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Desde que ordenou ao Pentágono, em janeiro, a construção de um escudo de defesa antimísseis dos EUA parcialmente baseado no espaço, o presidente Donald Trump afirmou que ele seria concluído até o final de seu mandato e custaria US$ 175 bilhões. Sua iniciativa de segurança nacional terá uma taxa de sucesso de quase 100%, prometeu ele, “acabando para sempre com a ameaça de mísseis ao território americano”.
Mas a Casa Branca e o Pentágono revelaram poucos detalhes do projeto “Golden Dome” (Domo dourado), que, segundo analistas de defesa e orçamento, provavelmente levará pelo menos uma década para ser concluído e custará um trilhão de dólares ou mais.
O Domo Dourado reformularia radicalmente a doutrina militar e militarizaria ainda mais o espaço, uma iniciativa que tem sido comparada à corrida para construir a bomba atômica durante a 2ª Guerra Mundial e às missões Apollo à Lua. No entanto, pode não chegar nem perto de fornecer o tipo de proteção abrangente que Trump afirma ser possível.

Marcando uma ruptura histórica com décadas de dissuasão nuclear, ele poderia remediar uma vulnerabilidade flagrante do território americano ou desencadear uma corrida armamentista em órbita que poderia durar uma geração ou mais.
Os críticos ridicularizam a parte mais ambiciosa do programa — inundar a órbita baixa da Terra com milhares de satélites para detectar e destruir mísseis adversários — como uma fantasia para desestabilizar a frágil ordem internacional que tem evitado uma guerra nuclear por mais de 70 anos.
“O Domo Dourado pode ser a ideia mais perigosa que Trump já propôs, e isso é dizer muito”, disse o deputado Seth Moulton (Democrata de Massachusetts), membro do Comitê das Forças Armadas, em uma entrevista.
Os defensores da proposta argumentam que, devido às ameaças crescentes e aos avanços tecnológicos dramáticos, é o momento certo para ressuscitar a Iniciativa de Defesa Estratégica da era Reagan, conhecida como “Guerra nas Estrelas”, que fracassou no final da Guerra Fria. Durante anos, os defensores da defesa têm pressionado por um escudo antimísseis mais robusto, citando a verdade inquietante de que os Estados Unidos não têm uma forma abrangente de proteger seu território.
Enquanto isso, a China e a Rússia já estão expandindo seus arsenais nucleares na maior acumulação de armas de longo alcance desde a Guerra Fria. Elas estão adicionando centenas de mísseis balísticos intercontinentais, bem como novos sistemas de armas, incluindo armas hipersônicas projetadas para atingir cidades americanas a mais de 6.400 km/h, segundo autoridades de inteligência.
Os Estados Unidos negligenciaram seus sistemas de defesa antimísseis, disse Tom Karako, diretor do Projeto de Defesa Antimísseis do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), uma organização apartidária. Os US$ 25 bilhões que Trump dedicou ao Domo Dourado este ano são um “adiantamento para compensar os anos de desatenção a isso. Sabíamos que essas ameaças estavam chegando”, disse ele durante um evento do CSIS. “Já era hora.”

A China afirmou que isso “aumentará o risco de transformar o espaço em uma zona de guerra e criar uma corrida armamentista espacial, abalando a segurança internacional e o sistema de controle de armas”. Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, disse em uma coletiva de imprensa: “Instamos os EUA a desistirem do desenvolvimento e da implementação de um sistema antimísseis global e a tomarem medidas concretas para aumentar a confiança estratégica entre os principais países e manter a estabilidade estratégica global”.
O Domo Dourado seria modelado, pelo menos em teoria, com base no Domo de Ferro de Israel, que se mostrou robusto contra ataques durante anos. Mas a defesa antimísseis de Israel protege apenas contra mísseis de curto alcance, em uma área com o tamanho aproximado de Nova Jersey. O Domo dourado teria que proteger todos os Estados Unidos contra mísseis balísticos intercontinentais que poderiam transportar várias ogivas nucleares.
Uma análise do Escritório de Orçamento do Congresso previu que o custo da implementação de interceptores espaciais custaria US$ 542 bilhões em 20 anos. Mas esse montante permitiria ao Pentágono defender-se apenas contra um ou dois lançamentos de mísseis de um ataque não autorizado da Coreia do Norte. Para expandir o sistema para combater um número maior de ameaças, alguns especialistas preveemque ele poderia se tornar uma das iniciativas mais caras da história do Pentágono.

Todd Harrison, pesquisador sênior do American Enterprise Institute, calculou que uma arquitetura defensiva robusta para o Domo Dourado poderia custar até US$ 3,6 trilhões ao longo de 20 anos.
Em maio, Trump nomeou o general da Força Espacial Michael Guetlein para supervisionar o esforço do Domo Dourado, entregando-lhe o que talvez seja o trabalho mais difícil em Washington. Quando Trump prometeu que o programa poderia ser concluído em três anos por US$ 175 bilhões, Harrison disse: “Ele limitou a iniciativa de tal forma que é impossível atender a todas essas expectativas. Elas simplesmente não se encaixam”. Guetlein, acrescentou ele, agora tem “que descobrir o quão perto ele pode chegar. A questão é: onde você decepciona o presidente?”
Com o projeto em fase inicial, ainda não está claro qual agência liderará o Domo Dourado. Mas o dinheiro por trás do esforço já provocou uma corrida entre as empresas de defesa dos EUA — da Lockheed Martin à Booz Allen Hamilton e L3 Harris — que estão ansiosos para capitalizar sobre o que pode ser uma onda de gastos única em uma geração. Autoridades de defesa deixaram claro que também querem contribuições de empresas de tecnologia, como Anduril, Palantir e SpaceX, que impulsionaram a inovação.
“Se quisermos usar o espaço de forma eficaz, temos que estar prontos para lutar por ele”, disse o general Chance Saltzman, chefe de operações espaciais da Força Espacial, em uma entrevista. “Essas não são ameaças emergentes. São ameaças que estão em órbita. Elas estão no solo agora e colocam nossos ativos em risco.”

Baixa taxa de sucesso
O Pentágono opera vários sistemas diferentes de defesa antimísseis, incluindo Aegis, THAAD e Patriot, que são projetados para impedir ataques com mísseis de curto a médio alcance e usados para proteger bases militares dos EUA no exterior. Para proteger o território americano, as forças armadas contam com o que é conhecido como “sistema de defesa de médio curso baseado em terra”, composto por apenas 44 mísseis interceptadores carregados como balas em silos com cúpulas brancas enterrados na tundra de Fort Greely, no Alasca, e ao longo da costa da Califórnia, na Base da Força Espacial de Vandenburg.
Se um ataque com mísseis fosse detectado, as cúpulas se abririam e um foguete de vários estágios seria lançado, deixando um rastro de fogo. Enquanto voasse em direção ao alvo, os satélites continuariam a transmitir dados — a velocidade do míssil, sua altitude e trajetória —, enquanto radares posicionados em terra e no mar fariam o mesmo.
Uma vez no espaço, o interceptador americano lançaria uma espaçonave de aparência estranha, com 1,4 metro de comprimento, pesando 65 kg, com propulsores e tanques de combustível e um sensor que se projeta como um chifre. Por mais estranho que possa parecer, o “veículo de destruição exoatmosférico”, como é chamado, foi projetado para caçar sua presa voando pelo espaço a milhares de quilômetros por hora e, em seguida, destruir mísseis inimigos colidindo com eles — um feito que, segundo especialistas, é semelhante a “atingir uma bala com outra bala”.
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Nos 20 testes realizados desde 1999, no entanto, os veículos de destruição erraram seus alvos com a mesma frequência com que os atingiram, obtendo sucesso em apenas 55% das vezes, de acordo com um relatório da American Physical Society, uma organização científica sem fins lucrativos.
E mesmo assim, os testes nem sempre simularam com precisão as condições do mundo real. Os testes “foram realizados em condições programadas e projetados para o sucesso”, disse o relatório. “O Pentágono tem consistentemente classificado os testes como pouco realistas em termos operacionais.”
Os custos têm sido enormes. Os EUA gastaram mais de US$ 350 bilhões em esforços para se defender contra mísseis balísticos intercontinentais com armas nucleares nos últimos 60 anos, de acordo com Laura Grego, diretora de pesquisa da Union of Concerned Scientists. O esforço, escreveu ela, “tem sido atormentado por falsos começos e fracassos, e nenhum deles ainda demonstrou ser eficaz contra uma ameaça do mundo real”.
Dada a imensa dificuldade de atingir mísseis em pleno voo, os líderes militares há muito tempo buscam atingi-los logo após o lançamento, durante o que é conhecido como “fase de impulso”, quando seus motores ainda estão funcionando e eles são mais fáceis de ver. No Domo Dourado, os interceptadores ficariam estacionados em órbita baixa da Terra e rapidamente se aglomerariam em torno do alvo durante a curta fase de impulso, no estilo kamikaze.
Para o Domo Dourado funcionar conforme anunciado, seria necessário lançar um grande número de satélites, o que acarretaria um custo enorme. Mesmo que esse arranjo se mostrasse tão robusto quanto os defensores do Domo Dourado imaginam, ele ainda apresentaria um calcanhar de Aquiles teórico. Um padrão tão denso de satélites em órbita poderia ser vulnerável a ameaças como, por exemplo, uma detonação nuclear no espaço, que destruiria muitas das armas do Golden Dome, além de gerar uma cascata de detritos orbitais destrutivos que poderia silenciar toda a rede.
Sem uma cobertura completa de segurança, a dissuasão continuará sendo o princípio mais crucial, disse Doug Loverro, que atuou em várias funções na NASA, no Escritório Nacional de Reconhecimento e no Pentágono, incluindo como subsecretário adjunto de defesa da política espacial. Se inundar a órbita da Terra com milhares de satélites suicidas não for viável, o Pentágono poderia fazer progressos reais na construção de seus sistemas terrestres muito além dos 44 interceptores que já possui, disse ele. Mas mesmo isso não daria proteção total aos EUA. “Todos sabem que não seremos capazes de interceptar um ataque em massa”, disse Loverro. “A questão que temos que considerar é contra quantos mísseis temos que nos defender para fazer com que a ameaça nuclear recue?”
Durante a Iniciativa de Defesa Estratégica de Reagan, o programa de interceptores espaciais foi chamado de “Brilliant Pebbles”. Mas, na década de 1980, o lançamento e a operação de constelações de pequenos satélites foram descartados como ficção científica, o que é uma das razões pelas quais o plano de Reagan foi ridicularizado como “Guerra nas Estrelas” e acabou fracassando.
Desde então, a tecnologia de satélites avançou enormemente, enquanto os custos de lançamento de espaçonaves caíram drasticamente. Com seu sistema de internet via satélite Starlink, que compreende mais de 8.000 espaçonaves operacionais, a SpaceX demonstrou que é viável operar uma grande constelação e lançar foguetes em alta frequência. Ela enviou mais de 130 foguetes no ano passado e pretende enviar ainda mais este ano.
“A física não mudou”, disse Clayton Swope, vice-diretor do projeto de segurança aeroespacial do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. “Mas os custos de lançamento são muito mais baixos e mostramos que podemos operar constelações de satélites em órbita. Isso era uma questão há apenas 10 anos.”
Ao mesmo tempo, as ameaças aumentaram e continuarão a “expandir-se em escala e sofisticação”, de acordo com a Agência de Inteligência de Defesa (DIA). Durante a Guerra Fria, os EUA concentraram-se num único adversário: a União Soviética. Hoje, uma série de outras nações além da Rússia — incluindo China, Coreia do Norte, Irã e Paquistão — têm acesso a mísseis de longo alcance, e um total de nove países possuem armas nucleares.

A China está a caminho de quase duplicar o número de seus mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) até 2035 e quintuplicar seu arsenal de mísseis de cruzeiro, de acordo com a DIA. A Rússia também está expandindo seus arsenais de mísseis, segundo o relatório. E ambos os países trabalham no desenvolvimento de novos sistemas de armas de longo alcance, incluindo veículos hipersônicos, que podem manobrar e voar a velocidades superiores a Mach 5, tornando-os difíceis de rastrear e atingir.
Durante décadas, os EUA confiaram em uma doutrina conhecida como “destruição mútua assegurada”: qualquer lançamento de um míssil nuclear contra os EUA resultaria em um contra-ataque devastador dos EUA. Mas, dada a corrida armamentista já em andamento, argumentam os defensores do Domo Dourado, os EUA precisam de sistemas de defesa mais fortes para deter as novas ameaças.
Além de defender contra ataques com mísseis, disse Swope, o Domo Dourado poderia servir como uma ferramenta semelhante a um canivete suíço, que poderia ser usada para atacar outros satélites ou alvejar foguetes que lançam cargas militares. Isso, escreveu ele em um relatório, “aumentaria imensamente a superioridade espacial dos EUA além da defesa antimísseis e criaria um potente efeito dissuasório”.
Em uma entrevista, ele disse: “Ouvimos falar de guerra no espaço, mas agora estamos falando de guerra a partir do espaço”.





