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É prêmio Nobel de Literatura. Escreve quinzenalmente.

Opinião| A Catalunha é parte integrante da Espanha, não há discussão; leia artigo de Mario Vargas Llosa

A Catalunha é parte integrante da Espanha há muitos séculos, e assim o sentem milhões de catalães, como se demonstrou cada vez que houve manifestações contra a independência

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Foto do author Mario Vargas Llosa

Lamento não ter podido comparecer à manifestação convocada pela Societat Civil Catalana no 8 de outubro passado em Barcelona, cidade da qual guardo as melhores recordações, que no domingo se cobriu de cartazes afirmando a convicção dos catalães e espanhóis vindos de outros lugares de manter-se unidos. Sinto deveras ter ficado longe, por razões alheias à minha vontade, quando tantas pessoas saíam às ruas para defender seu vínculo com a Espanha proclamando que não se sentem “estrangeiros” e pedindo igualdade perante a lei.

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Vivi cinco anos em Barcelona, de 1970 a 1974, e como a memória não me costuma falhar nestes episódios, posso dizer que os independentistas, naquela época, eram um bastião muito minúsculo que as forças vivas da cidade viam como autenticamente excêntrico.

Nada levantava a suspeita do que sucederia depois. Por isso, para mim foi uma verdadeira surpresa, ao regressar à Espanha muitos anos mais tarde, deparar-me com gigantescas manifestações a favor da secessão. Que disparate monumental.

Separatistas fazem manifestação em 2022 para defender plebiscito separatista em Barcelona Foto: Pau Barrena/AFP

O independentismo pode se armar de uma maneira preventiva, quando existem bases sólidas para essa nomenclatura, por exemplo quando um poder central persegue e reprime uma língua regional ou outras manifestações culturais. Mas reivindicar isso nestes dias, quando a Espanha leva tantos anos, desde o fim da ditadura, tratando de se unir e se reconstruir sobre a base de uma descentralização quase comparável em muitos aspectos a um Estado federal, me parece a maior das bobagens.

E repito: bobagens. A Catalunha é parte integrante da Espanha há muitos séculos, e assim o sentem milhões de catalães, como se demonstrou cada vez que houve manifestações contra a independência — e de nenhuma maneira pode se extirpar e optar por um caminho próprio. Porque qual seria esse caminho? O de optar por uma secessão da qual uns poucos se beneficiariam ao mesmo tempo que provocaria atraso e retrocesso da maior parte da população (e perseguição contra os catalães partidários da unidade da Espanha).

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Por isso me comoveu profundamente ver, no domingo passado, esses catalães que luziam prédicas a favor da Espanha, que é um país perfeitamente ordenado e que tem muitos séculos de fortaleza. Minha vida, nesses cinco anos que passei em Barcelona, esteve vinculada a duas pessoas excepcionais que estavam nas antípodas do fanatismo independentista: Carlos Barral, um poeta que logo se converteu em editor de maneira transitória, apesar de ter sido um dos inspiradores do “boom” do romance hispano-americano, que entrou por Barcelona para ficar; e Carmen Balcells, brilhante e vanguardista, responsável por inspirar muitos escritores a viver em Barcelona, a gozar dessa magnífica cidade, com suas editoras, sua grande cultura, sua curiosidade sem limites e sua efervescência. Essa Barcelona aberta, integradora, era a porta da modernidade, para a liberdade e o futuro que todos nós augurávamos brilhante, apesar da Espanha estar sob o império de um regime autoritário.

Estamos, nestes momentos, numa situação muito difícil. Os que escaparam de Barcelona fugindo da Justiça por ter violentado a ordem constitucional reclamam agora uma liberdade total em troca de aportar os votos necessários que dariam a Pedro Sánchez um novo governo na Moncloa. A Espanha, como todos os países, tem o direito e o dever de  sancionar quem pretendeu romper o país violando as leis.

E seria um precedente gravíssimo concordar com o que os independentistas desejam, aqueles que encontraram refúgio no exterior e que lá se mantêm prófugos até hoje, à espera de encontrar a oportunidade de chantagear a democracia espanhola. Sob essas condições seria uma maneira macabra de obter o poder. Por isso, me alegra muito que 300 mil pessoas, segundo os organizadores, tenham lotado o centro de Barcelona expressando seu rechaço a essa preferência inaceitável e que, carregados de cartazes e faixas,  proclamaram sua adesão à Constituição e à Espanha eterna, plural e solidária.

Gosto de ver a Catalunha assim, essa região pujante que me descobriu como escritor, assim como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Carlos Fuentes e tantos outros escritores que saíram à luz pública e tiveram projeção internacional graças às editoras catalãs. Nenhum deles acreditaria no que está ocorrendo, porque nós vivemos momentos milagrosos, nos quais as editoras disputavam nossos títulos, as pessoas nos liam e espanhol e todo o mundo sonhava em viver ali, porque era a região mais aberta e mais plural da Espanha. Ninguém ia embora, todos desejavam entrar. Por isso, que bonito espectáculo o do domingo passado: pacífico, mas firme e justo.

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A Espanha não tem nada o que invejar dos países antigos e consolidados da Europa porque faz centenas de anos que os limites deste país estão traçados, e quem escreve isto é um sul-americano orgulhoso da nação que o adotou e de sua união, que remonta ao descobrimento da América, a que este país relativamente pequeno engrandeceu e deu um idioma que agora nos permite viajar do México à Patagônia, mais de oito mil quilômetros, cruzando territórios irmanados por uma mesma língua e laços comuns.

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Pensei em tudo isso enquanto contemplava esses milhares e milhares de catalães levantando a bandeira, como um desafio, de sua vocação constitucional e espanhola, que não tem porque se opor à afirmação do próprio, ou seja, dessa cultura que reclama o direito à sua linha e à sua entranha fundamental e que não tem por que se apequenar pelo fato de pertencer a uma unidade mais ampla.

A língua catalã, que aprendi, é muito  rica e diversa e produziu grandes poetas e escritores, alguns verdadeiramente magníficos, que são, também, parte integrante da Espanha por vontade dos próprios catalães. E não há nenhuma disputa em que falem e mantenham sua bonita língua: é a sua língua, e bem-vindo seja tudo o que for afirmação e projeção dela. Isso muito menos desmerecerá a Espanha, orgulhosa de todas as culturas que a integram.

Nada disso está em dúvida nem tem a ver com a independência. A Catalunha é parte essencial do país, com sua linguagem própria, suas festas, tradições, gastronomia, suas ricas tradições. Todas as nações são a soma de muitas tradições culturais, de muitos particularismos que se enriquecem mutuamente sem perder a identidade e que se combinam para fazer da nação um ente múltiplo, diverso e aberto.

Por isso foi bonito ver as Ramblas sob essas bandeiras, catalã e espanhola, manifestando sua associação entre ambas, e as principais ruas de Barcelona com esses personagens que luziam, sem vergonha, seu amor pela Espanha e por sua própria terra, afirmando de maneira peremptória que ambas as coisas são uma só e que os catalães não são incompatíveis com o amor ao que é espanhol, pois ambos os sentimentos, o orgulho da região e a solidariedade com o país à que pertence, são acumulativos, não excludentes.

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Sinto de verdade não ter estado lá com meu ramo de flores expressando meu repúdio aos que pretendem violar a lei e fazer sua a máxima que os fanáticos do independentismo pretendem impor aos demais. Barcelona não romperá a Espanha nem a enterrará. Barcelona, nas mãos dessas pessoas que saíram às ruas para dizer “Em meu nome não” está tranquila e segura. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

Opinião por Mario Vargas Llosa

É prêmio Nobel de Literatura

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