Por que a Bolívia tem uma marinha tão grande se o país não tem acesso ao mar?

Há mais de 100 anos, país liderado por Luis Arce perdeu seu acesso soberano ao Pacífico em uma guerra contra o Chile e, desde então, bolivianos compartilham o sonho de voltar a ter um mar

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Por Isabel Gomes
Atualização:

Cercada por Chile, Argentina, Paraguai, Brasil e Peru, a Bolívia não tem litoral. A praia mais próxima fica a um país de distância, e a última vez que as ondas de água salgada bateram em solo boliviano foi há mais de um século. Mesmo assim, o país detém uma marinha ativa — e relativamente grande para um país não costeiro.

De acordo com o Global Firepower, um ranking especializado em poderio militar, a Marinha da Bolívia detém 173 navios e é a 19ª maior do mundo. Fica, inclusive acima da Marinha Brasileira, que ocupa o 23º lugar com 134 navios, de acordo com dados da classificação. Na América Latina, a Bolívia é a terceira maior, vindo logo depois de Colômbia e México, que possuem um arsenal com 237 e 194 unidades, respectivamente.

Guerra, paz e esperança de voltar a ter mar

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O motivo de as forças militares da Bolívia manterem uma marinha ativa é justamente a ausência do mar — ou, na verdade, a esperança de recuperá-lo. O país já teve uma costa marítima, mas a perdeu durante a Guerra do Pacífico, em 1879, em uma disputa territorial com o Chile pela região de Antofagasta. Com suas tropas derrotadas, o governo boliviano reconheceu a posse da região ao país vizinho e, com isso, ficou sem acesso ao Pacífico.

Um Tratado de Paz e Amizade foi assinado entre os dois países entre 1904, mas diplomaticamente os ressentimentos sobre a costa permanecem pela Bolívia. Em 2013, o país chegou a mover uma ação na Corte Internacional de Justiça (CIJ), o tribunal mais alto da ONU, reivindicando seu direito ao mar.

Na petição, o governo de Evo Morales afirmou que o Chile havia se comprometido a negociar com a Bolívia o acesso soberano ao Oceano Pacífico. Em 2018, porém, o tribunal de Haia determinou que o governo chileno não tinha a obrigação de negociar com a Bolívia. “No entanto, esta decisão não deve ser interpretada como algo que impede encontrar uma forma de estabelecer um diálogo sobre este assunto entre as duas nações”, disse, na época, o juiz.

E qual a função da Marinha da Bolívia?

A função da Marinha da Bolívia é, acima de tudo, manter ativa a tentativa de o país voltar a ter mar. Quando ainda possuía acesso ao oceano, a Bolívia tinha uma força marítima que remonta ao início da república, fundada em 1826. Mas a força naval que se conhece hoje no país foi criada oficialmente na década de 1960 pelo presidente Víctor Paz Estenssoro, como uma das medidas para tentar recuperar o litoral perdido.

Essa missão é explicita no lema da instituição: “El mar nos pertence por derecho, recuperarlo es un deber” (“o mar nos pertence por direito, recuperá-lo é um dever”). Mas na prática, porém, a existência da marinha pouco influencia qualquer possível negociação diplomática com o Chile.

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Assim, a rotina da marinha sem mar consiste principalmente em atividades de logística e segurança. O país é banhado por três grandes rios afluentes do Amazonas. Há ainda o Lago Titicaca, um dos maiores da América do Sul e o lago navegável mais alto do mundo.

Por esses caminhos, a Armada patrulha para prevenir o contrabando e o tráfico de drogas, presta atendimento à população em resposta a desastres ambientais, orienta pesquisadores em questões de hidrovias navegáveis faz a proteção e controle de barragens e se dedica a melhorar as condições de navegação pela Bacia Amazônica.

Outra função cotidiana da equipe é fazer entrega suprimentos médicos a comunidades remotas, especificamente a Beni e Pando, departamentos no norte do país em regiões desenhadas por inúmeros cursos d’água.

Constituição menciona acesso ao mar

Não é só da Marinha a missão de não apagar a esperança de um litoral próprio. Na verdade, esse é um sonho comum e que faz parte da identidade nacional boliviana. A reivindicação marítima está inclusive escrita na Constituição Política do Estado de 2009: “o Estado boliviano reivindica o seu direito inalienável e imprescritível sobre o território que lhe dá acesso ao Oceano Pacífico e ao seu espaço marítimo”.

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Anualmente, os bolivianos passam pelo Dia del Mar em 23 de março, uma data exclusivamente criada para lembrar o dia da perda territorial e que é celebrada por comunidades bolivianas em todo o mundo, frequentemente com desfiles, discursos e multidões reunidas.

A falta de ligação ao oceano é também uma ferida econômica. Os bolivianos argumentam que a inexistência de um acesso soberano ao mar causa prejuízos ao país, já que torna-se um obstáculo a mais para participar do comércio internacional. Não à toa, há um órgão governo da Bolívia cuja missão é “fornecer o apoio necessário em qualquer ação diplomática, jurisdicional e administrativa decorrente da reivindicação marítima boliviana”, o Diremar (Direção Estratégica de Reivindicação Marítima).

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