MAGA Comunismo: como um influenciador virou estrela do trumpismo e da Rússia
Com 3,5 mi de seguidores, Jackson Hinkle se diz um 'marxista-leninista conservador americano'. Crédito: Bárbara Pereira/Estadão
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“Estamos nos reunindo em águas turbulentas – até mesmo desconhecidas”, disse a repórteres na semana passada o secretário-geral da ONU, António Guterres. “Divisões geopolíticas se ampliando. Conflitos em fúria. Impunidade escalando. Nosso planeta superaquecendo e a cooperação internacional sob pressões não vistas em nossas vidas”.
A 80ª Assembleia-Geral da ONU começará nesta semana com desafios inéditos em uma história repleta de percalços e crises. Das primeiras missões para intermediar a criação do Estado de Israel e a partilha da Palestina, em 1947, à crise dos mísseis, em Cuba, em 1962. Do genocídio em Ruanda e a guerra do Kosovo, nos anos 1990, à invasão do Iraque pelos EUA em 2003, foram muitos os momentos de quase ruptura. Mas nenhuma crise é tão acentuada quanto a atual.
A maior ameaça ao futuro da instituição é justamente Donald Trump, o Estados Unidos, país que historicamente é o principal mantenedor e patrocinador da ONU. Trump volta ao palco da Assembleia-Geral em Nova York nesta semana pela primeira vez desde que assumiu seu segundo mandato, e agora mais fortalecido pela extensão de sua vitória eleitoral. Um retorno em meio a um momento histórico de instabilidade, com a longeva crise do multilateralismo intensificada pela própria agenda política trumpista.

A ONU há muito é um alvo favorito dos republicanos. Apesar de sediar a ONU em Nova York e ser historicamente o seu maior financiador, Washington passou a reduzir de forma drástica o apoio à instituição.
Ao esvaziar e desmantelar essas instituições internacionais, especialistas ouvidos pelo Estadão explicam que Trump desafia a ordem mundial e as regras da instituição que a estabeleceu há 80 anos.
Quando da sua criação, em 1945, após o fim da 2ª Guerra Mundial, a ONU surgiu como organização internacional universal. E esse papel “é importantíssimo no mundo como atual”, explica o professor Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “No sistema internacional há três grandes potências: os Estados Unidos, a China e a Rússia. E o único lugar onde as três podem sentar para conversar e trabalham juntas, é no Conselho de Segurança das Nações Unidas”, ele afirma.
Spektor avalia que Donald Trump atua como um fator de enorme aceleração no processo de desgaste das instituições e normas internacionais que organizaram o mundo nas últimas oito décadas.
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“As Nações Unidas enfrentam um enorme desafio no governo Trump devido ao corte drástico do orçamento da organização. Trump é um fator de enorme aceleração do processo de esgarçamento do conjunto de instituições e normas internacionais, ou seja, regras do direito internacional, que organizaram o mundo durante esses últimos 80 anos”, explica a professor.
Desde que voltou à Casa Branca, Trump estabeleceu mudanças significativas na atuação dos Estados Unidos nas Nações Unidas. Entre elas estão a retirada dos EUA do Conselho de Direitos Humanos, o congelamento de verbas para diferentes agências e uma revisão ampla do papel americano dentro do órgão. Trump também anunciou a saída da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Unesco.
Para Trump e seus aliados, os EUA podem exercer sua influência global fora da ONU e de suas muitas instituições, e criticam o fato de a ONU parecer incapaz de lidar com crises e estar cada vez mais hostil a Israel. O porta-voz da Casa Branca, Davis Ingle, disse que Trump “vai apresentar sua visão de uma América e um mundo seguros, prósperos e pacíficos” na Assembleia-Geral. “Sob a liderança do presidente Trump, nosso país está forte novamente, o que tornou o mundo inteiro mais estável,” ele acrescentou.
“A abordagem do governo Trump em relação à ONU tem sido destrutiva e, às vezes, vingativa,” disse ao The Wall Street Journal Richard Gowan, pesquisador de ONU no no International Crisis Group, um think tank. “O trumpismo parece imune a preocupações sobre danos à reputação dos EUA”.

Trump sempre descreveu a ONU como tendo “grande potencial”, mas diz que ela precisa se organizar. Ele manteve a mesma postura cautelosa sobre o multilateralismo que foi um marco de seu primeiro mandato de 2017 a 2021 e também acusou o órgão mundial de falhar em ajudá-lo a tentar intermediar a paz em vários conflitos.
A escassez de recursos já afeta o trabalho de áreas sensíveis. Volker Türk, alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, disse ao New York Times que será necessário interromper investigações sobre crimes de guerra e reduzir a fiscalização de monitores contra a tortura em todo o mundo.
Embora a Casa Branca ainda não tenha anunciado os resultados da revisão estabelecida pelo governo Trump, os EUA recuperaram US$ 1 bilhão em financiamento para a ONU e informaram a intenção de cortar mais US$ 1 bilhão, agravando o déficit de recursos das Nações Unidas.
Além disso, um documento obtido pelo The New York Times reporta que altos funcionários da ONU propuseram amplos cortes de financiamento, inclusive para programas de direitos humanos.
Elefantes na sala
Para muitos analistas, o descaso do governo Trump tem sido especialmente prejudicial em um momento de tensões internacionais acirradas e conflitos sangrentos em Gaza e na Ucrânia. Justamente os dois conflitos que devem pautar a próxima Assembleia-Geral.
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Em um sinal marcante da diminuição da influência dos EUA, França, Reino Unido, Canadá e Austrália planejam anunciar conjuntamente na segunda-feira, na abertura anual da Assembleia-Geral que estão reconhecendo um estado palestino desafiando os desejos de Trump e de Israel, o aliado mais próximo dos EUA no Oriente Médio.
O governo Trump se opõe à criação de um Estado palestino e diz que o movimento pode prejudicar as chances de uma solução de dois Estados, dizem altos oficiais da administração, fortalecendo o Hamas e talvez encorajando Israel a anexar partes da Cisjordânia. “A Palestina vai ser o enorme elefante nesta sessão da Assembleia-Geral,” disse o enviado palestino à ONU, Riyad Mansour.
Sobre a guerra de mais de três anos da Rússia na Ucrânia, espera-se ainda menos progresso. O presidente ucraniano, Volodmir Zelenski e o ministro das relações exteriores russo, Sergei Lavrov, estarão no evento. O presidente russo, Vladimir Putin, tradicionalmente não comparece à reunião anual da ONU.
O Conselho de Segurança da ONU, composto por 15 membros, encarregado de manter a paz e segurança internacionais, deve terr reuniões sobre Ucrânia e Gaza durante a sessão, mas poucos acreditam em qualquer avanço. Os EUA se aliaram várias vezes com a Rússia no Conselho de Segurança, incluindo em fevereiro, quando os dois antigos adversários se uniram na rejeição de uma resolução da Ucrânia condenando a invasão de Moscou.
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Trump acelera a crise do multilateralismo
Apesar do momento de quase ruptura da ordem internacional, a crise do multilateralismo é anterior a Trump. Há pelo menos duas décadas se discute, por exemplo, a necessidade de reformar o Conselho de Segurança da ONU, cuja composição deixou de refletir a ordem internacional contemporânea.
Contudo, o historiador Filipe Figueiredo, colunista do Estadão, destaca que, sob a presidência do republicano, a ONU enfrenta uma crise financeira inédita, e diversas relações diplomáticas passam por incertezas e turbulências após se manterem estáveis por décadas.
“Quando a ONU fez 50 anos, era um momento de otimismo, de reformas e expansão dos temas. Hoje, 30 anos depois, aquela oportunidade foi perdida e agora as reformas ficam em segundo plano devido às crises e guerras que ocorrem no mundo”, afirma Figueiredo.
A consequência da agenda do presidente americano com as Nações Unidas, pode ainda ter levado ao fortalecimento de instituições alternativas e mais restritas, voltadas a grupos regionais ou blocos específicos, como o Brics, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura ou mesmo a União Europeia.
Os especialistas avaliam que essas iniciativas não partem da ideia de uma ordem internacional universal, princípio que sustentou a criação da ONU. Pedro Brites, professor da FGV, destaca que os países do chamado sul global ainda veem um valor simbólico importante nas instituições multilaterais e podem correr o risco de perder relevância caso não consigam se adaptar às novas configurações de poder.
“Para as médias potências ou os países pequenos, os fóruns multilaterais acabam servindo como esse espaço de projeção das suas políticas externas. Com o esvaziamento dessas instituições, esse espaço de atuação fica mais limitado”, afirma.
“Então é um momento muito crítico de transformação de uma política baseada no poder, que prejudica países como o Brasil, ou outros tantos atores, que acabam dependendo muito mais da diplomacia para atuar do que pela política da força”.
*A crise dos mísseis em Cuba ocorreu em 1962 e não em 1961. O erro foi corrigido








