Governo de Donetsk orienta civis a fugirem enquanto Rússia intensifica ofensiva no leste

Foto: Kazbek Basayev/R

Segundo o governador da última província do Donbas não controlada pela Rússia, os bombardeios estão se intensificando e atingindo alvos aleatórios, representando um risco para a população

Por Redação
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SLOVIANSK - O governador de Donetsk, a última província do leste da Ucrânia parcialmente sob controle da Rússia, pediu a seus mais de 350.000 moradores que fugissem enquanto Moscou aumentava sua ofensiva e alertas aéreos eram emitidos em quase todo o país.

“O destino de todo o país será decidido pela região de Donetsk”, disse Pavlo Kirilenko a repórteres em Kramatrosk, o centro administrativo da província e sede do quartel-general regional dos militares ucranianos. Segundo ele, tirar as pessoas da província é necessário para salvar vidas e permitir que o exército ucraniano defenda melhor as cidades do avanço russo.

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O presidente russo, Vladimir Putin, declarou vitória na província vizinha de Luhansk na segunda-feira, um dia depois que as tropas ucranianas se retiraram de seu último ponto de apoio na cidade de Lisichansk. A província de Donetsk, também parte da região de Donbas, cuja captura tem sido um alvo do Kremlin desde que seu foco mudou para o leste, está se preparando.

O governador de Donetsk, Pavlo Kirilenko, e a ministra para Assuntos de Veteranos, Iulia Laputina, realizam uma entrevista conjunta para a Associated Press e a Reuters, em Kramatorsk, Ucrânia
O governador de Donetsk, Pavlo Kirilenko, e a ministra para Assuntos de Veteranos, Iulia Laputina, realizam uma entrevista conjunta para a Associated Press e a Reuters, em Kramatorsk, Ucrânia Foto: Nariman El-Mofty/AP

O governador disse que um mercado central em Sloviansk, bem como uma área em Bakhmut, incluindo uma escola e outros prédios, recentemente foi alvo de bombardeios russos. “Peço a todos: fujam!” ele twittou na terça-feira, mostrando fotos do mercado de Sloviansk em chamas.

Para os russos, “os civis são apenas um alvo”, escreveu ele na terça-feira no Facebook. “O bombardeio será repetido.” Ele alertou que todos os moradores que ficam em Bakhmut estão arriscando suas vidas.

O pedido do governador parecia representar uma das maiores retiradas sugeridas da guerra, embora não esteja claro se as pessoas estarão dispostas e aptas a fugir com segurança. De acordo com a agência de refugiados da ONU, estima-se que mais de 7,1 milhões de ucranianos estejam deslocados na Ucrânia e mais de 4,8 milhões de refugiados deixaram o país desde que a invasão russa começou em 24 de fevereiro.

O presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, disse que alertas aéreos foram emitidos na noite de terça-feira em quase todo o país, em muitos lugares após um longo período de relativa calma durante o qual as pessoas procuraram uma explicação.

“Você não deve procurar lógica nas ações dos terroristas”, disse Zelenski em seu discurso noturno em vídeo. “O exército russo não faz pausas. Ele tem uma tarefa – tirar a vida das pessoas, intimidar as pessoas – para que mesmo alguns dias sem um alarme aéreo já pareçam parte do terror.”

‘Bombardeios caóticos’

Grande parte da atividade militar parecia concentrada no leste da Ucrânia. O governador da região disse que, por abrigar infraestrutura crítica, como usinas de filtragem de água, os principais alvos da Rússia agora são sua cidade e uma cidade a 16 quilômetros ao norte, Sloviansk. Kirilenko descreveu o bombardeio como “muito caótico” sem “um alvo específico... apenas para destruir a infraestrutura civil e áreas residenciais”.

Sloviansk também foi bombardeado na terça-feira. O prefeito Vadim Liakh disse no Facebook que um “bombardeio maciço” atingiu Sloviansk, que tinha uma população de cerca de 107.000 antes de os russos invadirem a Ucrânia há mais de quatro meses. O prefeito, que pediu aos moradores horas antes que fugissem, aconselhou-os a procurarem abrigos.

Pelo menos uma pessoa foi morta e sete ficaram feridas na terça-feira, disse Liakh. Ele disse que o mercado central da cidade e vários distritos foram atacados, acrescentando que as autoridades estão avaliando a extensão dos danos.

Avanço no Donbas

A ofensiva contra Sloviansk indica que as forças russas estão avançando na região de Donbas, uma área industrial de língua russa onde os soldados mais experientes do país estão concentrados.

Sloviansk já recebeu foguetes e artilharia durante a guerra da Rússia na Ucrânia, mas o bombardeio aumentou nos últimos dias depois que Moscou tomou a última grande cidade na província vizinha de Luhansk, disse Liakh.

“É importante retirar o maior número possível de pessoas”, alertou ele na manhã de terça-feira, acrescentando que o bombardeio danificou 40 casas na segunda-feira.

Os militares ucranianos retiraram suas tropas no domingo da cidade de Lisichansk para evitar que fossem cercadas. O ministro da Defesa da Rússia e Putin disseram que a captura subsequente da cidade colocou Moscou no controle de toda Luhansk, uma das duas províncias que compõem o Donbas, mas o governador regional disse na terça-feira que os combates continuam nos arredores de Lisichansk. Ele disse que as forças russas estavam movendo armas para Donetsk.

A questão agora é se a Rússia pode reunir força suficiente para completar sua apreensão do Donbas tomando também a província de Donetsk. Putin reconheceu na segunda-feira que as tropas russas que lutaram em Luhansk precisam “descansar um pouco e reforçar sua capacidade de combate”.

O ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, disse na terça-feira que as principais prioridades de Moscou são “preservar a vida e a saúde” de suas tropas e “excluir a ameaça à segurança dos civis”.

Quando Putin ordenou a invasão da Ucrânia há mais de quatro meses, seus objetivos declarados eram defender o povo de Donbas contra a suposta agressão de Kiev e a “desmilitarização” e “desnazifação” da Ucrânia.

Separatistas pró-Rússia lutaram contra as forças ucranianas e controlaram grande parte do Donbas por oito anos. Antes da invasão deste ano, Putin reconheceu a independência das duas autoproclamadas repúblicas separatistas da região. Ele também procurou retratar as táticas das forças ucranianas e do governo como semelhantes às da Alemanha nazista, alegações para as quais nenhuma evidência surgiu.

Pelo menos metade da população pré-invasão de 6,1 milhões de pessoas nas duas províncias de Donbas, Luhansk e Donetsk, fugiu nos últimos meses de combates, dizem autoridades ucranianas e grupos internacionais de ajuda.

Ainda assim, capturar a região daria a Putin uma vitória simbólica em uma região rica em minerais na fronteira com a Rússia que há muito está em sua mira. Também permitiria que o Kremlin aproveite sua narrativa de que está protegendo os russos étnicos no leste da Ucrânia – mesmo que restem poucos./AP, NYT e W.POST

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