PUBLICIDADE

Falta de gasolina se agrava na Argentina e vira batalha entre Sergio Massa e Javier Milei

Fim de semana foi marcado por filas em postos de gasolinas e Massa dá ultimato para petroleiras resolverem a crise até meia noite; Milei compara Argentina com Venezuela

Foto do author Carolina Marins
Por Carolina Marins

Muitos argentinos passaram o último fim de semana em uma odisseia para encontrar combustível. A escassez de gasolina e diesel se agravou na semana passada e virou nos últimos dias alvo da disputa eleitoral entre os candidatos a presidente Sergio Massa e Javier Milei. O atual ministro da Economia e candidato da situação culpa as petroleiras pela crise e ameaça limitar as exportações. Já o libertário faz comparações entre a atual crise na Argentina e grave escassez que atingiu a Venezuela nos últimos anos.

PUBLICIDADE

Na segunda-feira, 30, vários postos de gasolina amanheceram com filas de quem buscava combustível. Os que não tinham filas era porque estavam fechados, já sem estoque. A escassez, que começou nas províncias do norte que fazem fronteira com Bolívia e Chile, se espalhou pelo país e já atinge fortemente a cidade de Buenos Aires. Nas redes sociais e em entrevistas televisivas, argentinos contavam que chegavam a passar horas em uma fila. Nesta terça-feira, 31, a situação começava a dar sinais de normalização em Buenos Aires, mas no interior ainda deve se arrastar pelo menos mais uma semana.

Os motivos para a escassez são muitos, desde a incerteza com os preços pós eleições que provocou uma corrida antecipada aos postos, até o aumento de preços dos combustíveis promovidos nas últimas semanas. Mas a principal razão é o baixo preço argentino, que torna mais interessante aos produtores exportarem o produto do que vendê-lo internamente.

Uma placa manuscrita alerta os motoristas que o posto de gasolina está sem gasolina, em meio à escassez de combustível, em La Plata, Argentina, em 28 de outubro de 2023 Foto: Gustavo Garello/AP

Antes das eleições, Massa celebrou um acordo de teto de preços com a petroleira estatal YPF, o que impactou também o preço das produtoras estrangeiras. A média do preço do litro da gasolina na Argentina tem girado em torno de 86 centavos de dólar, quando já deveria ter ultrapassado o 1 dólar. Já em outros países os preços costumam ser de US$ 0,93 no Paraguai, US$ 1,14 no Brasil, US$ 1,36 no México, US$ 1,47 no Chile e US$ 1,95 no Uruguai.

“A escassez de gasolina é um problema de preços relativos. A gasolina é muito barata no mercado local e as empresas preferem exportá-la. O governo acaba de notificá-los e já estão regularizando a situação”, explica Juan Carlos Rosiello, economista na Universidade Católica Argentina (UCA).

Motoristas esperam na fila para reabastecer seus veículos em um posto de combustível AXION em meio à escassez de combustível, em La Plata Foto: Gustavo Garello/AP

Atribuição de culpas

De fato, Sergio Massa saiu em uma cruzada contra os produtores e deu um ultimato. “Se o abastecimento não for resolvido até terça-feira, meia noite, a partir de quarta-feira não poderão enviar um único navio de exportação”, disse. “O petróleo vai primeiro para os argentinos”.

O ministro e candidato disparou contra as petroleiras, atribuindo a elas e a uma especulação de preços a culpa pela crise. “A primeira coisa que quero dizer é que o setor petrolífero argentino está batendo recordes de produção. A segunda coisa que quero dizer é que em algum momento houve quem especulasse que, dependendo do resultado eleitoral, iria haver uma desvalorização, e então fizeram estoque”.

Publicidade

Logo após as eleições primárias, o governo argentino promoveu uma desvalorização de 20% no peso, o que provocou uma escassez de produtos básicos nas prateleiras. Desta vez, temendo um movimento semelhante, os argentinos teriam corrido aos postos, argumenta o ministro.

Motoristas fazem fila em frente a um posto de gasolina para tentar abastecer em Buenos Aires, em 30 de outubro de 2023 Foto: Tomas Cuesta/Reuters

As petroleiras, no entanto, reagiram apontando os dedos ao governo e seu teto de preços, bem como à falta de dólares. Além da falta de gasolina, o diesel também está sendo impactado, e este é um produto que a Argentina precisa importar. Porém, segundo as produtoras, sem os dólares, a YPF - que é responsável pelo refino de 60% do combustível argentino - não consegue pagar seus fornecedores e vê os barcos com seus produtos estacionados no porto esperando pagamento.

Haveria pelo menos seis barcos parados em Río de la Plata. Na sexta-feira, Massa anunciou que ia liberar US$ 80 milhões para a YPF, mas a indústria diz que o valor é suficiente para apenas dois barcos.

A situação começou a atingir turistas na Argentina. Em Mendoza, chilenos que aproveitavam o feriado prolongado no Chile para passear também ficaram presos em filas nos postos de gasolinas. Em algumas cidades havia limite de abastecimento por cliente.

Preços da gasolina e do diesel são exibidos em posto de gasolina durante escassez de combustível em Buenos Aires Foto: Tomas Cuesta/Reuters

PUBLICIDADE

O problema é que a falta de combustível não preocupa apenas os motoristas, mas o setor rural, que conta com uma produção recorde neste verão depois da pior seca que atravessou o país este ano. Em resposta, associações de produtores agropecuários de Buenos Aires e Santiago del Estero anunciaram uma mobilização e protestos pela situação.

“A vida econômica paralisada, e máquinas e tratores impossibilitados de trabalhar. Um campo sem combustível ou um país sem combustível é como um corpo sem sangue!”, afirmaram as associações em um comunicado. “Os gênios da escassez, primeiro de vacinas (desculpa, para eles sim!), de material médico ou de bens de primeira necessidade nas cidades para toda a comunidade, e agora acrescenta-se combustível”.

Uma placa que diz “Não há gasolina nem diesel” é vista em um posto de gasolina em Buenos Aires Foto: Tomas Cuesta/Reuters

Milei compara com Venezuela

“Por um lado Massa deu prazo até amanhã para as petroleiras regularizarem o fornecimento de combustíveis, caso contrário não vai deixar exportar nada. Por outro Milei foi até um posto de gasolina e tirou fotos com as pessoas na fila esperando, aproveitando para dizer que somos Venezuela e estamos com falta de combustível”, pontua Facundo Galván, professor de Ciência Política na Universidade de Buenos Aires (UBA).

Publicidade

“Até o Kun Agüero, que é um jogador de futebol muito conhecido do Manchester City, fez um reels dizendo que já somos como a Venezuela e que era incrível como haviam desabastecido o combustível do país. Está complicado”, completa.

No sábado, o libertário Milei gravou vídeos em que diz que foi abastecer seu carro quando se deparou com a fila de carros em um posto de combustível no norte de Buenos Aires. Ali, o candidato que terminou em segundo no primeiro turno passou a questionar o governo pela crise. “O modelo de castas termina sempre da mesma forma: com escassez ou aumento de preços”, disse depois de tirar selfies com motoristas e trabalhadores do posto.

Desde então, ele dedica seu perfil no X, antigo Twitter, a falar sobre o problema e comparar com a situação da Venezuela. Ele acusou o ministro de provocar a escassez de propósito para “optar por meios violentos” para resolver a situação. “Primeiro controlar os preços… Depois aparece a escassez”, escreveu. “Diante do ridículo, ele decide optar por meios violentos para forçar a oferta”.

Longas filas de carros para abastecer e postos de gasolina com placas de “esgotado” fazem parte da paisagem há vários dias na Argentina Foto: Luis Robayo/AFP

“A falta de gasolina é um cartão postal do futuro que Massa como presidente vai nos trazer”, afirmou o libertário em uma entrevista ao canal LN+. “O que acontece com Massa é o mesmo que acontece com Maduro na Venezuela [...]. A Venezuela ficou sem petróleo, Cuba sem açúcar. Temos todo o potencial energético e podemos perdê-lo.”

Em uma estratégia semelhante ao que fez antes do primeiro turno, quando comparou os preços dos transportes caso retirassem os subsídios como propunham Milei e Patricia Bullrich, Massa falou dos preços em seu governo e em um possível governo Milei.

“Num país onde o outro candidato nega as alterações climáticas e diz que o Estado não tem que intervir nos preços, os argentinos deveriam saber que o preço de um litro de a gasolina custaria 680 pesos se não houvesse regulamentação. Para ficar claro, a discussão é se no dia 19 de novembro cada argentino paga 680 pesos por litro de gasolina ou paga o valor de hoje, que fique claro”, disse.

No momento, porém, a crise não parece afetar drasticamente o apoio a Massa de quem já o votou no primeiro turno. O questionamento é se impacta os valiosos eleitores de Bullrich e os ausentes que tanto precisa.

Publicidade

Uma pesquisa feita pela CB Consultora Opinión Pública, publicada na segunda no jornal Clarín, coloca Massa a frente com 55,03% contra 44,97% de Milei no segundo turno de 19 de novembro. Embora seja o ministro de uma economia em crise, Massa saiu do primeiro turno com uma vantagem de 6 pontos com relação a Milei, números consideráveis em uma eleição tão polarizada. “Essas eleições tendem a ser mais apertadas do que todos estão imaginando”, sugere Fabian Calle, professor de Ciência Política da UCA.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.