Mobilização via redes sociais por refugiados na Ucrânia ajuda de idosos a gatos de estimação

Fãs, gamers e até desconhecidos utilizam as redes para ajudar com doações, informações sobre ataques e até fuga

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Por Carolina Marins
Atualização:
8 min de leitura

“Estamos vivos!”, a mensagem em ucraniano no Instagram permitiu que os fãs de Stepan, o gato, respirassem aliviados depois de dias sem notícias. Morando em Kharkiv, a família do famoso gato das festas solitárias conseguiu fugir para a França, mas não sem a ajuda de seus seguidores. As redes sociais têm sido um espaço onde pessoas ao redor do mundo tentam ajudar ucranianos, seja por meio de doações, divulgações e até traçando rotas de fuga.

Com seus mais de 1 milhão de seguidores no Instagram e TikTok, Stepan ficou famoso pelos seus vídeos festivos em que ele aparece com cara de tédio, sentado ao lado de uma taça de bebida. Sua última publicação nas redes antes de desaparecer foi em 3 de março, o próximo post só chegou no dia 16, quando inúmeros fãs já comentavam perguntando pelo influencer.


“No dia 24 de fevereiro, de manhã cedo, estávamos dormindo em casa. Às 5 da manhã, ouvimos uma explosão e não entendemos o que era. Meia hora depois, houve mais explosões, as janelas tremeram. Dei um pulo e entendi que algo terrível estava acontecendo! Percebemos que a guerra havia chegado à nossa casa”, relatou a família no Instagram.

A família, que é composta pelo gatinho, a tutora Anna e seus dois filhos, ficou uma semana no porão, sem eletricidade até começar uma saga para deixar o país. Com ajuda de voluntários, conseguiram pegar o trem rumo à Lviv, no oeste, onde seguiram para a fronteira com a Polônia. Foram nove horas na fila até cruzarem a fronteira.

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A partir da Polônia, a fama de Stepan agiu. O gato contou com a ajuda da World Influencers and Bloggers Association (Associação Mundial de Influenciadores e Blogueiros, em tradução livre), uma organização que visa unir influenciadores. O grupo facilitou o caminho até a França por meio de contatos e alugou um apartamento onde a família poderia enfim se sentir em segurança.

“Estamos bem agora. Preocupamo-nos muito com nossos parentes na Ucrânia e faremos o melhor que pudermos para ajudar nosso país”, escreveu a família. Nos últimos dias, as redes do felino começaram a divulgar pedidos de doações para ajudar instituições de animais na Ucrânia.

“Quero ajudar meus amigos que também se tornaram vítimas da guerra e não podem cuidar de si mesmos”, diz o perfil falando como se fosse o gato. Em 4 dias, a doação comandada pela associação de influencers em conjunto com a Zagoriy Foundation conseguiu arrecadar mais de US$ 10.000 (R$ 47.000), que serão enviados para organizações e zoológicos locais.

Stepan tem mais de 1 milhão de seguidores nas redes sociais Foto: Reprodução/Instagram

São como máscaras de oxigênio

Stepan não foi o único que contou com suas redes em meio à guerra. A professora de inglês, Maria Glazunova, 33, ficou sem trabalho e, consequentemente, sem renda quando a guerra começou. Morando em Kiev, os constantes bombardeios e cortes de energia tornaram impossíveis as aulas online.

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Preocupada, uma amiga começou na internet uma campanha para vender o livro de Maria sobre prevenção a burnout para professores. O post no Twitter começou a rodar e até em português a campanha foi compartilhada. “Comprando o livro, você estará ajudando demais neste momento difícil e ainda aproveitará o conteúdo incrível”, divulgou a professora brasileira Carina Fragozo em seu storie do Instagram.

Com a divulgação, Maria vendeu cerca de 200 cópias do livro e assim conseguiu enviar dinheiro para a avó que mora em Melitopol. “Eu não consigo descrever o nível de desespero que é você não ter qualquer renda”, conta Maria. “Então meus amigos foram buscar formas de me ajudar e falaram: ‘você tem um livro, é bom porque as pessoas podem te ajudar e ainda obter algumas ideias úteis para si”

Com o tempo, a professora começou a receber feedbacks sobre o livro. “É uma troca muito legal. Foi incrível para mim porque as pessoas estavam compartilhando comigo alguns comentários e diziam ‘como pode, você está nessa situação terrível e está me ajudando’”. Segundo ela, essas mensagens são como “máscaras de oxigênio” que a mantêm viva em meio ao horror.

No livro, publicado em 2021, Maria conta sobre sua própria experiência com o burnout, uma doença muito comum entre professores, segundo ela. Ao lerem sua história, leitores lhe diziam que se sentiam “abraçados” pela escrita. “Isso me ajudou muito, e não só financeiramente, mas me ajuda a seguir a minha vida, a continuar fazendo o meu trabalho e encontrar forças”, desabafa.

Ela tentou continuar em Kiev, mas conforme o cerco foi se fechando, viu que o seguro era fugir. Após três dias de viagem de ônibus, pôde cruzar a fronteira para a Polônia, onde está até hoje, na casa de amigos. Aos poucos ela tenta continuar a vida e retomar seus alunos, que também estão lidando com os horrores da guerra.

Maria Glazunova é uma professora de inglês que precisou fugir de Kiev para a Polônia em meio à guerra na Ucrânia Foto: Arquivo pessoal

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“Eu decidi continuar trabalhando, então consegui ter alguns alunos de volta porque eles também precisam de apoio neste momento. Não é somente sobre aprender inglês. Para eles é sobre ter um pedacinho de normalidade e lidar com esta situação. É algo que eu entendo completamente”.

Sua maior preocupação agora é com a avó, que completa 94 anos em algumas semanas e se encontra incomunicável. Com a piora da guerra e o cerco às cidades ao sul, Maria não consegue mais lhe enviar dinheiro ou outras formas de ajuda, e até então contava apenas com as ligações de vizinhos para garantir que a avó estava bem. Mas até isso acabou. “Minha avó viveu a Segunda Guerra Mundial. Quando começou essa guerra de agora ela só disse ‘de novo?’”.

Prints de mapas

Se por um lado as redes sociais podem ser um terreno fértil para desinformação em tempos de guerra, também têm mostrado esse lado benfeitor ao redor do mundo. “Quando você tem tantos seguidores, você pode usá-los como uma rede para fornecer ajuda, encontrar abrigo ou até mesmo ajudar a encontrar rotas de fuga em uma zona de guerra”, explicou Mohamad Taufiq Morshidi, ex-angariador de fundos da Muslim Aid Malaysia ao jornal americano The Washington Post. “Ter uma rede online o ajudará a sobreviver a tempos difíceis.”

No início de março, um streaming ucraniano pôde escapar graças à ajuda de seus seguidores que compartilhavam informações em tempo real e acompanhavam os passos da família. Desde 2014, em meio à guerra na Crimeia e Donbas, o gamer conhecido como Bobuubi, ou Bobi, começou a jogar Escape from Tarkov, um jogo de guerra que passa num cenário russo fictício.

Fazer streaming se tornou seu trabalho e o sustento de sua família, formada por sua esposa e duas filhas. Com o início da guerra na Ucrânia, ele passou a transmitir de um bunker longe de casa. Em fevereiro - no início da invasão - ele percebeu que o bunker começou a ser bombardeado e se despediu dos demais jogadores aos prantos, dizendo que pensava apenas em sua família. O vídeo se tornou viral.

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Com o governo ucraniano aconselhando seus cidadãos a desligarem sua localização no telefone para não serem rastreados por russos, Bobi não conseguia utilizar o GPS. Seus seguidores, então, acompanhavam a localização por uma VPN e enviavam capturas de telas do Google Maps para ele se guiar, contou o streaming ao podcast On The Media, do Wnyc Studios.

“Bobuubi e sua família passaram os últimos 8 dias tentando fugir com segurança para a fronteira ucraniana com um país vizinho. Muitos de vocês seguiram a jornada deles e ofereceram seu apoio, e isso os manteve firmes nos momentos em que queriam desistir”, escreveram amigos nas redes do streaming para atualizar os seguidores.

Hoje ele informa em suas redes que está fora de Kiev, sem entrar em mais detalhes por questão de segurança, diz. Nas redes, compartilha foto das filhas brincando em segurança e começou a participar de campanhas de arrecadação de alimentos. “Vocês fizeram de mim um herói, agora quero agir como um”, escreveu.

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