Foto: Felipe Frazão/EstadãoBRASÍLIA - O secretário de Estado de Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, afirmou em entrevista ao Estadão que declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva favoráveis à Rússia são “surpreendentes”.
Autoridade do Ministério de Negócios Estrangeiros de Portugal, Sousa considera que uma democracia como o Brasil deveria ter clareza sobre a agressão sofrida pela Ucrânia e vê o “imperialismo russo” como ameaça na Europa.
O político governista do PSD negou que o pacote anti-imigração do atual governo tenha influência do Chega, o partido radical que cresce ano a ano no país, liderado pelo deputado André Ventura.
Segundo Sousa, o governo do primeiro-ministro Luís Montenegro não se aliou aos radicais, apesar da circunstância de apoio na pauta de controle de imigrantes, que atinge diretamente brasileiros, e da ameaça de ruptura expressa pelo Partido Socialista, oposição.
O vice-chanceler afirmou que o país recebeu uma “avalanche” de imigrantes e indicou que o governo Montenegro pode ter que ceder em parte do pacote anti-imigração, na proposta a ser votada em setembro que restringe a obtenção de nacionalidade portuguesa.
Ele avalia que a ultradireita não venceria as eleições presidenciais de janeiro de 2026 e vê moderados como favoritos em Portugal, mas pondera que a centro-direita deve buscar entender demandas do eleitorado que votou no Chega.
Leia trechos da entrevista concedida na Residência de Portugal em Brasília.

O primeiro-ministro disse que Portugal não terá um caminho linear para atingir um orçamento acordado na OTAN, por demanda do presidente americano Donald Trump, de 5% do produto interno bruto (PIB) para defesa. Portugal vai conseguir atingir?
Portugal tem esse objetivo até 2035. Penso que a Europa definitivamente tem que tomar consciência que tem mesmo que investir em defesa. Nós temos uma guerra na Europa neste momento. A guerra crítica com a invasão da Ucrânia e a Rússia.
O imperialismo da Rússia nunca vai parar se não tiver forças dissuasoras do nosso lado. A Europa está a acordar para essa realidade. Ainda precisa de alguns anos para ter um bom sistema de defesa. Vivemos muitos anos à sombra do investimento dos Estados Unidos, é verdade. Os Estados Unidos acabavam por ser a polícia do mundo e nós descuidamos um bocadinho desta nossa necessidade.
Investimento em defesa não é apenas em armas, tanques, aviões. Há um investimento científico muito importante, em pesquisa, em tecnologias de defesa.
Mas eu acho que a Europa tem que ter esse esforço, investir na defesa sob pena de mais dia ou menos dia também sermos agredidos. A melhor forma de dissuadir é estarmos preparados para nos denfender.

O presidente Lula foi recentemente à Cúpula do G-7 e fez uma manifestação em sentido inverso ao do grupo. Visitou a Rússia, visitou China, na cúpula do Brics também demonstrou apoio à Rússia e ao Irã. Como estão sendo percebidas em Portugal essas posições do presidente brasileiro?
São surpreendentes. Haverá as suas razões para o presidente Lula as ter, mas são surpreendentes porque estamos num País com Estado de direito, uma democracia, com separação de poderes. Claramente o país invadido é a Ucrânia. Ninguém tem dúvidas disso.
O senhor vê alguma mudança em face do tarifaço com relação ao acordo comercial do Mercosul com a União Europeia, que precisa passar pelo Conselho Europeu e pelo Parlamento Europeu? A França segue fazendo lobby contra.
Um dos objetivos da política europeia é precisamente a América Latina, o Mercosul. Perante este novo quadro internacional de tarifas de comércio há todo o interesse de nos entendermos, quer a Europa com o Mercosul, com o Brasil principalmente.
É um caminho difícil porque o protecionismo cada vez procura proteger os seus interesses, as suas indústrias, a sua agricultura. A França faz, com certeza. Mas quanto mais acordos nós conseguimos no sentido do livre comércio melhor. Temos de abrir novos mercados. É um caminho que vai ser duro, mas tenho a certeza de que a Europa vai trilhar.
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O governo Montenegro hoje não tem maioria absoluta, depende de alianças para votações. O líder do Partido Socialista (PS), José Luís Carneiro, disse que o premiê Montenegro deverá decidir com quem negociar, que poderá haver uma ruptura após essa votação da lei de estrangeiros apoiada pela direita radical do Chega. Isso vai gerar mais estabilidade política para Portugal, às vésperas de uma eleição presidencial?
Essas afirmações do líder da oposição fazem parte do combate político. O primeiro-ministro disse desde a primeira hora que não iria ter nenhuma aliança com ninguém, que a única aliança que tinha era com as pessoas.
Usou até uma expressão “não é não”, para um acordo de governo com o Chega.
O “não é não” para a extrema direita continua.
Mas essa a votação da lei de estrangeiros não mostrou uma aliança com eles?
Não. Da mesma forma que o Chega quer dizer que nós estamos aliados ao Partido Socialista. Nós neste momento estamos no meio, somos centro-direita. Não temos maioria absoluta. Sozinhos temos mais votos que toda a esquerda e sozinhos temos mais votos que toda a direita. Somos o ponto de equilíbrio. Governar com ideologia, hoje, seja ela de extrema direita ou de extrema-esquerda, é muito redutor.
A gente está vendo um estreitamento do campo do centro no mundo. O André Ventura chegou em terceiro lugar na eleição presidencial passada. Agora o Chega elegeu 60 deputados, sendo a segunda força na Assembleia. Até quando Portugal vai resistir?
O PSD vai resistir, vai ganhar e vai aumentar a votação. Porque vai haver um momento que o eleitor vai perceber que é no centro que está o futuro, a paz e o progresso. Quando um país tem metade do país de um lado e o outro metade do outro, a consequência é guerra. E nós conseguimos pontos consensuais.
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Mesmo na eleição presidencial de janeiro de 2026?
A eleição presidencial é sempre unipessoal, mas mesmo numa eleição presidencial em Portugal, o candidato moderado ganha sempre. André Ventura já não será candidato, mas perderia. Tenho a certeza absoluta. Porque há um excesso de valorização do Ventura, ele tem tido uma expressão significativa. Tem que ser considerado. O eleitor vota no Chega, tem que ser respeitado, é um eleitor, mas ele tem 23%. Há 77% de eleitores que não votaram no Chega. E nós representamos esses, não diria 77%, mas talvez mais de 60%.
O Chega não terá um candidato?
Penso que André Ventura não será. O Chega é muito a figura de um homem. Um homem inteligente, que tem uma grande capacidade de comunicação, faz redes sociais como ninguém. Tem uma linguagem que muitas vezes agrada ao cidadão comum, um bocadinho aquela linguagem “eu vou partir tudo, eu vou fazer tudo” e quando se chega ao poder, percebemos que a realidade é diferente. O próprio Partido Socialista penso que vai apoiar o António José Seguro, não tem outra hipótese. Também é um candidato muito moderado, de centro.
Como então deve ser interpretada uma recente declaração do primeiro-ministro Montenegro dizendo que o Chega seria uma “alternativa futura de governo”?
Eu não vi. No governo anterior, quando estávamos muito fragilizados, tínhamos uma maioria escassa, era tentador fazer uma aliança com o Chega. Naquela altura, o primeiro-ministro, já na campanha eleitoral, disse “não é não” e cumpriu até o final. Agora, o Chega tem que ser levado em conta. Tem 23% de votos. E temos que perceber o que o eleitor viu no Chega, respeitar esse eleitor. São 1,4 milhão de portugueses que acreditaram no Chega. Nós temos que perceber e temos que contar com eles. Não há aqui nenhum tabu. São portugueses como nós, votaram em consciência e livremente. E a democracia é mesmo assim. Agora, se votaram, por que votaram? Então, nós temos que perceber e termos políticas para responder a essa ambição.
Essas mudanças legais no pacote de imigração já são influência do eleitorado do Chega?
Não. Isso não é verdade. Já trabalhávamos este pacote de imigração muito antes das últimas eleições. É um problema social concreto e temos de resolver sem fechar portas.







