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É colunista do 'Estadão' e analista de assuntos internacionais. Escreve uma vez por semana.

Opinião|O papel de Catar e Arábia Saudita na guerra entre Israel e Hamas; leia coluna de Lourival Sant’Anna

Guerra na Faixa de Gaza mobilizou Arábia Saudita e Catar para evitar a escalada do conflito e demonstrar o valor estratégico de sua diplomacia

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As atrocidades cometidas pelo Hamas no dia 7 de outubro e a brutal resposta de Israel na Faixa de Gaza mobilizaram a Arábia Saudita e o Catar para evitar a escalada do conflito e demonstrar o valor estratégico de sua diplomacia.

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A 10 de outubro, apenas três dias depois dos ataques e tomada dos reféns pelo Hamas, o governo do Catar contatou o dos Estados Unidos, para formarem uma força-tarefa para negociar sua libertação e tréguas nos combates.

O esforço contou com o máximo sigilo, uma equipe muito pequena, e o acompanhamento constante do presidente Joe Biden e do emir Tamim bin Hamad al-Thani. Egito e Israel também foram envolvidos.

O emir do Catar, Tamim bin Hamad al-Thani, é recebido pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, em Riad em 10 de novembro Foto: Saudi Press Agency/Reuters

No dia seguinte, Riad foi sede de uma reunião de cúpula extraordinária da Organização de Cooperação Islâmica sobre a situação em Gaza. Ebrahim Raisi foi convidado, na primeira visita de um presidente iraniano ao reino saudita em mais de uma década. O príncipe-herdeiro saudita, Mohamed bin Salman (MBS), reuniu-se com ele. Irã e Arábia Saudita são rivais regionais.

De acordo com fontes ouvidas pela Bloomberg, MBS ofereceu investimentos sauditas no Irã, em troca de o regime evitar que as milícias pró-iranianas no Líbano, Síria, Iraque e Iêmen entrassem na guerra contra Israel. Todos esses grupos intensificaram os ataques contra Israel, mas não em uma escala que pudesse ampliar a guerra.

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O Irã está sob sanções de Estados Unidos e Europa e precisa desesperadamente de receitas em moeda forte. Sua maior fonte de recursos é a China, que compra seu petróleo a um preço abaixo do mercado. A Rússia emprega drones e foguetes iranianos na agressão contra a Ucrânia, em troca de alimentos e tecnologia de defesa.

A queda no poder aquisitivo da classe média, combinada com a repressão crescente, sobretudo contra as mulheres, tem ampliado o descontentamento e os confrontos com a polícia que abalam a imagem da teocracia iraniana.

Os dois movimentos, o catari e o saudita, levam a marca da ambiguidade. O Catar tem mantido boas relações com o Irã, que o levaram a ser suspenso entre 2017 e 2021 do Conselho de Cooperação do Golfo, liderado pela Arábia Saudita.

O emirado tem dado ajuda financeira à Faixa de Gaza, governada pelo Hamas desde 2007, calculada em US$ 1 bilhão. Eu mesmo presenciei, em 2014, funcionários palestinos com coletes da agência catari de cooperação internacional, avaliando os danos causados pelos bombardeios israelenses, de modo que o rico emirado pudesse enviar os recursos para a reconstrução. O líder político do Hamas, Ismail Haniyeh, vive em Doha.

Tudo isso vinha sendo feito em coordenação com Israel, que precisa de uma válvula de escape para as frustrações dos palestinos, e de uma ponte de interlocução com o Hamas. Catar e Israel não têm relações diplomáticas formais, mas há um escritório para assuntos cataris no governo israelense. Atletas israelenses participam de eventos esportivos no Catar. Vôos Tel-Aviv-Doha foram criados para a Copa de 2022.

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Essas ligações se tornariam problemáticas depois dos ataques de 7 de outubro. O Catar se moveu rapidamente para transformá-las num ativo diplomático.

Quando o Hamas acusou Israel de não cumprir sua parte no acordo que possibilitou a trégua, um avião levando representantes do governo do Catar pousou sigilosamente no Aeroporto Ben Gurion em Tel-Aviv. O acordo foi salvo.

O presidente do Irã, Ebrahim Raisi, encontra o emir do Catar, Tamim bin Hamad al-Thani, em Riad em 11 de novembro  Foto: West Asia News Agency/Reuters

Desde 2014, Irã e Arábia Saudita travam uma guerra por procuração no Iêmen, considerada pela ONU a maior tragédia humanitária. Estima-se que ela tenha matado 377 mil pessoas: 150 mil diretamente e o restante de fome e doenças.

O Irã patrocina a milícia dos houthis, minoria xiita no Iêmen. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU) apoiam o governo sunita. O presidente Abd Rabbu Mansour Hadi está exilado no reino saudita desde 2015.

Em março de 2022, a China mediou uma aproximação entre Arábia Saudita e Irã, visando à retomada de relações diplomáticas. No mês seguinte, sauditas e iranianos articularam uma trégua entre o governo iemenita e a milícia houthi. Hadi aceitou o acordo mediante a promessa de ajuda humanitária de US$ 3 bilhões. A trégua foi mantida mesmo depois de expirar o prazo do acordo, em outubro de 2022.

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Como parte dessa estratégia, a China trouxe Irã, Arábia Saudita, EAU e Egito para os Brics, contra a vontade de Brasil e Índia.

A guerra no Iêmen é um constrangimento para os Estados Unidos, fornecedores de armas para Arábia Saudita e EAU. Ao assumir o governo, em 2021, Biden suspendeu a venda de armas para os dois países, selada por seu antecessor, Donald Trump. Isso levou à aproximação entre Arábia Saudita e China. Apesar de sua aliança com o Irã, os chineses negociam a venda de armas à Arábia Saudita e ao Egito, ambos adversários da teocracia xiita, e rivais entre si.

Desde o governo Trump, os EUA realizam um pivô para o Oriente Médio, por meio dos Acordos de Abraão. EAU, Bahrein, Marrocos e Sudão normalizaram relações com Israel. Agora seria a vez dos sauditas. O ministro do Turismo de Israel, Haim Katz, visitou Riad no dia 26 de setembro, seguido pelo ministro da Comunicação, Shlomo Karhi, no dia 3 de outubro.

Quatro dias depois, o Hamas lançou seus ataques, destinados a interromper esse processo. O acordo incluía concessões de Israel para a Autoridade Palestina na Cisjordânia, rival do Hamas.

Como se vê, o Oriente Médio vive um momento de distensão, movido por interesses econômicos e geopolíticos. Essa dinâmica se mostra mais forte do que o trauma causado pelas atrocidades do Hamas e pela resposta brutal de Israel.

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Opinião por Lourival Sant'Anna

É colunista do 'Estadão' e analista de assuntos internacionais

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