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É colunista do 'Estadão' e analista de assuntos internacionais. Escreve uma vez por semana.

Opinião|Nova corrida armamentista altera equilíbrio de forças e preocupa os EUA

Mísseis de China e Rússia podem dar a volta no globo pela Antártida e acertar o território americano pelo sul

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Uma nova corrida armamentista está em andamento: EUA, China e Rússia testaram mísseis hipersônicos nas últimas quatro semanas. Como o nome indica, esses mísseis voam a uma velocidade acima do som. Além disso, são manobráveis e executam trajetórias inesperadas em altitudes não convencionais.

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Tudo isso torna obsoletos os atuais sistemas de defesa antiaérea. O alcance dessas armas representa também uma ameaça para os satélites responsáveis pelos sistemas de comunicação e geolocalização, tanto militares quanto civis.

Dado o nervosismo em torno das ameaças do presidente Vladimir Putin à Otan, o único desses três testes que repercutiu na imprensa não especializada foi o do míssil intercontinental russo Sarmat. Ele pode transportar um veículo deslizante hipersônico, assim como 10 ogivas, incluindo nucleares.

Imagem divulgada pela Rússia do teste com o míssil intercontinental Sarmat, em 20 de abril  Foto: Ministério da Defesa da Rússia/via Reuters

Putin declarou que o teste ia “dar o que pensar àqueles que tentam ameaçar a Rússia”. Quando anunciou que a Rússia havia dominado essa tecnologia, em discurso sobre o Estado da União em 1.º de março de 2018 (a poucas semanas de sua reeleição), Putin disse que ela tornava as defesas da Otan “completamente inúteis”, e completou: “A Rússia ainda tem o maior potencial nuclear do mundo, mas ninguém nos ouviu. Ouçam agora”.

Na última semana de março, enquanto o presidente Joe Biden estava na Europa discutindo como conter a Rússia, e poucos dias depois de os russos empregarem um míssil hipersônico contra um depósito de armas no oeste da Ucrânia, um bombardeiro B-52 disparou um Hawc (Hypersonic Air-breathing Weapon Concept) na Costa Oeste americana.

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A Marinha chinesa divulgou no dia 19 o vídeo do primeiro lançamento de um míssil hipersônico de um navio de guerra da China. Aparentemente trata-se de um míssil antinavio YJ-21. Seu sistema deslizante lhe confere uma trajetória extremamente irregular, inicialmente vertical, com várias saídas e entradas na atmosfera, até fazer um voo horizontal antes de atingir o alvo. Os EUA não têm uma arma equivalente.

O mesmo se aplica ao míssil intercontinental hipersônico testado pela China no dia 27 de julho. Relatório da Agência de Inteligência de Defesa americana, publicado no dia 12, afirma que esse míssil indica que a China está desenvolvendo um arsenal para a “guerra espacial”.

Essas armas, tanto as chinesas quanto as russas, podem pela primeira vez dar a volta no globo pela Antártida e atacar os EUA pelo sul, onde não há sistemas de defesa para contê-los. Os mísseis intercontinentais convencionais têm de girar pelo Ártico. A Força Aérea americana está solicitando ao Congresso mais recursos para pesquisas de armamentos hipersônicos.

A aliança Aukus, que reúne EUA, Reino Unido e Austrália, tem um projeto de desenvolvimento de sistemas defensivos contra esses mísseis, que estão alterando o equilíbrio de forças.

Opinião por Lourival Sant'Anna

É colunista do 'Estadão' e analista de assuntos internacionais

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