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É prêmio Nobel de Literatura. Escreve quinzenalmente.

Opinião|Os estadistas preferidos de Henry Kissinger; leia a coluna de Mario Vargas Llosa

De Richard Nixon a Margaret Thatcher, todos eram dirigentes que, sem recuar diante dos desafios, foram capazes de superá-los

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Atualização:


O ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger morreu nesta quarta-feira, 29. Em novembro de 2022, o colunista Mario Vargas Llosa escreveu este artigo sobre o diplomata.

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Não é extraordinário que um livro escrito por alguém que acaba de completar 99 anos tenha a excelência vista em Leadership (Liderança, em tradução livre), tanto em suas opiniões quanto na descrição dos feitos que marcam aos seus seis preferidos na nomenclatura mundial?

Neste livro publicado recentemente, Henry Kissinger destaca seis estadistas que, diz ele, são seus preferidos, a saber: Konrad Adenauer, Charles de Gaulle, Richard Nixon, Anuar Sadat, Lee Kuan Yew e Margaret Thatcher.

Com a exceção de Nixon, que não tem razão de estar neste grupo depois das fraudes que proporcionou (mas não podemos esquecer que foi este presidente quem tirou Kissinger de Harvard, onde ensinava história, e o nomeou assessor da presidência dos EUA, ao que Kissinger deve sua enorme popularidade).

Estadistas

O livro é muito bem escrito e os motivos evocados por Kissinger na escolha de seus seis estadistas são de peso. E também os motivos de ter escolhido esses seis estadistas e não outros líderes ocidentais. Um dos mistérios entre as aparições neste livro está Lee Kuan Yew, o verdadeiro criador da ilha de Cingapura, que apresenta o padrão de vida mais alto do mundo e foi “demitida” pela Malásia, que a considerava uma âncora para o seu desenvolvimento.

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Seu caso é verdadeiramente trágico para os pobres malaios. Esta história é extraordinária, sobretudo considerando que seu desenvolvimento e modernidade se devem, exclusivamente, ao esforço de seus habitantes, o que permitiu aos moradores daquela ilha encarnar um dos países mais avançados do mundo (segundo algumas estatísticas, é o mais avançado do mundo).

Escolha

O critério que segue Kissinger para escolher seus “estadistas” favoritos – que ele explica muito bem no seu livro- é a importância atribuída a eles pelo mundo inteiro e seus feitos em termos de alimentação, trabalho e padrão de vida, algo que torna Cingapura um caso muito especial: deixou de ser um dos países mais pobres para se tornar uma ilha onde todos têm empregos e altos salários, e, além disso, constitui um paradigma que os países pobres do mundo quiseram imitar, justificando totalmente a escolha de Lee Kuan Yew entre este conjunto de excelências que constitui a grossa parte dos estudos de Leadership.

No livro está a descrição de como ocorreu esse milagre e, entre outras coisas, da extraordinária visão do seu líder, aproveitando a situação da ilha e convertendo-a, pouco a pouco, em um paraíso de segurança onde poderiam ser abrigados os bens dos melhores empresários do mundo. A palavra-chave é “honradez”. A severidade de suas leis tem a ver com o prestígio dessa ilha, que soube – era o mais difícil – apostar sua aceitação enquanto uma das realizações mais efetivas da nossa época, como um dos países que levou aos seus extremos o desenvolvimento e a preeminência no padrão de vida da sua população.

França

O general De Gaulle aparece como foi: um ser fora de série (e de época) que, em que pese a hostilidade que sempre demonstrou contra a Inglaterra – opôs-se tanto tempo à integração deste país na Europa até consegui-lo –, converteu a França durante seu mandato em um país privilegiado, ao que todos os outros faziam concessões e davam prerrogativas. De Gaulle só defendia os interesses da França, algo que era insólito, pois tudo aquilo ocorria quando o que contava era o desaparecimento das “nacionalidades” e os países renunciavam a este velho simbolismo em nome da constituição de conjuntos, como a Otan e a União Europeia, que tendem a substituir as nações históricas por conjuntos supranacionais.

O primeiro-ministro inglês Winston Churchill e o presidente francêsCharles DeGaulle desfilam em Paris após a vitória na 2ª Guerra Foto: Companhia das Letras

O líder egípcio Anuar Sadat, que aqui figura com sua paciente e dolorosa biografia, tem como grande mérito ter transformado radicalmente as relações do Egito com Israel, com quem desenvolveu uma colaboração eficaz, sendo o primeiro país árabe a fazê-lo, algo que, por mais que até agora tenha mostrado mais fórmula do que conteúdo, se presta, no futuro, a servir de exemplo a outros países árabes, mostrando que ter uma boa relação com Israel é possível.

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Dama de Ferro

Embora todos os ensaios apresentem um alto nível de escrita – e a aparição de Henry Kissinger lhes confere um interesse adicional, às vezes recebendo esses líderes e opinando junto a eles –, o melhor ensaio, e certamente aquele com o qual ele mais se identifica, é o dedicado a Margaret Thatcher. Esse texto é uma verdadeira delícia e, sem dúvida, é o melhor da série. Aí está, em detalhes, toda a vida profissional da sra. Thatcher, que, em seus primórdios, era apenas uma destacada estudante de química na Universidade Oxford e conseguiu ascender para se tornar a primeira mulher a ocupar a liderança na Inglaterra, chegando a acumular um poder fora de série. Ela também conseguiu – pela primeira vez – que os conservadores ganhassem as eleições inglesas três vezes seguidas.

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Estou certo de que aqueles de nós que ali viveram naqueles anos jamais esquecerão a extraordinária verve que Margaret Thatcher espalhou para a Inglaterra, um país que havia se acostumado ao seu declínio, e do qual a sra. Thatcher transmitiu uma ousada e notável reflexão para a Europa, algo que, com o famoso Brexit, foi frustrado (até que um líder semelhante volte a liderar os destinos ingleses).

Foi a primeira vez que uma líder conservadora como a sra. Thatcher foi derrotada, nos anos em que brilhou, por uma conspiração dentro do próprio partido, que foi destruído graças àquele palhaço popular, Boris Johnson. Seria uma imensa tristeza se ele voltasse a liderar o Partido Conservador.

Perfis

Os perfis dos personagens estão muito bem traçados e no livro encontram-se todos os dados necessários para conhecê-los. Mas, e nisto há um grande mérito no ensaio, os apontamentos biográficos são igualmente substanciais, e o leitor pode seguir, passo a passo, a evolução de suas vidas ao lado de suas obras, ou seja, os desígnios que trataram de alcançar, trabalhando como fizeram para mudar seus países para melhor.

Todos eles tiveram esse mérito: seus países mudaram de aspecto e perfil com a passagem deles pelo poder, mas, claro, o significado de cada um foi distinto, por mais que todos tenham influenciado e transformado a percepção de seus países diante do mundo.

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A sra. Thatcher, por exemplo, mudou a percepção que se tinha da Inglaterra no restante da Europa. Mas, após a recuperação das Malvinas, teve-se uma visão distinta da Inglaterra e da sua primeira-ministra, a sra. Thatcher.

Juntamente com os escolhidos, Leadership tem algumas páginas em que Henry Kissinger explica as razões pelas quais, acredita, esses “escolhidos” mudaram a percepção de seus países no âmbito em que transitavam.

O ex-presidente americano, Richard Nixon. Foto: Acervo Estadão

Mudanças

E seu ensaio insiste que essas lideranças significaram uma mudança profunda na função presidencial. De maneira que todos eles – com exceção, talvez, do general De Gaulle – transformaram profundamente suas sociedades, deixando uma brasa que ainda não se apagou.

E todos eles foram dirigentes que trabalharam com sortes diferentes, como líderes que, sem recuar diante dos desafios que encontraram, foram capazes de superá-los. E a maior prova disso é a marca que deixaram. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Opinião por Mario Vargas Llosa

É prêmio Nobel de Literatura

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