os comandantes deram aos militantes em 7 de outubro.

Ibrahim Madhoun, analista palestino próximo ao Hamas, colocou em dúvida a autenticidade do memorando, afirmando que a maioria dos atos descritos no documento não ocorreu no ataque de 7 de outubro, como a queima de bairros inteiros. (Muitas casas foram incendiadas durante os ataques.) Ele acrescentou que o memorando não representava a cultura da ala militar do Hamas.

Casa danificada após os ataques de 7 de outubro de 2023 em Kibbutz Nir Oz, no sul de Israel. Foto: (Photo by JOHN WESSELS / AFP)

As interceptações foram coletadas no dia do ataque pela 8200, a unidade de inteligência de sinais do exército israelense, de acordo com três autoridades de segurança israelenses, que as compartilharam com o The Times. O The Times revisou e traduziu horas de gravações interceptadas, que incluíam comunicações em árabe entre comandantes e oito grupos de combatentes.

O memorando e as interceptações, disseram várias autoridades israelenses, foram estudados por Israel para aprofundar sua compreensão do ataque do Hamas. O Instituto Gazit, um think tank afiliado à diretoria de inteligência militar israelense, preparou um relatório confidencial sobre os materiais, dizendo que a “liderança do Hamas planejou e executou um ataque que apresentou atos de ‘brutalidade extraordinária’”.

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“Seu objetivo era causar grande turbulência no país e nas forças armadas”, disse o relatório, que foi analisado pelo The Times.

As falhas de segurança reveladas no ataque de 7 de outubro, incluindo o fracasso de Israel em encontrar tais documentos com antecedência e sua desconsideração por outros avisos, levaram a uma ampla investigação pela comunidade de inteligência israelense. O ataque, o dia mais mortal para os judeus desde o Holocausto, abalou o senso de segurança de Israel.

Todos os funcionários israelenses falaram sob condição de anonimato para discutir assuntos delicados.

Durante o ataque de 7 de outubro, o Hamas e seus aliados mataram cerca de 1,2 mil pessoas e sequestraram outras 250 para Gaza. Em resposta, Israel lançou todo o seu poderio militar em uma guerra que matou dezenas de milhares de pessoas em Gaza, deslocou a maioria de seus residentes e reduziu cidades a escombros.

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Palestinos deslocados caminham por uma área cercada por prédios destruídos em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, sábado, 11 de outubro de 2025, após Israel e Hamas concordarem com uma pausa em sua guerra e a liberação dos reféns restantes. Foto: (Foto AP/Jehad Alshrafi)

Israel foi condenado internacionalmente por sua conduta na guerra e enfrentou acusações de crimes de guerra por parte de grupos de direitos humanos. Foi acusado por uma comissão das Nações Unidas de cometer genocídio, o que o governo israelense negou.

Em maio de 2024, Karim Khan, promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional, acusou Yahya Sinwar e dois outros altos funcionários do Hamas de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo “extermínio” e “assassinato”. Os crimes foram cometidos como parte de “um ataque generalizado e sistemático contra a população civil de Israel pelo Hamas e outros grupos armados”, disse Khan ao anunciar as acusações.

De acordo com o direito internacional, exércitos e grupos armados não devem deliberadamente atacar civis ou infligir danos desproporcionais a eles para atingir objetivos militares. Em particular, matar e fazer reféns aqueles que não estão envolvidos nas hostilidades são violações graves das Convenções de Genebra.

O memorando manuscrito e as interceptações oferecem uma visão mais detalhada do pensamento do grupo e de suas ações em tempo real.

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O memorando delineava um plano para um ataque surpresa a Israel, pedindo que tratores abrissem brechas na cerca que separa Gaza e Israel e que várias ondas de atacantes fossem enviadas.

Ele expressava a esperança de que os atos causassem grande impacto. “Pisoteiem as cabeças dos soldados”, dizia.

Ele listava “abrir fogo contra soldados à queima-roupa, massacrar alguns deles com facas, explodir tanques”.

Os comandantes repetiram instruções semelhantes no dia do ataque, de acordo com as interceptações. “Cortem suas gargantas”, disse um comandante de um batalhão no norte de Gaza à sua equipe. “Cortem-nas como foram treinados.”

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Palestinos a caminho da cidade de Gaza através do chamado "corredor de Netzarim", a partir de Nuseirat, na região central da Faixa de Gaza, em 11 de outubro de 2025 Foto: (Photo by Eyad BABA / AFP)

Cerca de 300 soldados foram mortos no ataque de 7 de outubro, de acordo com as autoridades israelenses.

As interceptações captaram combatentes do Hamas pedindo amplamente por violência e fazendo prisioneiros.

Quando um militante perguntou se deveria confrontar as pessoas na estrada, um comandante de um batalhão de Jabaliya conhecido como Abu Muath respondeu afirmativamente: “Matem todos na estrada”, disse ele. “Matem todos que encontrarem.”

“Agora estamos no início do kibutz”, disse um combatente. “Exterminamos todos que estavam lá. Há colonos que matamos.”

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“Pessoal, façam muitos reféns”, disse o comandante Abu Muath, de acordo com as interceptações. “Façam muitos reféns.”

As ações do grupo, dizia o memorando, deveriam ser transmitidas ao mundo árabe para mobilizar pessoas fora de Gaza a se juntarem à luta. O plano previa que os palestinos na Cisjordânia, os árabes em Israel e “nossa nação” — uma referência aos árabes ou muçulmanos ou ambos — “respondessem positivamente aos apelos para que se juntassem à revolução”.

“É preciso afirmar aos comandantes das unidades que realizem essas ações intencionalmente, filmem-nas e transmitam as imagens o mais rápido possível”, dizia o memorando.

As atas das reuniões secretas do Hamas antes do ataque de 7 de outubro também mostram como Sinwar estava determinado a persuadir os aliados do Hamas, Irã e Hezbollah, a se juntarem ao ataque ou se comprometerem com uma luta mais ampla contra Israel.

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Nas interceptações de 7 de outubro, os comandantes do Hamas podem ser ouvidos exortando os combatentes a filmar suas ações para, da mesma forma, encorajar outros a se juntarem à luta. “Documentem as cenas de horror, agora, e transmitam-nas em canais de TV para o mundo inteiro”, disse um comandante da cidade de Gaza chamado Abu al-Baraa aos operativos na área do kibutz Sa’ad. “Massacrem-nos. Acabem com os filhos de Israel.”

Abu Muath, o comandante, disse: “É essencial que vocês tragam o drone para que ele filme para todo o mundo islâmico”.

Autoridades do Hamas também fizeram declarações públicas no dia do ataque, incentivando pessoas fora de Gaza a participar da batalha, embora tenham falhado em incitar uma revolta popular.

As forças armadas israelenses “não serão capazes de participar de confrontos em outras frentes”, disse Saleh al-Arouri, vice-líder do escritório político do Hamas, em uma mensagem gravada transmitida pela Al Jazeera em 7 de outubro. “Depois de hoje, ninguém poderá conter seu rifle, bala, pistola, faca, carro ou coquetel molotov.” Israel assassinou al-Arouri em janeiro de 2024.

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