Em Israel, entre agonia e a esperança, parentes de reféns do Hamas seguem na busca pelo cessar-fogo

Em entrevista ao ‘Estadão’, parentes de sequestrados em Gaza relatam a angustia da batalha pela volta de seus entes queridos

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Foto do autor Daniel Gateno
Atualização:

Entre a esperança e a agonia, familiares de reféns do Hamas seguem na busca pelo cessar-fogo

Estadão foi até a fronteira de Israel com Gaza e ouviu relatos dos parentes de sequestrados pelo grupo terrorista.

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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ENVIADO ESPECIAL A TEL-AVIV-Yehuda e Vicky Cohen se tornaram símbolos da luta pela volta dos reféns israelenses que continuam na Faixa de Gaza. Para eles, a busca pelo retorno de seu filho Nimrod, de 20 anos, tem dois inimigos: o grupo terrorista Hamas e o governo israelense.

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“Nosso governo acredita que existem outros objetivos mais importantes que a volta dos reféns, eles querem abusar dos ataques de 7 de outubro para conquistar Gaza e construir assentamentos”, aponta Yehuda, pai de Nimrod, em entrevista ao Estadão na sede do Fórum das Famílias de Reféns israelenses, que fica em um prédio cedido por uma empresa de tecnologia em Tel-Aviv.

Cohen foi sequestrado de dentro de seu tanque em uma base militar em Nahal Oz, perto da fronteira com a Faixa de Gaza. Ele viu seus companheiros de Exército serem assassinados nos ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023 e está mentalmente abalado, segundo relatos de ex-reféns que conviveram com Nimrod no cativeiro.

Yehuda e Vicky Cohen são os pais de Nimrod Cohen, refém do grupo terrorista Hamas  Foto: Daniel Gateno/Estadão

O rosto do refém não apareceu em nenhum vídeo do grupo terrorista Hamas, mas seus pais reconheceram seu braço tatuado em um vídeo em que os agora ex-reféns Yair Horn e Sagui Dekel-Chen se despedem do resto dos sequestrados antes de saírem de Gaza, em fevereiro.

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Durante a conversa com a reportagem do Estadão, a mãe de Nimrod, Vicky Cohen, afirmou que seu filho seria libertado na segunda fase do cessar-fogo que foi quebrado em março, após a libertação de 33 reféns durante a primeira fase.

“Salvar vidas deveria ser a prioridade. Israel rompeu o acordo de cessar-fogo e o meu Nimrod não voltou”, destaca Vicky.

Cartazes de reféns israelenses no prédio do Fórum dos Sequestrados de Desaparecidos de Israel, em Tel-Aviv  Foto: Daniel Gateno/Estadão

Criticas ao governo

O casal ressaltou a urgência e a necessidade do cessar-fogo em uma sala com diversos cartazes com os nomes dos sequestrados. Os que retornaram as suas famílias tinham a palavra home (casa, em inglês) escrita em seus banners. Já os que morreram tinham um desenho de um coração cortado.

Yehuda demonstrou incômodo com a postura de ministros de extrema direita da coalizão do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, como Itamar Ben-Gvir, da pasta de Segurança Nacional, e Bezalel Smotrich, de Economia. Smotrich afirmou em abril que a volta dos sequestrados não era o objetivo mais importante da guerra.

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“As declarações de Smotrich ressaltam as intenções de Netanyahu. Nossa luta de um ano e meio é contra o governo, para evitar que o Hamas assassine o meu filho”, destaca o pai de Nimrod.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, participa de uma coletiva de imprensa em Jerusalém  Foto: Ronen Zvulun/AFP

Negociações emperradas

Em meio a luta das famílias, as negociações por um cessar-fogo seguem emperradas e os dois lados se acusam de prejudicar o acordo. O grupo terrorista Hamas afirma que estaria disposto a libertar todos os reféns, em troca do fim da guerra, mas Netanyahu não quer que o Hamas siga no controle de Gaza e só aceita uma trégua temporária. Ele não apresentou nenhum plano para o pós-guerra em Gaza.

Segundo pesquisas de opinião, cerca de 70% dos israelenses desejam o fim do conflito e a volta dos sequestrados, mesmo que o Hamas continue controlando Gaza. Mas a vontade da maioria dos israelenses não está influenciando as atitudes do governo, que delineou um plano para ocupar 75% do território palestino e encorajar a “saída voluntária” de civis de Gaza para outros países.

Familiares de reféns entrevistados pelo Estadão são contrários ao plano de Netanyahu. “A Faixa de Gaza é deles, não é nossa. Ocupar esse território é um absurdo e não vai trazer o meu filho de volta. Precisamos de um acordo”, aponta Vicky Cohen.

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Até agora, duas tréguas foram negociadas desde o começo da guerra. Na primeira, em novembro de 2023, 105 mulheres e crianças israelenses foram libertadas em troca de prisioneiras palestinas.

Cartazes com os rostos dos reféns israelenses, em Tel-Aviv Foto: Daniel Gateno/Estadão

A segunda ocorreu mais de um ano depois, quando Israel e o Hamas chegaram a um acordo de três fases que poderia levar ao fim da guerra na Faixa de Gaza. Durante a primeira fase de 42 dias, 25 reféns israelense foram libertados vivos e 8 corpos retornaram a Israel, incluindo Shiri Bibas e seus filhos Ariel e Kfir.

Em troca, mais de 2 mil prisioneiros palestinos foram libertados e Israel permitiu o retorno dos cidadãos de Gaza ao norte do enclave. O restante dos reféns vivos seriam libertados na segunda fase do cessar-fogo e os corpos dos sequestrados mortos seriam devolvidos a Israel na terceira fase. Mas o governo Netanyahu optou por mudar os termos do acordo e queria uma extensão da primeira fase da guerra, o que não foi aceito pelo grupo terrorista Hamas.

Sequestrado argentino se despede do irmão e segue em Gaza

O fim do cessar-fogo separou os dois irmãos argentinos Yair e Eitan Horn, que estiveram juntos durante o cativeiro. Yair, de 46 anos, foi libertado na primeira fase da trégua, enquanto Eitan, de 38, segue em Gaza.

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Os dois foram sequestrados durante a invasão do kibbutz Nir Oz, que fica a 2,5 quilômetros da fronteira com Gaza e foi visitado pela reportagem do Estadão. O Hamas filmou a despedida deles, que contou com abraços emocionados e pedidos de continuidade da trégua. O vídeo foi divulgado algumas semanas depois da libertação de Yair, no dia 15 de fevereiro.

Casa de Yair Horn no Kibbutz Nir Oz; Eitan estava visitando o irmão no dia do ataque do Hamas  Foto: Daniel Gateno/Estadão

A cunhada de Yair, Dalia Cusnir, diz que o argentino ainda não começou o processo de recuperação desde a sua libertação porque precisa que seu irmão também volte a Israel. “Os sequestrados que são libertados dizem que não podem retomar suas vidas sem a volta dos outros reféns, eles sentem culpa. Yair me disse que apesar de seu corpo ter retornado, sua cabeça continua na Faixa de Gaza”.

Dalia destaca que os dois irmãos passaram por dificuldades físicas e mentais durante o cativeiro em Gaza. “Yair voltou muito magro e ficou sem ver o sol por quase 500 dias. Eitan segue nessa situação. Os dois eram movidos constantemente de lugar e chegaram a caminhar por dez horas dentro dos túneis”.

A família Horn teme pela saúde de Eitan, que sofre de uma doença de pele e está há mais de 600 dias sem seus medicamentos. Por isso, um cessar-fogo com o grupo terrorista Hamas é urgente e essencial. “Precisamos de mais pressão, temos que fazer de tudo para que Yair não tenha dado o último abraço em Eitan no dia que foram filmados pelo Hamas”.

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Dalia Cusnir é cunhada de Eitan Horn, refém argentino-israelense que segue na Faixa de Gaza Foto: Daniel Gateno/Estadão

Mãe argentina segue lutando pela volta de seus filhos

Outros dois reféns com nacionalidade argentina estão entre os 20 sequestrados que são considerados vivos pelo Exército israelense. Trata-se dos irmãos Ariel e David Cunio, que moravam no Kibbutz Nir Oz.

No dia 7 de outubro de 2023, os dois foram feitos reféns após a invasão do kibbutz. Em Nir Oz, 1 em cada 4 habitantes foram sequestrados ou mortos pelo Hamas.

A mãe dos dois reféns, a argentina-israelense Silvia Cunio, também estava no kibbutz durante os ataques, mas conseguiu, junto com seu marido, barrar a entrada dos terroristas em seu bunker.

“Os terroristas entraram quatro vezes na minha casa, mas não conseguiram chegar no quarto de segurança. Amarramos um cachecol na maçaneta da porta e colocamos um equipamento de academia embaixo dela, por isso eles não entraram”, aponta Silvia, em entrevista ao Estadão.

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A argentina-israelense disse que estava em contato com seus filhos pelo aplicativo Whatsapp, mas parou de receber mensagens às 8h28. “A última mensagem que recebi foi do meu filho Ariel, que disse que estávamos em um filme de terror que não terminava”.

Ariel, de 27 anos, foi sequestrado junto com sua namorada, Arbel Yehud, de 29, que foi libertada em fevereiro. A casa do casal está coberta de tiros e totalmente revirada. Os terroristas do Hamas mataram a cachorra que eles haviam adotado pouco antes dos ataques.

Adesivo pede a libertação de Ariel Cunio, em sua casa no Kibbutz Nir Oz Foto: Daniel Gateno/Estadão

Já David Cunio, de 34 anos, foi sequestrado junto de sua esposa Sharon e suas filhas gêmeas Yuli e Emma. As três foram libertadas no primeiro acordo de trégua, em novembro de 2023.

“Meu coração está rompido e é muito difícil continuar lutando, mas só vou parar quando meus filhos estiverem comigo”, diz Silvia.

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Refém americano volta para casa

A esperança por um novo acordo de cessar-fogo foi renovada com a libertação do refém Edan Alexander, de 21 anos, no dia 12 de maio.

Ele tem cidadania americana e israelense e o acordo por sua libertação foi negociado entre Estados Unidos e Hamas por meio de intermediários, sem nenhuma participação de Israel. Ele era o último refém americano vivo em Gaza.

As famílias dos reféns celebraram a volta de Edan, mas criticaram Israel por não participar das negociações. Os parentes dos sequestrados também questionaram o fato do refém ter sido libertado apenas por ter cidadania americana.

Em declarações à imprensa israelense, Yehuda Cohen, pai de Nimrod, ressaltou a frustração pelo fato de seu filho -que tem apenas o passaporte israelense- ter sido deixado para trás. Ele disse esperar que a libertação de Alexander seja um novo começo para as negociações de um cessar-fogo.

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O americano-israelense Edan Alexander foi libertado pelo grupo terrorista Hamas no dia 12 de maio  Foto: Fórum das Famílias dos Reféns/AP

A maneira como Alexander foi libertado também foi criticada pela oposição do primeiro-ministro israelense. “Os contatos diretos de EUA e Hamas para chegar ao acordo são uma falha vergonhosa da diplomacia do governo israelense e da pessoa que o lidera. Os reféns são nossos, e a responsabilidade de devolvê-los é do governo”, apontou o parlamentar Yair Lapid, em um comunicado.

Washington declarou que a volta de Alexander deve ser tratada como um recomeço nas negociações, mas a insistência de Netanyahu em continuar com seu plano de expansão militar em Gaza pode prejudicar a volta dos reféns.

*O repórter viajou a Israel a convite do Consulado de Israel em São Paulo