Suas vidas se cruzaram em torno de um parquinho infantil, numa ensolarada tarde de sexta-feira, na cidade de Krivii Rih, na região central da Ucrânia.
Kostiantin Novik, de 16 anos, tinha ido com seu primo encontrar-se com amigos. O soldador Serhii Smotolok, de 57, tomava uma cerveja na varanda de um restaurante próximo, relaxando após um dia de trabalho. Radislav Iatsko, de 7, estava no banco de trás do carro de seus pais enquanto a família passava pelo parquinho, retornando de uma tarde em sua casa de campo.
Num instante, a vívida imagem virou carnificina: um míssil russo atingiu o parquinho, lançando estilhaços que destruíram tudo em seu caminho.

Kostiantin e seu primo morreram instantaneamente, e a perna de Kostiantin foi arrancada pela explosão. Smotolok foi atingido por fragmentos do míssil e sangrou até a morte na varanda. Radislav morreu quando estilhaços arrancaram parte de seu crânio.
“Ficou tudo coberto de sangue”, disse seu pai, Rodion Iatsko. Ele implorou para os médicos que chegaram logo depois que salvassem a vida de seu filho. “Então, um homem veio até o nosso carro, olhou para dentro e disse: ‘Acabou’.”
O ataque, na sexta-feira passada, matou 19 civis, incluindo 9 crianças, tornando-se o bombardeio mais mortífero contra crianças desde o início da invasão da Rússia em escala total, de acordo com as Nações Unidas. O ataque, o pior contra Krivii Rih durante a guerra, provocou ondas de choque que atingiram toda a Ucrânia, que declarou luto nacional no domingo. Aliados ocidentais expressaram solidariedade, com embaixadas em Kiev hasteando suas bandeiras a meio-pau naquele dia.
Para os moradores de Krivii Rih, a cidade natal do presidente Volodmir Zelenski, o ataque foi um doloroso lembrete de que, após três anos, a guerra ainda continua, apesar das negociações de cessar-fogo em andamento entre a Ucrânia e a Rússia. Moscou continua a atacar cidades ucranianas distantes das linhas de frente com saraivadas de mísseis e drones, apesar do risco para os civis.

O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que o ataque matou 85 oficiais militares ucranianos e ocidentais reunidos no restaurante próximo ao parquinho. Mas imagens de segurança analisadas pelo New York Times mostraram que o restaurante estava lotado de mulheres que participavam de um evento da indústria da beleza, e funcionários limpavam o local minutos antes do ataque.
“Eles simplesmente assassinam crianças e civis”, disse Anna Iatsko, a mãe de Radislav, no domingo, na véspera do funeral do filho. “Não havia soldados, tinha apenas civis.”
“Todas as conversas sobre um cessar-fogo não passam de palavras vazias”, acrescentou.

Ataques
Krivii Rih, uma cidade industrial de 600 mil habitantes a cerca de 64 quilômetros das linhas de frente, tem sido atingida regularmente por drones e mísseis russos. Dois dias antes do ataque da sexta-feira, um míssil matou quatro moradores.
Em meio às dificuldades, os moradores anseiam por momentos de alegria.
Quando Kostiantin, de 16 anos, perguntou à sua tia e tutora legal, Liubov Svoroba, se ele e o primo poderiam ficar com os amigos no parquinho, ela hesitou, mas acabou concordando. Os dois adolescentes gostavam de desanuviar das sombras da guerra ali, muitas vezes se exercitando em bancos rudimentares e coloridos para exercícios abdominais e máquinas de supino espalhadas pelo terreno arenoso.
“Eles disseram que só queriam dar uma volta e ver os amigos”, disse Svoroba, de 65 anos. “Assim que chegaram lá, ocorreu a explosão.”

De seu apartamento, a poucos quarteirões de distância, Olga Iaroshenko, de 66 anos, viu uma enorme nuvem de fumaça e poeira subindo do parquinho. A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi que seu parceiro, o soldador Smotolok, estava bebendo cerveja no restaurante. Eles estavam juntos havia oito anos, encontrando o amor mais tarde na vida. Eles estavam poupando dinheiro para comprar um carro novo — o sonho de Smotolok.
Enquanto corria para o local do ataque, Iaroshenko viu os corpos de uma mulher, um adolescente e várias crianças, alguns já sob cobertores colocados pelos médicos. “A área parecia um campo de cadáveres”, lembrou ela. “Havia gritos e berros — era insuportável.”
Em meio ao caos, ela não conseguia encontrar Smotolok e se agarrou à esperança de que ele estivesse em segurança. Então seu telefone tocou, e o número dele apareceu na tela. “Senti alívio — ‘Ele deve estar vivo!’”, recordou-se ela de ter pensado.
Iaroshenko atendeu o telefone, mas ouviu a voz de um estranho: “Aqui é o investigador falando. Serhii Heorihiiovich morreu hoje”, disse o policial, usando o patronímico de seu parceiro.

Cicatrizes
No domingo, a região em torno do parquinho ainda exibia cicatrizes da carnificina: manchas de sangue na calçada, um pedaço de carne humana numa cadeira de restaurante. Prédios próximos tiveram janelas estilhaçadas e uma cratera profunda criada pelo impacto do míssil se abriu a poucos metros do parquinho.
Ainda não está claro exatamente que tipo de arma a Rússia disparou contra o parque. As Nações Unidas, que enviaram uma equipe para inspecionar a área, e as autoridades locais acreditam que a Rússia usou um míssil balístico Iskander que explodiu vários metros acima do parque, espalhando estilhaços.
Rodion Iatsko, o pai de Radislav disse que sua família era tão unida que ele costumava pensar que, se um míssil ou drone atingisse o parque, todos morreriam juntos. Pelo menos “ninguém sofreria” a dor de perder um ente querido, disse ele.
Mas na sexta-feira apenas Radislav morreu. Seus pais, sua irmã de 8 meses, Adelina, e sua bisavó — todos dentro do carro quando o míssil atingiu o bebê — sobreviveram com concussões e arranhões.

Anna Iatsko, a mãe de Radislav lhe deu à luz após anos de dificuldades para engravidar. Quando nasceu, disse ela, o bebê “tornou tudo muito melhor”.
Radislav amava animais e passava horas na casa da família coletando baratas, lagartos e borboletas, quando não estava resgatando ouriços das ruas movimentadas. Numa cerimônia em sua memória, na escola onde ele estudava, na segunda-feira, uma de suas professoras disse que nunca tinha ouvido um menino falar com tanta ternura sobre sua irmãzinha. Anna disse que, quando estava grávida de Adelina, Radislav beijava sua barriga todas as noites antes de dormir.
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No funeral, na segunda-feira, usando uma bandana preta para representar o luto, Anna contemplou o rosto do filho enquanto ele era carregado em um caixão aberto para uma pequena igreja cristã ortodoxa. Um chapéu cinza escondia o ferimento na cabeça. Uma cicatriz vermelha que ia da testa ao olho direito machucado era o único sinal de trauma.
“Não é ele! Não é ele!”, gritava a mãe, que depois murmurou o nome de Radislav três vezes, como se tentasse acordá-lo de um longo sono. Antes de enterrá-lo, seus pais colocaram um bichinho de pelúcia entre seus braços.
Nos dias que se seguiram ao ataque, homenagens improvisadas surgiram por todo o parque, com brinquedos de pelúcia, barras de chocolate, rosas e velas cobrindo bancos, balanços e gangorras onde algumas das crianças morreram. Na noite da segunda-feira, a maior pilha de objetos, quase à altura do peito, ficava no centro do parquinho, escondendo um carrossel.
Anna Yatsko disse que deseja uma vida em que as crianças possam correr e brincar livremente. “Mas, por enquanto”, disse ela, “nem mesmo um parquinho é seguro”. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO




