Rússia lança ‘ofensiva de verão’ contra Ucrânia, com exército atolado em problemas

Russos têm uma grande vantagem, mas conquista territorial tem sido lenta e blogueiros militares russos culpam uma cultura de corrupção militar

PUBLICIDADE

Por Robyn Dixon (The Washington Post)

Por que a Crimeia voltou ao centro da Guerra na Ucrânia?

Antigos moradores reagem à sugestão de Donald Trump de entregar península à Rússia após 11 anos de ocupação.

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Gerando resumo

A Rússia lançou a tão propalada “ofensiva de verão” no leste da Ucrânia, e avança lentamente mesmo com vantagem em número de soldados, projéteis de artilharia e mísseis. Os próximos meses serão cruciais na tentativa do presidente Vladimir Putin de forçar a capitulação de Kiev.

PUBLICIDADE

Mas o progresso da Rússia nos últimos dois anos contra a Ucrânia tem sido lento, especialmente em comparação com os recentes ataques relâmpagos de Israel contra o Irã, um país muito maior. A razão, segundo especialistas, é o estado das forças armadas russas — um problema de longa data.

O analista militar russo independente Ian Matveev prevê que a ofensiva de verão da Rússia não levará a um avanço drástico, mas pode render milhares de quilômetros quadrados de território. As forças armadas russas são incapazes de conduzir operações complexas na Ucrânia, disse ele, devido à fraquezas na inteligência militar, escassez, corrupção, falhas logísticas e treinamento deficiente.

“Essas táticas [de ataque em massa] são a única coisa que as forças armadas russas são capazes de fazer no momento. E é muito desumano, porque, na verdade, a Rússia está trocando pessoas mortas por território. O que temos no exército russo agora é um grande número de soldados, mas eles não têm treinamento”.

Publicidade

Blogueiros militares russos e reportagens da mídia independente no Telegram nos últimos meses apresentaram um retrato consistente de uma cultura militar problemática, entre elas generais que fazem alegações falsas sobre a conquista de aldeias, soldados sendo enviados para “ataques suicidas” sem pensar na sobrevivência deles e transporte e logística precários nas linhas de frente, resultando na morte de soldados feridos.

Uma mulher passa de scooter pela danificada Igreja de Pokrovi Presviatoi Bohoroditsi na cidade de Sviatohirs'k, região de Donetsk, em 26 de junho de 2025, em meio à invasão russa da Ucrânia.  Foto: Tetiana Dzhafarova / AFP

Os comandantes são frequentemente descritos como corruptos — com a exigência de subornos para poupar soldados de ataques letais e com regimes de punição, como aprisionar soldados ou “zerá-los”, na prática matá-los ou enviá-los para ataques suicidas.

O resultado, dizem esses blogueiros, é um moral baixo, deserções, alcoolismo e abuso de drogas generalizados entre as tropas russas.

Ivan Philippov, um autor russo que acompanhou blogueiros militares da Rússia durante toda a guerra e está escrevendo um livro sobre eles, descreve o grupo como agressivamente pró-guerra, mas ainda confiável em questões militares e contratempos. Eles evitam a todo custo criticar Putin.

Publicidade

“A maior força deles é ter contato direto com os militares russos, com pessoas que estão em vários lugares, desde as trincheiras até o Ministério da Defesa. Eles podem fornecer informações às quais ninguém mais tem acesso”, disse ele.

“A principal questão, segundo eles, é a falta de pessoal. Tem sido um tema constante há pelo menos um ano. Eles têm falado sobre como àqueles que querem lutar e assinam contratos com o governo para lutar, agora são realmente cidadãos de segunda classe, alcoolatras, pessoas com dependência química, com saúde precária, e acima da idade para lutar - e estas são as palavras textuais destes blogueiros. Não todos eles, mas cada vez mais deles.”

O financiamento para equipamentos também é um problema, apesar de Moscou gastar 40% do seu orçamento em guerra e segurança. Soldados da linha de frente descrevem que dependem de campanhas de arrecadação de fundos online realizadas por voluntários para comprar drones, coletes à prova de balas, smartphones, veículos, kits de primeiros socorros, geradores, baterias externas e pontos Starlink de acesso à internet. Mas, cada vez mais, eles reclamam que os russos estão cansados de enviar dinheiro.

“Entendo que as pessoas estão cansadas de ajudar o exército e cansadas da guerra. E muitos se questionam por que o exército deve ser ajudado, mas não tenho respostas para essas perguntas”, escreveu um blogueiro militar russo conhecido como “Callsign Ossetian” em 17 de junho. “Mas este é um momento decisivo e os soldados precisam de ajuda”.

Publicidade

Soldados ucranianos ao lado de um veículo após uma inspeção em um local não revelado no leste da Ucrânia, em 25 de junho de 2025, em meio à invasão russa  Foto: Tetiana Dzhafarova / AFP

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Outro blogueiro militar, “Philologist in Ambush”, disse em uma postagem de 24 de junho que as conversas sobre a força do exército e a retórica patriótica estão perdendo força entre os soldados confrontados com essas carências diárias.

“Enquanto um soldado for forçado a gastar metade de seu salário em batatas, cebolas e cenouras, leite e carne, drones e incubadoras, coletes à prova de balas e uniformes normais, armas e cartuchos, geradores e gasolina para eles, Starlinks e estações de rádio e repetidores comuns, ele não aceitará o ‘patriotismo’ que lhe é imposto de forma agressiva”, escreveu ele.

Analistas militares russos veem a Rússia com uma larga vantagem na guerra neste momento, com muitos soldados, munição e mísseis. Ela tem bombardeado cidades ucranianas, com um grande número de vítimas civis, mas a posição da Rússia na linha de frente sugere que sua ofensiva de verão para uma avanço decisivo pode fracassar, segundo especialistas militares ocidentais, citando uma recente ofensiva em direção à cidade de Sumi, no norte, que estagnou.

“Não é uma linha monolítica, como um gigante avassalador avançando”, disse a analista militar Dara Massicot, pesquisadora sênior do Carnegie Endowment for Peace. “Eles têm essas vantagens, mas o ambiente operacional na linha de frente é muito complicado para ambos os lados. Os russos ainda lutam para descobrir como fazer ataques grandes o suficiente para avançar sem ser interceptado pela artilharia ucraniana ou drones [com visão em primeira pessoa]”, disse ela, para quem as baixas russas são muito altas.

Publicidade

Neste vídeo divulgado pelo ministério da defesa russo em 10 de junho de 2025, prisioneiros de guerra russos aparecem enrolados em bandeiras do país antes de troca de prisioneiros em Belarus  Foto: Ministério da Defesa Russo/AFP

Um proeminente blogueiro pró-Kremlin, Yuri Podoliaka, escreveu que as forças ucranianas conseguiram estabilizar a defesa de Sumi — uma das principais linhas de ataque da Rússia nas últimas semanas.

“Sem reforços significativos aqui, ou a retirada das unidades inimigas para outra parte da frente, não seremos capazes de empurrar a defesa das Forças Armadas da Ucrânia de volta para a linha da cidade”, escreveu ele.

O comandante-chefe ucraniano, general Oleksandr Sirski, confirmou na quinta-feira que o ataque russo a Sumi havia sido interrompido.

Em 31 de janeiro, Podoliaka desencadeou três investigações militares russas quando publicou imagens de um soldado russo ferido — encostado a uma árvore em um bosque nevado — levantando uma arma e atirando na própria cabeça depois de ter sido enviado para conquistar Novoiehorivka, na região de Kharkiv. Em 24 de janeiro, o Ministério da Defesa disse falsamente que a cidade havia sido capturada.

Publicidade

Os feridos “atiraram em si mesmos ao perceber que ninguém os levaria e eles congelariam de qualquer maneira”, escreveu ele. Apesar da “estupidez criminosa” da ordem militar, “eles vão e morrem”. O comandante, escreveu ele mais tarde, foi promovido.

Os blogueiros reclamam que relatos falsos de aldeias sendo tomadas significam que, quando as unidades se movem para conquistá-las, não recebem apoio aéreo ou de artilharia porque isso é considerado desnecessário.

Em meados de junho, blogueiros militares relataram que o comando militar havia reivindicado falsamente a aldeia de Komar, na região de Donetsk. “Mais uma vez uma mentira, e mais uma vez por causa de mentiras soldados russos comuns morrerão”, protestou o blogueiro militar Roman Alyokhin em 14 de junho, reclamando que as unidades russas mais eficazes estavam sendo “levadas a corrigir as mentiras e os erros de generais mentirosos”.

O ministro da Defesa, Andrei Belousov, ordenou uma rara investigação interna em setembro, depois que dois operadores de drones russos, Dmitry Lisakovski e Sergei Gritsai, do 87º Regimento de Infantaria, foram mortos em uma operação ucraniana. Em um vídeo deixado antes de morrerem, eles alegaram que seu comandante, Igor Puzik, estava lucrando com bens apreendidos na guerra e com venda de drogas no regimento, e havia mentido sobre a tomada da vila de Lisivka, em Donetsk.

Publicidade

“Esta situação não é única. Existe em toda a frente. Mentiras são a norma absoluta”, disse Lisakovski, suado e ansioso no vídeo enquanto caminhava em um bosque, alegando que Puzik e seus comparsas queriam que ele e Gritsai morressem para impedi-los de denunciar a corrupção.

“Estou gravando este vídeo porque há uma probabilidade muito alta de eu não voltar deste ataque”, disse Lisakovski. “A principal tarefa que temos agora é sobreviver, e a deles é garantir que não sobrevivamos”.

O caso viralizou e se tornou símbolo dos males do exército russo, com o vídeo sendo visto milhões de vezes. Dezenas de vídeos surgiram em canais de mídia independentes no Telegram, divulgando reclamações de soldados de que homens feridos foram enviados de volta à guerra sem condições de lutar.

Suleiman Borshchigov, do 353º Regimento de Infantaria, gravou um vídeo, publicado em 16 de junho, no qual alegou que um grupo que incluía “até mesmo pessoas sem um braço ou uma perna” foi forçado pelos militares a lutar. “Fomos todos registrados como totalmente aptos. Eles nos jogaram no esquadrão de assalto e agora estão nos enviando para a morte”, disse ele.

Publicidade

Alguns blogueiros militares russos dizem que não pode haver avanço significativo sem uma nova convocação militar — algo que o governo tem evitado em grande parte por razões políticas — ou forças norte-coreanas adicionais. Mais de 10.000 soldados norte-coreanos ajudaram a expulsar as forças ucranianas do oeste da Rússia em março.

Apesar das condições terríveis para os soldados, o recrutamento russo aumenta, resultado dos altos salários e dos enormes bônus de inscrição de mais de 3 milhões de rublos, mais de US$ 38.000.

“Eu compararia isso a ganhar na loteria”, disse Matveev. “A propaganda do governo continua dizendo aos novos recrutas que as coisas estão indo bem. Aí, é claro, os novos soldados pensam: ‘Eu vou ficar bem’”.