Primeiro-ministro da Eslováquia é alvo de ataque e governo aponta ‘razão política’; veja vídeo

Robert Fico foi levado às pressas para o hospital e submetido a cirurgia de mais de sete horas após ser surpreendido por atirador e baleado enquanto cumprimentava pequeno grupo de pessoas

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Por Redação
Atualização:

O primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, foi alvo de um atentado, segundo autoridades, por razões políticas. A polícia prendeu o atirador, Juraj Cintula, de 71 anos, que seria ultranacionalista e simpatizante de um grupo paramilitar pró-Rússia. Ele disparou cinco vezes contra o premiê, que foi levado às pressas para um hospital e submetido a uma cirurgia de mais de sete horas.

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Fico, de 59 anos, saía de uma reunião de gabinete em Handlova, a cerca de 190 quilômetros da capital Bratislava. Ele cumprimentava um pequeno grupo de pessoas, em plena luz do dia, quando foi surpreendido pelo atirador.

Segundo o vice-premiê Tomas Taraba, pelo menos uma bala atingiu seu abdômen e outra, o braço. Ele afirmou que o primeiro-ministro esteve em situação crítica, mas que resistiu à operação. “Ele não corre mais risco de vida”, disse o vice.

O primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, foi baleado após uma reunião de governo e está em estado grave  Foto: Geert Vanden Wijngaert/AP

Reações

A presidente do país, Zuzana Caputová, condenou em nota o “brutal” ataque sofrido por Fico, e lhe desejou uma pronta recuperação.

Já o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou que ele deseja uma pronta recuperação ao primeiro-ministro eslovaco e condenou o ato de violência. “Nossa embaixada está em contado com o governo da Eslováquia e estamos prontos para ajudar”.

O primeiro-ministro tcheco, Petr Fiala, também se manifestou, dizendo que a notícia é um “choque”. Ele também deseja que o colega se recupere rapidamente.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse “condenar fortemente o ataque”. A Eslováquia faz parte da União Europeia desde 2004. Já o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, também condenou o ataque e apontou que “todos os esforços precisam ser feitos para garantir que a violência não se torne a norma em nenhum país”.

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O Secretário-Geral da Otan, Jens Stoltenberg, apontou que está “chocado” com o ataque a Fico e desejou uma pronta recuperação ao primeiro-ministro. Viktor Orban, primeiro-ministro da Hungria, chamou Fico de amigo e afirmou que está rezando pela sua recuperação. O russo Vladimir Putin chamou o ataque de “crime monstruoso”.

Motivação desconhecida

As razões do ataque, porém, são mais obscuras. Uma pista está na trajetória do premiê, um veterano com 30 anos de carreira, que começou militando na esquerda, mas abraçou a direita nos últimos anos, com um discurso anti-imigração, contra a UE, em favor da Rússia e contra os direitos LGBT+.

Fico havia sido premiê em outros períodos, entre 2006 e 2010, e entre 2012 e 2018, quando renunciou após o assassinato do jornalista Jan Kuciak, que investigava casos de corrupção em seu governo. Ele voltou ao poder na eleição de outubro, quando seu partido, o Direção Social-Democracia (Smer-SD), fundado em 1999 de uma dissidência do Partido Comunista, saiu das urnas como o mais votado.

De novo no cargo, ele declarou guerra às instituições, prometendo reformar o Judiciário e abolir a procuradoria especial, criada há 20 anos para investigar casos de corrupção. Fico também quis fechar a TV pública RTVS, que “havia perdido a objetividade”, segundo ele, “pois estava sempre em conflito com o governo”.

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Nenhuma autoridade confirmou a identidade do atirador, mas a imprensa cravou que se trata de Cintula, poeta e escritor. O jornalista húngaro Szabolcs Panyi, escavando seus posts no Facebook, descobriu que ele é simpatizante do grupo paramilitar Slovenskí Branci, ligado ao Kremlin – o que torna as razões do atentado ainda mais contraditórias e complexas. Autoridades e o filho de Cintula garantiram que ele não sofre de problemas mentais. Em uma das mensagens online, o atirador defende a criação de milícias para proteger a “tradição eslovaca” da chegada de imigrantes.

Cintula tem porte de arma e trabalhou como segurança privado. A TV Markiza divulgou um vídeo após o ataque que mostra o poeta criticando o governo. “Por que a mídia está sendo alvo (de Fico)? Por que a RTVS está sendo atacada? Por que Mazak foi demitido de seu cargo?”.

Jan Mazak é um juiz que presidia o Conselho Judicial. Ele foi destituído em abril, em uma manobra arquitetada por Fico, segundo a oposição, para consolidar o controle de seu partido sobre o Judiciário da Eslováquia.

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Trabalhadores do serviço de emergência levam o primeiro-ministro Robert Fico para um hospital na cidade de Banska Bystrica, no centro da Eslováquia  Foto: Jan Kroslák/AP

Manifestações

Os principais partidos da oposição da Eslováquia cancelaram o protesto planejado para esta quarta-feira contra o controvertido plano do governo de reformar os serviços de rádio e televisão públicos. Robert Fico aprovou a medida no dia 24 de Abril, e o Parlamento, onde tem maioria, deverá aprová-la em Junho.

O plano enfrenta resistência da presidente Zuzana Čaputová, dos partidos de oposição, jornalistas locais e Comissão Europeia. Para os críticos, a medida aumentaria o controle do governo sobre o conteúdo publicado.

Pró-Rússia e nacionalista

Na política externa, Robert Fico é crítico da União Europeia e se opõe ao envio de armas para Ucrânia. A posição da Eslováquia é importante porque o país integra tanto o bloco europeu como a Otan e críticos do primeiro-ministro apontam que ele pode romper as políticas pró-Ocidente, em um movimento similar ao de Viktor Orban, na vizinha Hungria.

O primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, conversa com cidadãos após uma reunião de governo em Handlova, Eslováquia  Foto: Radovan Stoklasa/AP

Fico já deu declarações condenando o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por esses casais. Em questões econômicas, ele é visto como trabalhista, tendo implementado reformas que dão direito a aviso prévio, regras mais rígidas para horas extras e mais poder a sindicatos.

Ele expressou posições anti-imigração de muçulmanos para o país e, em política externa, é visto como pró-Rússia e contra a instalação de bases militares dos EUA na Europa Central./AFP, AP e AFP

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