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Lula promete dinheiro e obras para recuperar influência brasileira no Caribe

Petista fala em investir em fundo de desenvolvimento caribenho e em obras de infraestrutura para interligar a região ao norte do País; modelo similar de investimento nos governos petistas foi investigado pela Lava Jato

Foto do author Felipe Frazão
Por Felipe Frazão
Atualização:

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acenou nesta quarta-feira, dia 28, com aporte de recursos do Brasil no Caribe e investimento em obras transnacionais para ligar o País à região. Lula discursou a chefes de governo no encerramento do encontro da Comunidade do Caribe (Caricom) em Georgetown, na Guiana, e procurou destacar objetivos comuns do Brasil e dos países caribenhos em temas-chave como mudança climática e segurança alimentar. Nos governos anteriores do PT, obras com linhas de crédito do BNDES realizadas por empreiteiras na América Latina e na África foram alvos de investigação no âmbito da operação Lava Jato.

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O presidente prometeu colocar dinheiro em um fundo de desenvolvimento caribenho - sem citar valores - e anunciou US$ 17 milhões para construção de um centro profissionalizante voltado a jovens no Haiti - o país concentra 61% da população da Caricom.

Em termos de infraestrutura regional, Lula anunciou aos líderes políticos do Caribe o plano de ligação rodoviária articulado por seu governo para pavimentar estradas que conectem o Brasil aos países sul-americanos que têm ligação direta com o Caribe: Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Venezuela. Os projetos envolvem os territórios do Amapá, Roraima, Amazonas e Pará.

As promessas de obras foram incluídas no plano de integração sul-americana do governo federal. Em paralelo, o governo brasileiro também planeja retomar financiamento da exportação de bens e de serviços de engenharia por empresas brasileiras contratadas por governos estrangeiros para obras no exterior, por isso mandou um projeto de lei ao Congresso, que permita a retomada de operações a países não-envididados, ou com dívidas renegociadas.

As linhas de crédito foram suspensas em 2016 pelo BNDES, por causa de escândalos de corrupção desvendados na Operção Lava Jato. As investigações atingiram até mesmo o presidente da República, mas os processos em que ele era acusado foram arquivados. O Brasil segue como credor e tenta receber recursos de Cuba, Venezuela, El Salvador e Antígua e Barbuda.

Lula e o presidente da Guiana, Irfaan Ali, em reunião da Caricom em Georgetown Foto: HANDOUT / AFP

Integração com o Caribe

“Nosso maior obstáculo é a falta de conexões, seja por terra, por mar ou pelo ar. Uma das rotas de integração e desenvolvimento prioritárias para meu governo é a do Escudo Guianense, que abrange a Guiana, o Suriname e a Venezuela. Queremos, literalmente, pavimentar nosso caminho até o Caribe. Abriremos corredores capazes de suprir as demandas de abastecimento e fortalecer a segurança alimentar da região”, prometeu Lula.

O presidente fez questão de destacar que levou ao encontro os ministros ligados ao plano: dos Transportes, Renan Filho, da Integração e Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, e dos Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho.

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“Até o final deste ano, faremos um aporte ao fundo concessional do Banco de Desenvolvimento do Caribe. Países caribenhos sofrem com altos níveis de endividamento e têm condições menos favoráveis de renegociação por terem ascendido à condição de países de renda média”, afirmou Lula. “Ocorre que bens e serviços não circulam onde não há vias abertas. Belém, Boa Vista e Manaus estão mais próximas de capitais do Caribe do que de outras grandes cidades brasileiras.”

A viagem de Lula a Georgetown é um gesto político para recuperar influência política e econômica do Brasil no Caribe. O presidente disse a região deve se manter distante de rivalidades entre potências globais - uma referência velada à disputa entre Estados Unidos e China.

“A Caricom abriu-se para o Sul, rejeitando a condição de zona de influência de potências alheias à região. Temos o desafio de manter nossa autonomia em meio a rivalidades geopolíticas”, disse Lula, no encontro. “Cabe a nós manter a região como zona de paz. Abrigamos sociedades multiétnicas, entrelaçadas por culturas vibrantes.”

Essequibo e Maduro

Lula permanece na capital guianense nesta quinta-feira, dia 29, para uma reunião bilateral com o anfitrião da Caricom, Irfaan Ali, presidente da Guiana, com quem vai tratar da disputa sobre a região do Essequibo, com a Venezuela. O Brasil é o principal mediador e trabalha para evitar um conflito armado no seu entorno imediato.

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Empresas dos EUA têm negócios na Guiana, para exploração do petróleo e outros recursos natuarais descobertos no Essequibo. Já a Venezuela tem parcerias estratégicas e militares com a Rússia e Irã, rivais dos Estados Unidos. A China possui negócios e relação política com os dois lados.

Em seguida, Lula embarca para Kingstown, em São Vicente e Granadinas, onde participará da Cúpula da Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos). O petista pretende discutir pessoalmente com Nicolás Maduro sobre a questão territorial com a Guiana e a repressão a opositores às vésperas da prometida realização de eleições presidenciais.

Além de Maduro, Lulta tem aliados políticos na região, com governos ditatoriais de Cuba e Nicarágua. Assim como a Venezuela, eles também integram a Celac. Os três países, no entanto, não fazem parte da Caricom, atualmente presidida pela Guiana.

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Críticas a Israel

No discurso, o presidente voltou a se referir à guerra entre Israel e o grupo terrorista Hamas, na Faixa de Gaza, como genocídio. Na semana passada, o presidente chegou a comparar a ofensiva, iniciada após os atentados do Hamas contra Israel em outubro, a “o que Hitler fez com os judeus”, em uma comparação apontada como antissemita por comparar as vítimas do Holocausto a seus algozes.

“Um genocídio na Faixa de Gaza afeta toda a humanidade, porque questiona o nosso próprio senso de humanidade. E confirma uma vez mais a opção preferencial pelos gastos militares, em vez de investimentos no combate à fome; na Palestina, na África, na América do Sul ou no Caribe”, disse.

Após as declarações, Lula foi declarado persona non grata em Israel e uma crise diplomática se abriu entre dois países. Tel-Aviv exige uma retratação, que o Planalto descarta fazer.

EUA x China

A organização política e econômica, criada em 1973, reúne 15 países membros, 5 associados, majoritariamente ilhas caribenhas, e uma população de 19 milhões de pessoas. O PIB conjunto é de US$ 120 bilhões. Os países dependem de importações de produtos industrializados e também para garantir a segurança alimentar.

Os Estados Unidos são o principal parceiro comercial do bloco, com comércio de US$ 29,7 bilhões. O país é o principal fornecedor de produtos para os países da comunidade caribenha, com 48,1%, e tem influência política por causa do idioma, de laços culturais e maior conectividade aérea.

A região sofre historicamente influência direta de Washington, na política e na economia. A Casa Branca tenta conter a imigração irregular de rotas que passam pelo Caribe, sendo os haitianos um dos principais grupos de refugiados das Américas. Na semana passada, o secretário de Estado Antony Blinken disse, no Rio, que 12 países mobilizariam US$ 120 milhões em auxílio às forças de segurança haitianas, com equipamentos, policiais e treinamento.

Sem citar o governo chinês, que disputa influência geopolítica e econômica na América Latina com os Estados Unidos, Blinken prometeu por em marcha uma coalizão para canalizar investimentos em infraestrutura na região, que não gere dívidas nos países e respeite o direito de trabalhadores. Blinken não falou em cifras da estratégia de contenção da China, que lançou há dez anos a iniciativa Belt And Road, informalmente conhecida como Nova Roda da Seda.

“Estamos agindo de uma forma que não sobrecarrega os países com dívidas”, disse o americano, com retórica anti-China velada.

A declaração é uma crítica velada a Pequim, a quem os americanos acusam de criar “armadilhas de dívida” com financiamentos de obras gigantescas de infraestrutura, que depois os países não conseguem pagar, além dos padrões de direitos trabalhistas em empresas chinesas.

A China é o segundo principal fornecedor, com 8,2% dos produtos consumidos. Também cresce ano a ano a presença comercial, política e financeira de Pequim na região, com a expansão de investimentos em infraestrutura ligados à iniciativa Belt and Road, a nova Rota da Seda. Ao todo 21 países se engajaram no mega projeto chinês.

Em janeiro, o chanceler chinês Wang Yi visitou em sequência Brasília e Kingston, capital da Jamaica, país que mais recebe recursos chineses na região. A Jamaica foi o primeiro país de lingua inglesa do Caribe a estabelecer relações diplomáticas com Pequim, firmar uma parceria estratégia e ingressar na Belt and Road. A nova sede da chancelaria jamaicana foi construída com recursos chineses. Algumas das principais rodovias que cortam o país também.

A região é chave para a diplomacia comunista, que busca apoio para a reunificação do país com a ilha de Taiwan. Atualmente, dos 12 países que ainda mantêm relações diplomáticas com Taiwan, sete estão nas Américas e quatro são da Caricom (Belize; Guatemal; Haiti; São Cristóvão e Neves; Santa Lúcia; São Vicente e Granadinas; Paraguai).

O Brasil é apenas o quinto maior fornecedor da Caricom, com 2,9% de participação no mercado. Os dados são da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), que mapeou mais de 1.086 oportunidades de negócios, em setores sobretudo de combustíveis derivados do petróleo, agronegócio, aviões e manutafurados de aço e madeira. Um alerta da Apex é para as tarifas aplicadas aos produtos do agro.

O comércio do Brasil com a Caricom foi de US$ 2,7 bilhões de dólares no ano passado. Em 2008, era de mais de US$ 5 bilhões, impulsionado sobretudo pelo petróleo.

O presidente reafirmou a intenção de recuperar toda a presença diplomática do País, com a anunciada reabertura da embaixada do Brasil em São Vicente e Granadinas.

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