Explosão de venda de armas semiautomáticas explica ataques a tiro nos EUA; leia análise

Foto: William Luther/The San Antonio Express-News via AP

Por mais de uma década, armas de fogo compradas para proteção pessoal, vendem mais que rifles; o índice de violência, especialmente contra crianças, só cresceu

Por Thomas Fuller
Atualização:

THE NEW YORK TIMES - A repetição do horror anestesia a mente: apenas 11 dias atrás houve o massacre de Buffalo, em que um homem tomado pelo racismo matou a tiros 10 pessoas em um supermercado. No dia seguinte, outro homem furioso entrou em uma igreja presbiteriana em Laguna Woods, Califórnia, matou uma pessoa e feriu outras cinco. E agora, em Uvalde, Texas, uma repetição do que já foi considerado impensável: o massacre de pelo menos 19 crianças em idade escolar, de segunda, terceira e quarta séries.

“Acho que isso é algo em nossa sociedade que sabemos que acontecerá repetidamente e incessantemente”, afirmou Neil Heslin, cujo filho de 6 anos, Jesse Lewis, morreu no massacre na Escola de Ensino Fundamental de Sandy Hook, em 2012.

A tristeza aumenta, mas nem assim as coisas mudam, e restam aos americanos listas de acontecimentos, anotações mentais sobre a morte que consideram eventos como o massacre em Uvalde mais um registro mórbido, tratando-o com superlativos como “o segundo massacre mais mortífero em uma escola de ensino fundamental”.

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Grupo realiza oração em vigília na Robb Elementary School, alvo do ataque a tiros da última terça-feira, 24.
Grupo realiza oração em vigília na Robb Elementary School, alvo do ataque a tiros da última terça-feira, 24. Foto: Ivan Pierre Aguirre/The New York Times

Cada episódio evoca atrocidades do passado, à medida que detalhes exatos dos massacres se tornam mais indistintos a cada ano: Os mais recentes 21 mortos na Escola Robb de Ensino Fundamental, no Texas, superam o número de mortos em Parkland, Flórida, em 2018, quando 17 pessoas perderam a vida. E quase alcançam o índice do massacre em escolas mais mortífero — quando 26 pessoas foram mortas, em 2012, na Escola de Ensino Fundamental de Sandy Hook, em Newtown, Connecticut.

Esta é a matemática dos massacres a tiros nos EUA.

Essas três matanças em escolas — Newtown, Parkland e agora Uvalde — eclipsaram o massacre de Columbine, em 1999, quando eventos desse tipo ainda tinham o poder de chocar a nação.

As razões para a violência são familiares e incontestáveis. Há nos EUA muito mais armas de fogo do que cidadãos — cerca de 400 milhões de armas de fogo, segundo uma pesquisa de 2018 realizada pelo projeto apartidário Small Arms Survey, entre 331 milhões de habitantes.

Por mais de uma década agora, armas de fogo curtas semiautomáticas, compradas para proteção pessoal, vendem mais que rifles, usados tipicamente para caçar.

Mulher visita memorial às vítimas de Columbine, no aniversário de 20 anos do massacre, em 2019.
Mulher visita memorial às vítimas de Columbine, no aniversário de 20 anos do massacre, em 2019. Foto: Rick Wilking/ Reuters

E a pandemia de coronavírus desencadeou uma febre ainda maior de compra de armas de fogo. A produção anual de armas de fogo nos EUA cresceu de 2,9 milhões, em 2000, para 11,3 milhões em 2020, de acordo com um relatório publicado este mês pela Agência de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos. A grande maioria dessas armas de fogo permaneceu nos EUA.

O índice de violência, especialmente contra crianças, só cresceu. Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças constataram que o número de mortes de crianças e adolescentes até 14 anos causadas por armas de fogo cresceu aproximadamente 50% entre o fim de 2019 e o fim de 2020.

No ano passado, mais de 1.500 crianças e adolescentes menores de 18 anos foram mortos em ações homicidas ou por disparos acidentais, contra 1.380 em 2020, de acordo com o Gun Violence Archive, base de dados que registra mortes causadas por armas de fogo.

Muitos detalhes a respeito do massacre em Uvalde ainda não vieram a público, incluindo as armas usadas pelo atirador — um homem de 18 anos que morreu na cena do crime, segundo as autoridades — e a maneira como ele as obteve. Mas a comoção sobre as mortes é lamentavelmente familiar.

“Por que nos dispomos a conviver com essa carnificina?”, disse o presidente Joe Biden na noite da terça-feira, após retornar de sua viagem à Ásia. “Por que continuamos permitindo que isso aconteça?”.

Menina é consolada no Centro Cívico de Uvalde, após massacre em escola primária.
Menina é consolada no Centro Cívico de Uvalde, após massacre em escola primária. Foto: Marco Bello/ REUTERS

O senador Chris Murphy, de Connecticut, que era um jovem legislador quando as crianças de Sandy Hook foram mortas, exortou seus colegas senadores à ação na terça-feira. “O que estamos fazendo? O que estamos fazendo?”, disse ele no recinto do Senado.

Foram perguntas com respostas típicas: Não estamos fazendo grande coisa no nível federal. Os republicanos, com frequência apelando para a Segunda Emenda, bloqueiam esforços para impor checagens mais rígidas de antecedentes sobre compradores de armas de fogo toda vez que um novo grande massacre cutuca a consciência do país. Ainda assim, horas depois da matança em Uvalde, o senador Chuck Schumer, democrata de Nova York e líder da maioria, movimentou-se para forçar votações nos próximos dias sobre um projeto de lei que tornaria mais rígidas as checagens de antecedentes.

Enquanto isso, certos Estados avançaram com algumas das leis de armas de fogo menos restritivas nos EUA; como o Texas, gabando-se por ser um Estado com donos de armas responsáveis — mesmo com seu histórico recente de massacres em massa.

O governador Greg Abbott sancionou uma lei abrangente, em 2021, que pôs fim à exigência para os texanos de obter licenças para portar armas de fogo, virtualmente permitindo que qualquer pessoa com mais de 21 tenha permissão para portar uma. A lei divisora de águas fez do Texas o maior Estado a adotar a lei do “porte constitucional”, que basicamente elimina a maioria das restrições sobre a possibilidade de portar armas de fogo.

Abbott a descreveu como “a legislação com base na Segunda Emenda mais forte na história do Texas”.

Massacres em massa ficaram tão comuns nos EUA que apenas uma pequena fração dos incidentes chega a atrair atenção mais ampla, além das comunidades diretamente afetadas. No mesmo fim de semana da matança em Buffalo, pelo menos 12 pessoas foram feridas por disparos de arma de fogo no centro de Milwaukee, próximo à arena esportiva em que uma partida de playoff da NBA havia sido disputada horas antes, afirmaram as autoridades.

Duas semanas antes, o proprietário e dois funcionários do motel Broadway Inn Express, em Biloxi, Mississippi, foram mortos a tiros, e outra pessoa também recebeu um disparo fatal durante um roubo de carro.

Menos de duas semanas antes disso, uma bateria de disparos em Sacramento matou 6 pessoas e feriu outras 12, numa ação que, segundo as autoridades, envolveu pelo menos 5 atiradores.

Na segunda-feira, o FBI (polícia federal) revelou dados que indicam um acentuado padrão de escalada em relação a massacres públicos nos EUA.

A corporação identificou 61 ataques de “atiradores ativos” em 2021, que mataram 103 pessoas e feriram outras 130. Foi o maior índice anual desde 2017, quando 143 pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas, números que foram inflados pelo ataque de sniper na Las Vegas Strip.

O total de 2021 representou um aumento de 52% em relação ao registro desse tipo de massacre em 2020, e uma elevação de 97% em relação a 2017, segundo o relatório do FBI intitulado Incidentes com Atiradores Ativos nos EUA em 2021.

Em Uvalde, Rey Chapa tem um sobrinho que estava na escola durante o massacre, mas não ficou ferido.

“É maldade pura”, afirmou Chapa em entrevista, usando um impropério. Ele esperava notícias de sua família e amigos sobre as condições de saúde das outras crianças e navegava no Facebook em busca de informações atualizadas. “Acho que conheço várias crianças que foram mortas.”/ TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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