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Uma nova e improvável ameaça à estabilidade do Haiti: um grupo ambiental armado

País, que enfrenta crise política e de segurança, assistiu nesta semana uma brigada ambiental armada aliada a um antigo líder golpista começar a exigir a destituição do primeiro-ministro

Por Frances Robles

THE NEW YORK TIMES — No Haiti, com o aumento do número de assassinatos e sequestros, até mesmo a polícia está fugindo. Sem um presidente eleito no cargo e com um primeiro-ministro amplamente visto como ilegítimo, os apelos para a saída do governo estão agora sendo ouvidos de uma fonte improvável: uma brigada de oficiais armados aparentemente responsáveis pela proteção de áreas ambientalmente sensíveis.

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Membros uniformizados e armados da brigada entraram em confronto com as forças do governo no norte do Haiti nesta semana, aumentando as tensões em um país já volátil, onde as gangues assumiram o controle de grandes áreas da capital, Porto Príncipe, e estão causando estragos nas áreas rurais.

O grupo ambientalista, a Brigada de Segurança de Áreas Protegidas (conhecida como B-SAP), ficou furioso depois que o primeiro-ministro demitiu seu líder. Na quarta-feira, 24, os oficiais do grupo tentaram invadir o escritório da alfândega local, e as unidades da Polícia Nacional do Haiti os repeliram usando gás lacrimogêneo.

Igualmente preocupante para os analistas é a lealdade que alguns dos líderes do grupo declararam publicamente a Guy Philippe, um ex-comandante da polícia e conspirador golpista que recentemente voltou ao Haiti depois de cumprir seis anos numa prisão federal dos Estados Unidos.

Haitianos estão decepcionados com a incapacidade da Polícia Nacional de enfrentar as gangues, o que pode aumentar desejo de destituição de Ariel Henry. Na foto, polícia patrulhando ruas de PŽtionville. Foto: Adriana Zehbrauskas/The New York Times

Nos menos de 60 dias desde que voltou para casa, Philippe esteve viajando pelo país, reforçando apoio ao que ele chama de revolução. “Estamos falando de uma revolução, mas não uma revolução de sangue”, disse em entrevista. “Nós não matamos ninguém. É tudo sobre manifestações pacíficas.”

Philippe foi um dos líderes do golpe de Estado de 2004 que derrubou o presidente Jean-Bertrand Aristide. Procurado durante anos pelos Estados Unidos por tráfico de drogas, Philippe viveu livremente no sul do Haiti como fugitivo.

Ele foi preso em 2017, pouco antes de assumir o cargo de senador eleito, condenado no tribunal federal dos EUA a nove anos de prisão por lavagem de dinheiro e foi deportado para o Haiti em novembro, o que muitos especialistas consideraram um movimento surpreendente destinado a inflamar um cenário político conturbado.

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“Este é um cara que tem manobrado e conspirado durante 20 anos para tomar o poder no Haiti”, disse James Foley, que foi embaixador dos EUA no Haiti durante o golpe de 2004. “Nós o indiciamos, extraditamos e marginalizamos, e agora o mandamos de volta para um Haiti que está em total anarquia, e o resultado é óbvio, previsível e horrível.”

Philippe, que estava vivendo em casa em Pestel, Haiti, desde que voltou, disse que ele planejava ir a Porto Príncipe nos próximos dias para organizar protestos e esperava que a vasta maioria da população fosse apoiá-lo na exigência da demissão do primeiro-ministro, Ariel Henry.

Como muitos haitianos estão decepcionados com a incapacidade da Polícia Nacional de enfrentar as gangues, Phillippe pode estar certo, avaliam analistas.

“Se fosse um golpe, seria legítimo, mas não estamos fazendo nenhum golpe”, disse Philippe. “Não estamos aqui para tomar o poder pela força.”

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Em um comunicado na quinta-feira, o primeiro-ministro disse estar alarmado com as ações inapropriadas de muitos membros do B-SAP, que ele observou não ter nenhuma estrutura legal ou administrativa. A cobertura jornalística dos policiais rebeldes poderia criar confusão sobre o trabalho legítimo do grupo de vigilância ambiental, afirmou. Na terça-feira, acrescentou que o governo criou uma comissão para revisar o trabalho da agência.

Quanto a Philippe, o gabinete do primeiro-ministro disse: “Ariel Henry é responsável pela aplicação da lei”.

Os Estados Unidos pressionaram fortemente por uma missão de segurança planejada ao Haiti liderada pelo Quênia, o que alguns analistas consideram um apoio tácito à liderança de Henry.

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Mil policiais quenianos estão programados para ir ao Haiti para ajudar a quebrar o controle do as gangues armadas que comandam a maior parte da capital, Porto Príncipe. Foto: Pete Muller/The New York Times

Philippe disse que “tem amigos” no grupo ambientalista do norte, uma aliança que pode ser perigosa. O Haiti, que já abrigou uma força policial secreta conhecida como tonton macoutes, tem uma longa história de milícias que cometem atrocidades. Philippe disse que ele considerava o líder da brigada ambientalista “um aliado”, com o mesmo objetivo de fazer com que o primeiro-ministro renuncie.

Segundo um jornal local, Phillippe e a brigada estão coordenando esforços destinados a se opor ao atual governo.

“B-SAP não é o braço armado da oposição”, disse Jeantel Joseph, que foi demitido nesta semana como chefe da agência e liderou os protestos do grupo nesta semana.

Joseph disse que ele e Philippe pertencem a um consórcio maior de partidos políticos, sindicatos e organizações de base comprometidas em encerrar o mandato de Henry — pacificamente, acrescentou. Com os seus dois movimentos – Joseph no norte e Philippe no sul — o primeiro-ministro terá de recuar, disse ele.

Ele afirmou que a brigada ambiental que liderava não representava uma ameaça e simplesmente fornecia segurança para manifestações. “Nunca houve qualquer questão de tomar o poder pela força das armas”, disse Joseph.

Crise de segurança assombra país

A situação do Haiti não poderia estar mais terrível. De uma força de cerca de 15 mil agentes, quase 3 mil abandonaram os seus postos nos últimos dois anos, segundo dados da polícia.

A ONU relatou esta semana que mais de 4,7 mil pessoas foram mortas no Haiti no último ano — mais do que o dobro de 2022 — e quase 2,5 mil foram sequestradas. Um grupo de freiras locais ficou detido por quase uma semana, antes de ser libertado na quarta-feira, 24. Mais de 150 mil pessoas fugiram para os Estados Unidos no ano passado.

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A segurança piorou depois do assassinato do presidente Jovenel Moïse em 2021. Não tem sido seguro o suficiente realizar eleições, e o primeiro-ministro nomeado, Henry, pediu por intervenção internacional.

A ONU relatou esta semana que mais de 4,7 mil pessoas foram mortas no Haiti no último ano — mais do que o dobro de 2022 — e quase 2,5 mil foram sequestradas. Foto: Ruth Fremson/The New York Times

Em outubro, a ONU aprovou uma missão de segurança multinacional liderada pelo Quênia, mas ela foi adiada por decisões judiciais nacionais. O Quênia prometeu pelo menos mil agentes de segurança e espera-se que vários outros países ofereçam recursos. A implantação foi atrasada devido a objecções sobre se o governo queniano seguiu os protocolos adequados para autorizar a missão.

Philippe denunciou publicamente a missão do Quênia, dizendo que apoiaria a administração de Henry e apoiaria o “imperialismo”. Philippe divulgou um vídeo chamando os quenianos de “irmãos africanos”, mas avisando que se aceitassem o destacamento, seriam vistos como “inimigos”.

O grupo B-SAP deveria trabalhar para proteger áreas ambientalmente sensíveis, mas muitas vezes opera de forma independente e longe dessas regiões, afirmou um relatório recente das Nações Unidas, questionando o alcance da missão do grupo.

O grupo foi iniciado em 2018, sob o comando de Moïse, com 100 pessoas, embora o governo de Henry pareça ter pouco controle sobre suas ações ou noção de quantos membros possui.

Na terça-feira, Henry demitiu o responsável pela agência que administra o B-SAP, o que irritou os membros do grupo. Vídeos compartilhados nas redes sociais mostraram centenas deles gritando nas ruas de Ouanaminthe, no nordeste do Haiti, exigindo o regresso do seu chefe e a destituição do premiê.

No Nordeste, próximo à fronteira com a República Dominicana, agentes do B-SAP dispararam para o ar e ordenaram que os cidadãos voltassem para casa.

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B-SAP tem sido acusado de participação em crimes, disse Gédéon Jean, chefe do Centro de Análise e Pesquisa em Direitos Humanos, uma organização haitiana que suspendeu as operações em novembro devido ao aumento dos níveis de violência.

O risco é ainda mais sério se o grupo se aliar a gangues locais, disse ele. “O que você tem é uma figura muito perturbadora nessa região”, disse Robert Muggah, que liderou um estudo sobre os sindicatos criminosos do Haiti para as Nações Unidas, referindo-se a Philippe.

Ainda não é claro se Philippe pretende concorrer para o cargo — ou tentar liderar uma revolta, assumindo o controle mobilizando ex-militares e atuais e ex-policiais que o apoiam, disse Muggah. “Eu acredito que todo mundo espera que ele tenha ambições presidenciais, mas o caminho para a presidência ainda não está claro para ele.”

Philippe está operando em um vácuo de poder onde ninguém enfrentou o primeiro-ministro porque é impotente ou está lucrando com a disfunção, disse Nicole Phillips, uma advogada da Califórnia que acompanha de perto a política e os direitos humanos haitianos. “Philippe”, disse ela, “tem tudo a ver com poder”.

Philippe insistiu que “deixaria o povo decidir” quem deveria assumir a presidência do Haiti. Ele culpou os Estados Unidos por apoiarem Henry e disse que o objetivo era acabar com as gangues, a fome e a pobreza.

“Estamos lutando por um Haiti melhor”, disse ele. “Nós estamos cansados. Todo mundo está cansado.”

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