A administração Trump, na sexta-feira, 28, forçou a renúncia de Peter Marks, o principal regulador de vacinas do país e um dos arquitetos do programa dos EUA para o rápido desenvolvimento de vacinas contra o coronavírus. A decisão ocorre enquanto o Secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., continua sua reformulação das agências nacionais de saúde e ciência, em meio a um agravamento do surto de sarampo nos EUA.
Marks, que ingressou na Food and Drug Administration (FDA, na sigla em inglês, agência governamental responsável por regular alimentos e medicamentos) em 2012 e liderava o Centro de Avaliação e Pesquisa Biológica desde 2016, teve a opção de renunciar ou ser demitido, segundo duas fontes anônimas. Ele optou por renunciar, com saída efetiva em 5 de abril.

Marks escreveu em sua carta de renúncia, obtida pelo The Washington Post, que deixava o cargo com um “coração pesado”. Ele expressou preocupação com o surto de sarampo no Texas, que, segundo ele, “nos lembra do que acontece quando a confiança na ciência bem estabelecida, que sustenta a saúde pública e o bem-estar, é minada”.
Ao ser contatado na noite de sexta-feira, Marks confirmou que estava deixando a FDA, mas não quis comentar as circunstâncias de sua saída.
Kennedy, que por anos foi ativista contra vacinas e criticou as vacinas contra o sarampo, promovendo a vitamina A como tratamento alternativo, agora usa sua posição no governo para divulgar os benefícios da vitamina, que são reconhecidos pela ciência. Ele também afirmou que a vacinação contra o sarampo deveria ser uma escolha pessoal. Especialistas reconhecem que a vitamina A pode ser benéfica após a infecção, mas enfatizam que não substitui a vacinação para prevenir a doença.
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“É inconcebível, com surtos de sarampo acontecendo, não ter um endosso claro à vacinação contra sarampo”, disse Marks ao The Washington Post.
A FDA não respondeu imediatamente a pedidos de comentários. Um funcionário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), que falou sob condição de anonimato, disse que Marks “não tinha mais lugar na FDA” se não compartilhasse a visão de Kennedy para a agência.
Dois ex-comissários da FDA elogiaram Marks na noite de sexta-feira, destacando seu trabalho na agência.
Marks ajudou a conceber a Operation Warp Speed, o programa da administração Trump que acelerou o desenvolvimento das vacinas contra o coronavírus, sendo creditado por ajudar a conter a pandemia de Covid-19. Um estudo de dezembro de 2022 da fundação Commonwealth Fund estimou que as vacinas evitaram mais de 18,5 milhões de hospitalizações e 3,2 milhões de mortes nos EUA.
Como chefe do Centro de Avaliação e Pesquisa Biológica, Marks liderou uma equipe de especialistas encarregada de examinar dados sobre vacinas e outros produtos médicos antes de decidir sobre sua aprovação.
“Peter liderou um período extraordinário de progresso médico, impulsionando avanços em terapias celulares e genéticas que transformaram o tratamento da leucemia pediátrica, da anemia falciforme e de certas formas de cegueira”, disse Scott Gottlieb, ex-comissário da FDA durante o primeiro governo Trump.
“Seu compromisso em aplicar a melhor ciência e dados no desenvolvimento de tecnologias biomédicas salvadoras de vidas, desde terapias celulares e genéticas até a Operation Warp Speed, salvou incontáveis vidas”, afirmou Mark McClellan, ex-comissário da FDA durante o governo de George W. Bush. “Sua liderança de uma década na FDA é uma das razões pelas quais a agência é considerada o padrão de ouro no avanço das mais inovadoras terapias médicas.”
Em sua carta de renúncia, Marks disse que estava disposto a trabalhar com Kennedy na revisão da segurança das vacinas, um plano do secretário de saúde. Kennedy sugeriu repetidamente que poderia haver uma ligação entre vacinas e autismo — uma afirmação amplamente desmentida pela ciência — e pediu mais estudos sobre o tema.
“No entanto, ficou claro que verdade e transparência não são desejadas pelo Secretário. Em vez disso, ele quer uma confirmação subserviente de sua desinformação e mentiras”, escreveu Marks.
O HHS recentemente nomeou um cético de vacinas, que há muito tempo promove falsas alegações sobre a ligação entre imunizações e autismo, para conduzir um estudo sobre possíveis conexões entre os dois, segundo atuais e ex-funcionários federais da área de saúde.
Kennedy, que foi questionado sobre suas opiniões sobre vacinas durante suas audiências de confirmação no Senado em janeiro, prometeu aos legisladores que iria “restaurar a confiança” na saúde pública e trabalhar para fortalecer a aceitação das vacinas, caso fosse confirmado como o principal oficial de saúde do país. Embora o senador Bill Cassidy e outros republicanos tenham questionado se Kennedy cumpriria esse compromisso, eles acabaram votando a favor de sua nomeação.
Gottlieb lamentou a saída de Marks e de outros altos funcionários do departamento de saúde, alertando que isso poderia prejudicar futuras iniciativas para combater doenças e desenvolver novas terapias.
“Estamos falhando em reconhecer o valor das pessoas e instituições que impulsionaram esses avanços notáveis, minando seu trabalho sem oferecer alternativas credíveis e arriscando a perda de futuros avanços que muitos pacientes esperam”, disse Gottlieb.
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