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Governo do Brasil se divide na reação à ameaça soviética

Pressão internacional sobre João Goulart mostrou as fissuras que levaram ao golpe militar de 1964

Por Roberto Simon e BRASÍLIA
Atualização:

BRASÍLIA - Sob a pressão da Crise dos mísseis, há 50 anos, o Brasil de João Goulart já expunha fissuras que, dois anos depois, levariam à ruptura do golpe militar. Documentos da época mostram que o governo brasileiro estava dividido sobre como reagir ao risco das armas soviéticas em Cuba e a cúpula dos militares, muitos dos quais dariam o golpe dois anos depois, pressionava Jango a enviar forças para contribuir com o embargo naval imposto à ilha de Fidel Castro.

 

 

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Em outubro de 1962, o então líder soviético, Nikita Khruchev, decidira instalar foguetes nucleares a quase 300 quilômetros de Miami, algo que o governo de John F. Kennedy estava disposto a impedir a qualquer custo - até mesmo com a guerra.

 

Com base em documentos secretos da diplomacia brasileira, análises de historiadores e testemunhos de protagonistas, o Estado mostra como o Brasil de Jango, solidário a Cuba, mas dependente dos EUA, acompanhou de perto e chegou a tentar mediar a crise que ameaçava iniciar a 3ª Guerra Mundial.

 

Um dia depois de Kennedy discursar na TV anunciando ao mundo a crise, a Organização dos Estados Americanos (OEA) adotou por unanimidade - portanto, com voto favorável do Brasil de Jango - uma resolução impondo um embargo naval à ilha socialista. No entanto, em carta secreta ao presidente americano naquele mesmo dia, o líder brasileiro havia recusado dialogar sobre preparativos para uma resposta militar à presença dos mísseis em Cuba.

 

Países como Argentina, Venezuela e Colômbia enviaram forças para ajudar os EUA a isolar a ilha de Fidel. O governo de Jango, porém, resistia a mandar tropas brasileiras - sob crescente pressão interna.Benefícios

 

"Estou informado que os adidos militares desta Embaixada estão sugerindo hoje ao EMFA (Estado-Maior das Forças Armadas) e aos chefes dos Estados-Maiores respectivos que o governo brasileiro ofereça elementos de nossas Forças Armadas para colaborar no bloqueio a Cuba", escrevia, às 18h30 do dia 31 de outubro, o embaixador do Brasil em Washington, Roberto Campos, ao chanceler brasileiro, Hermes Lima. Com o golpe de 1964, Campos se tornaria ministro do Planejamento do governo Castello Branco.

 

O diplomata continuava a mensagem enumerando as vantagens que traria uma participação do Brasil no cerco a Cuba. Membros do Congresso americano, reticentes ao envio de ajuda econômica ao Brasil de Jango, veriam o apoio ao bloqueio com bons olhos, dizia Campos, "e a maioria dos países latino-americanos tem oferecido contribuição". Pressões

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O embaixador ainda chamava atenção para "a nova compreensão do problema" dos mísseis em Cuba por líderes da esquerda brasileira, como Brizola, e, provavelmente, o Brasil não precisaria de fato enviar as tropas, mas apenas faria o gesto de "solidariedade" a Washington.Ao longo da crise, Campos relata, em mensagens diversas, conversas com autoridades americanas, incluindo o próprio presidente Kennedy, que cobravam o Brasil pela "tibieza" de sua posição e, supostamente, o acusavam de ser um dos aliados menos solidários ao bloco ocidental, "juntamente com a Itália".

 

Do outro lado da cortina de ferro, o embaixador do Brasil em Moscou, Vasco Leitão da Cunha - que se tornaria chanceler com o golpe de 1964 -, narrava como a imprensa soviética vinha dando amplo destaque à posição de Jango "com declarações elogiosas".Solidariedade

 

A defesa da autonomia de Cuba se tornara um ponto central da diplomacia brasileira no governo Jânio Quadros e Jango manteve uma diplomacia amplamente solidária a Havana. Em maio de 1962, o embaixador do Brasil em Cuba, Luiz Bastian Pinto, passava um recado ao ministro San Tiago Dantas: "Tive ontem longa conversa com Fidel Castro, o qual me pediu expressamente transmitir a Vossa Excelência a confiança e a admiração que lhe inspiram o Brasil e o presidente Goulart e, especialmente, a política externa do governo brasileiro".Exatamente dois anos depois, com o golpe militar, o Ministério das Relações Exteriores no Rio enviava à Embaixada do Brasil em Havana ordens para romper as relações diplomáticas com Cuba. O encarregado de negócios na ilha, Enaldo Camaz Magalhães, deveria afirmar que "o governo dos Estados Unidos do Brasil considera não haver mais condições para o prosseguimento de relações diplomáticas" ao chanceler cubano, Raúl Roa García. Se o emissário brasileiro não fosse recebido por nenhuma autoridade de Havana, bastaria deixar a nota na chancelaria e ir embora.

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