Escreve toda semana sobre as mudanças no cenário geopolítico internacional

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América Latina caminha para a direita com fracasso da esquerda e mãozinha de Trump

Vitória de Kast no Chile deve selar uma virada ideológica na política latino-americana

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Foto do autor Luiz Raatz

Donald Trump e Nicolás Maduro conversaram por telefone

O presidente americano e seu par venezuelano tiveram na semana passada uma conversa por telefone na qual discutiram uma possível reunião nos EUA. Crédito: AFP

A eleição do Chile deste domingo, 11, marca provavelmente o último grande evento de 2026, salvo Donald Trump de fato embarque numa aventura militar na Venezuela. José Antonio Kast deve vencer Jeanette Jara, colocando a direita novamente no comando do país, como ocorreu nos mandatos do falecido Sebastián Piñera.

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A vitória de Kast deve selar uma virada à direita na política latino-americana. Ao longo do ano, políticos conservadores também chegaram ao poder na Bolívia e no Equador. Na Argentina, Javier Milei conseguiu uma vitória importante nas eleições legislativas e, em Honduras, a apuração, ainda que confusa, também indica a derrota da esquerda.

Com isso, os tons de rosa que cobriram o mapa político da região a partir de 2021 estão cada vez mais desbotados. À esquerda restam o governo do presidente Lula, no Brasil, de Gustavo Petro, na Colômbia, de Yamandú Orsi, no Uruguai, e de Claudia Sheinbaum, no México.

José Antonio Kast participa de evento de campanha no Chile Foto: Esteban Felix / AP

Destes, apenas uruguaios e mexicanos chegarão a 2027, já que eleições gerais estão marcadas para o Brasil e a Colômbia. O Peru, em sua eterna crise política detonada pela Operação Lava Jato, elegerá um novo presidente, com a direita favorita para manter o poder, talvez com um outsider populista inspirado no pior que a região produziu nos últimos anos.

A gangorra ideológica latino-americana segue um padrão. Desde a redemocratização da região após o fim da Guerra Fria, direita e esquerda tem se revezado no poder sempre que as regras democráticas são mantidas - com exceção, claro, aos autoritários de esquerda na Venezuela, Nicarágua e Cuba. À direita, Nayyib Bukele tomou emprestado o manual de Hugo Chávez e manobrou para se reeleger indefinidamente em El Salvador.

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Após os governos de centro e centro-direita que implementaram reformas liberais nos anos 90 para estabilizar a crise econômica da década anterior, eleitores optaram em países como Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Equador, Peru, Bolívia e Venezuela por um outro caminho.

O boom das commodities permitiu a expansão dos gastos sociais e diminuição da pobreza. Junto, vieram escândalos de corrupção. O mau gerenciamento econômico e a queda das commodities a partir de 2014 levou ao retorno da direita na maioria desses países.

A gangorra então mudou de lado. Jair Bolsonaro, Mauricio Macri, Luis Lacalle Pou, Sebastián Piñera, Guillermo Lasso e Pedro Pablo Kuczynski chegariam ao poder nos anos seguintes. Os reflexos da pandemia e da alta dos preços generalizada que ocorreu na recuperação pós-covid solidificou a tendência “anti-incumbente” da região.

Se nos anos 90 e 2000, a reeleição era meio que regra, a partir da década de 20, ela virou exceção. Recentemente, apenas Daniel Noboa, que cumpria um mandato tampão no Equador, conseguiu se reeleger. No México, Andrés Manuel López Obrador fez a sucessora. Mas, no geral, a tendência é de vitória opositora.

Na Colômbia, assim como no Chile, é provável que após a primeira vitória da esquerda em décadas, a direita volte ao poder. Gustavo Petro, assim como Gabriel Boric, faz um governo medíocre, e, apesar da falta de um candidato claro, a oposição é favorita.

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A nova Doutrina de Segurança Nacional americana, que prevê uma intervenção cada vez maior na América Latina, indica que a intromissão de Trump nas recentes eleições na Argentina em Honduras podem se tornar cada vez mais comuns.

Trump vive às turras com Petro, e diante dos ataques a barcos supostamente ligados ao narcotráfico no Caribe, é provável que ele atue para influenciar a eleição na Colômbia também.

Opinião por Luiz Raatz

É jornalista formado pela PUC-SP. Subeditor de internacional do Estadão, tem 20 anos de experiência em coberturas na América Latina, Estados Unidos e Oriente Médio.