Imigrantes repetem rota de judeus dos anos 30 na Europa

Voluntários da fronteira entre Itália e França montam redes clandestinas para ajudar estrangeiros

Por Jamil Chade, Ventimiglia e Itália
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VENTIMIGLIA, ITÁLIA - "Onde estão seus documentos?", gritava um policial em italiano ao egípcio Ahmad Nasser. Sem entender e visivelmente nervoso, ele levantava as mãos, como se fosse um criminoso pego em flagrante. Instantes depois, ele seria colocado à força em uma viatura e levado para uma delegacia. Dali, seria enviado ao sul da Itália para eventual deportação. Seu crime: ser um imigrante ilegal. 

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Nasser, pouco antes, tinha conversado com o Estado e relatado que deixou o Egito na esperança de encontrar trabalho na Alemanha ou na Grã-Bretanha. A Itália seria apenas a porta de entrada. "Você tem ideia do que é não ter futuro?", disse. 

Quando chegou à Europa, porém, descobriu que as fronteiras da Itália com os vizinhos estavam fechadas. Teria dificuldades para atingir seu objetivo. Sem saber o que fazer para seguir viagem, perambulava pela cidade de Ventimiglia, na fronteira entre a Itália e a França. Mas, naquele dia, não teve sorte. Ao se sentar em um muro, foi identificado por um carro da polícia que, como se tivesse visto um crime hediondo, ligou os faróis, sirene e prendeu o "criminoso". 

Em Ventimiglia (Itália), os imigrantes Youssef e Omar, do Sudão, aguardam a noite para iniciar o último trajeto pelas montanhas até aFrança. Foto: Jamil Chade/Estadão

Se sírios, iraquianos e imigrantes de outras nacionalidades contam com certa proteção por serem considerados refugiados de guerra, milhares de outros estrangeiros que tentam uma vida melhor na Europa como imigrantes não têm auxílio da ONU, garantias legais e muito menos simpatia dos governos europeus. Pelo continente, partidos têm vencido eleições com um slogan simples: "Não podemos receber toda a pobreza do mundo".

Enquanto governos europeus têm fracassado em encontrar uma solução para o fluxo de estrangeiros, a única política comum hoje na UE tem sido a da repressão. Um verdadeiro esquema de guerra foi montado, com patrulhas no Mediterrâneo, uso de satélites e novos muros pelo continente. 

Depois de andar toda uma noite pela floresta e acompanhando o Rio La Roya entre as montanhas, aqueles que não são pegos pela polícia chegam ao outro lado da fronteira. A rota é a mesma usada, nos anos 30 e 40, por milhares de judeus para fugir de leis antissemitas.

Estudos realizados na região contam como, ainda em 1938, agentes de fronteira, policiais e fazendeiros locais passaram a ajudar judeus alemães a fugir usando a rota. A situação mudaria dramaticamente quando Roma e o regime de Vichy passaram a adotar leis que agradariam ao Reich.

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Quase 80 anos depois, imigrantes fazem, sem saber, o mesmo percurso. Mas o desafio não termina ao pisar em solo francês. Pela lei, a polícia tem o direito de devolver à Itália todos aqueles que estejam na proximidade das fronteiras. Por isso, o objetivo máximo é deixar a região. 

Para isso, esses estrangeiros têm contado com aliados inesperados: os moradores dessa região montanhosa entre França e Itália. De forma clandestina, alguns deles passaram a ajudar centenas de imigrantes a fazer seu caminho pelo continente. 

Um deles é Cedric Herrou, um pequeno produtor da zona dos Alpes franceses que se dedica a vender azeite de oliva, ovos e outros alimentos. Ao Estado, ele diz que, nos últimos meses, eram cada vez mais frequentes as cenas de estrangeiros sendo retirados de forma violenta dos trens e ônibus. "Parecia cena da Alemanha nazista. Eu podia fechar os olhos ou agir", afirma o produtor, de 37 anos.

Em um primeiro momento, ele transformou sua casa, incrustada na montanha, para esconder os imigrantes. Naquele santuário, poderiam comer, descansar e tratar feridas, antes de seguir caminho. Mas Herrou decidiu que apenas oferecer abrigo não era suficiente. Com outros moradores, passou a usar seu pequeno furgão para garantir que, pelas montanhas, esses estrangeiros chegassem até trens que os levassem para longe dali. Em menos de seis meses, ele conta que já ajudou a transportar mais de 200 estrangeiros entre a Itália e sua chácara, do lado francês. 

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Em agosto, ele chegou a ser preso e afirma que a polícia foi alertada por moradores da região que são contrários à atitude dos voluntários. Um juiz de Nice, porém, considerou que Herrou não agia por dinheiro, não era um contrabandista de pessoas e, portanto, não poderia ser julgado. Não existe lei na Europa que criminalize a ajuda a um estrangeiro. Por enquanto. 

A rota clandestina, porém, ganhou fama, atraindo dezenas de estrangeiros. Ativistas, médicos voluntários e ONGs também passaram a agir na região. Herrou encontrou um novo esconderijo para os estrangeiros, usando um armazém abandonado no vilarejo de Saint Dalmas de Tende, na França, e entre as montanhas, onde o Estado os encontrou. 

"Eu quero viver em Paris", diz Wegatha, uma eritreia de apenas 17 anos que viaja sozinha. Ela diz que, na Itália, um taxista pediu € 250 para atravessar a fronteira. "Eu não acreditei que ele conseguiria e optei por caminhar", disse a jovem, que recebeu ajuda dos voluntários das montanhas. "Meus pais acham que, desde que cheguei à Europa e sobrevivi ao mar, eu vivo como uma princesa. Vou deixar eles acharem isso", comentou, enquanto tentava se esquentar do outono de baixas temperaturas nas montanhas. 

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A reportagem acompanhou como muitos, depois de chegar a Ventimiglia, cruzam a fronteira para a França por um caminho nada tradicional: atravessando florestas e montanhas a pé. Yousseff e Omar, dois amigos do Sudão, fariam na noite de quinta-feira o trajeto, sem saber exatamente até onde isso os levaria. "Acho que não vai ser mais perigoso do que o mar. Disseram que é só seguir um rio", comentou Omar, entre um sorriso nervoso e um semblante de fadiga. "Estamos viajando desde 2014", disse.

Parte dos argumentos dos contrários à imigração tem uma justificativa de segurança: a inteligência obtida por diversos governos confirma que alguns terroristas estariam usando o mesmo trajeto feito por imigrantes e refugiados para entrar na Europa. Apenas em 2015, dados oficiais apontam que 284 mil ordens de expulsão de estrangeiros foram emitidas pelos governos europeus. No primeiro trimestre de 2016, foram mais 69 mil expulsões. Isso sem contar outros 117 mil barrados nas fronteiras e enviados de volta a seus países no ano passado.

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