BRUXELAS — Por trás da demonstração de unidade que líderes da União Europeia tentam mostrar para os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Rússia, Vladimir Putin, existem diferenças profundas. Essas divergências têm surgido em importantes discussões sobre como continuar armando a Ucrânia sem o financiamento americano e como responder a um confronto cada vez mais tenso com a Rússia.
Os líderes europeus, como o presidente francês, Emmanuel Macron, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, dizem que os riscos são mais altos do que nunca, em meio à nova pressão de Washington por um acordo para encerrar a guerra da Rússia na Ucrânia, e, por isso, o bloco precisa de união.
Mas enquanto os europeus tentam conter as forças externas, enfrentam divisões internas. Os pontos de desacordo envolvem principalmente o financiamento da guerra da Ucrânia e o destino de ativos russos congelados em Bruxelas.

O continente também está dividido sobre o quanto Moscou realmente representa uma ameaça, já que aqueles que vivem nas fronteiras da Rússia alertam que seus vizinhos a oeste não estão sendo suficientemente agressivos. Isso sem mencionar a Hungria, cujo primeiro-ministro, Viktor Orbán, aliado do Kremlin, está se aproveitando de sua amizade com Trump e de um escândalo de corrupção na Ucrânia para criticar a política da UE.
Temendo uma Rússia fortalecida à sua porta, os principais líderes europeus rejeitaram algumas ideias de Washington, seu aliado tradicional, e prometeram continuar fortalecendo a posição do presidente ucraniano Volodmir Zelenski. Eles contestaram as propostas iniciais dos EUA que limitavam a presença da Otan ou os poderes da UE para manter as sanções ou aceitar a Ucrânia como novo membro.
“As sanções são muito importantes, mas esse não pode ser o único ponto em que concordamos”, disse o eurodeputado Brando Benifei. “A UE está dividida… Em política externa, são 27 entidades fragmentadas que precisam concordar em cada passo, e isso torna extremamente difícil ser ousado, criativo e encontrar uma solução.”
O depoimento da família de jovem que se alistou para a guerra na Ucrânia
O jovem Miguel Rissi Picolli, de 20 anos, saiu do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul e, sem experiência militar ou em combates, embarcou para a Ucrânia para. Crédito: Luciano Nagl, Especial para o Estadão
Sem maior independência, alertou ele, os europeus correm o risco de serem “absorvidos pelas esferas de influência” dos EUA, da Rússia ou da China: “Esse não é o destino que eu gostaria para a Europa, e a autonomia exige união”.
As nações europeias tornaram-se os maiores apoiadores de Kiev desde que os EUA retiraram o apoio financeiro direto, embora encontrar recursos em economias estagnadas seja um assunto cada vez mais delicado.
O controverso plano da UE para acessar ativos soberanos russos surgiu para preencher essa lacuna, mas permanece em impasse. A Bélgica pode ser a principal exceção, mas outras capitais da UE também têm reservas sobre como gastar os ativos russos.
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Altos funcionários europeus foram a Genebra para conversas no fim de semana com o objetivo de alterar as propostas vazadas, embora suas ideias tenham permanecido à margem das negociações sobre o plano entre os EUA e a Ucrânia.
Agora, a União Europeia corre contra o tempo para chegar a um consenso sobre o financiamento para a Ucrânia, a fim de manter sua influência, disseram diplomatas. Autoridades da UE ainda esperam uma decisão sobre o financiamento antes do Natal.
Gabrielius Landsbergis, ex-ministro das Relações Exteriores da Lituânia, afirmou que a UE não estaria em apuros se tivesse prosseguido com seus próprios planos sobre o “financiamento do caminho a seguir” para a Ucrânia.
“Então, quem se importa com o que for acordado entre americanos e russos se a Europa estiver pronta para fazer o que quiser?”, questionou. Em vez disso, “não conseguimos apresentar algo prático para a Ucrânia, não conseguimos nos apresentar como um lado vencedor, ou pelo menos com ideias de como vencer, para Trump e Putin”.
Isso também se deve a diferentes visões da ameaça. Na Europa Oriental, perto da fronteira entre a Ucrânia e a Rússia, onde países como a Lituânia e a Polônia têm suas próprias histórias, os alarmes em relação à Rússia soam com mais intensidade.

Os países nórdicos também começam a reclamar que contribuem mais para a Ucrânia do que outros, incluindo seus vizinhos mediterrâneos ao sul, que têm sensibilidades de segurança diferentes.
A tensão ameaça explodir se os líderes europeus não conseguirem garantir uma nova fonte de financiamento.
A ministra das Relações Exteriores da Suécia, Maria Malmer Stenergard, disse categoricamente ao Politico nos últimos dias que era “insustentável” e “de forma alguma razoável” que os países nórdicos arcassem com grande parte do custo da ajuda à Ucrânia.
Em uma reunião recente em Bruxelas, o ministro das Relações Exteriores da Lituânia, Kęstutis Budrys, disse a seus homólogos europeus que aprovassem o plano de uso de ativos russos ou disponibilizassem o dinheiro para a Ucrânia a partir de seus orçamentos nacionais.
“Eu sei o que os russos veem e o que pensam de nós, que não podemos lidar com isso”, disse ele. “É por isso que os ativos congelados precisam ser usados… caso contrário, quero ver o dinheiro, não as conversas de solidariedade política. Mostrem-me o dinheiro.”
Na mesma reunião, seu homólogo húngaro chamou o braço executivo da UE, a Comissão Europeia, de “insano” por tentar angariar mais fundos para a Ucrânia.
Rússia avança no sul da Ucrânia enquanto intensifica os ataques na linha de frente
Outras cidades, na região nordeste de Kharkiv na Ucrânia, também testemunharam recentemente um aumento nos combates. Crédito: CENTER FOR INTERNATIONAL COMMUNICATIONS OF UKRAINE
O ministro das Relações Exteriores da Hungria, Peter Szijjarto, disse que a UE deveria ter “interrompido imediatamente os pagamentos à Ucrânia” após uma grande investigação de corrupção ucraniana ter implicado associados de Zelenski. “O establishment em Bruxelas tem vivido sob ilusões”, disse ele. “É uma ilusão dizer que o momento é favorável à Ucrânia.”
Autoridades da UE têm retratado Orbán, da Hungria, como uma ovelha negra solitária, mas temem que Budapeste encontre cada vez mais aliados em outros países, incluindo a Eslováquia, a República Tcheca e — dependendo do resultado das eleições presidenciais francesas de 2027 — possivelmente a França.
Apesar de todas as suas diferenças, os aliados europeus têm mobilizado recursos financeiros e influência diplomática junto a Trump para apoiar Zelenski, ao mesmo tempo que aumentam seus orçamentos de defesa.
No entanto, há menos consenso sobre como lidar com a Rússia. Embora os principais líderes do continente acusem Moscou de tentar desestabilizá-los — alegações que o país rejeita —, eles parecem não conseguir chegar a um acordo sobre como responder.
Após uma explosão que danificou uma linha férrea na Polônia na semana passada, o ministro das Relações Exteriores, Radoslaw Sikorski, acusou a Rússia de “um ato de terrorismo de Estado” e prometeu que a resposta seria “mais do que meramente diplomática”.
A demonstração de força em Varsóvia, contudo, contrasta com a mensagem mais contida de autoridades da Otan e de algumas capitais europeias que pedem calma. Com incursões obscuras de drones abalando cidades europeias há semanas, diplomatas da Otan afirmaram estar aguardando o andamento das investigações, ao mesmo tempo que insistem na necessidade de reforçar as defesas contra Moscou.
“Como Putin pode levar isso a sério?”, questionou Landsbergis, ex-funcionário lituano. “Imagine se a Lituânia for atacada... a única coisa que haverá será uma investigação burocrática?”







