Universidade do Texas manda professor não ensinar trechos de Platão por ‘ideologia de gênero’

Instituições de ensino do Estado americano buscam se adequar a novas diretrizes de ensino, gerando incertezas entre professores e alunos

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Por Alan Blinder (The New York Times)
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O professor de filosofia Martin Peterson, da Universidade Texas A&M, ficou chocado quando foi advertido a retirar trechos da obra de Platão de seu plano de aulas. Segundo o e-mail de seu chefe de departamento, era uma forma de sua disciplina cumprir as novas diretrizes de educação que limitam a discussão sobre raça e gênero.

Dias antes do início do semestre, uma das maiores universidades públicas dos Estados Unidos está correndo para interpretar e aplicar as regras do novo sistema de ensino. Alguns professores estão reformulando seus planos de aula, enquanto outros não têm certeza se poderão ministrar determinadas discussões. Seções de cursos estão sendo canceladas ou potencialmente reclassificadas, ameaçando os horários dos alunos.

A Texas A&M é uma das maiores universidades do Estado e está envolta em polêmica por associação entre Platão e 'ideologia de gênero' Foto: Go Nakamura/The New York Times

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Os professores estão preocupados com a perda da liberdade acadêmica que tanto valorizam. “Um professor de filosofia que não tem permissão para ensinar Platão?”, disse o professor Peterson em entrevista ao Times. “Que tipo de universidade é essa? É isso mesmo que eles querem?”.

“Como podemos ensinar filosofia sem ter permissão para discutir Platão, mesmo que algumas das ideias de Platão sejam um pouco controvertidas?”, completou o docente.

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Em nota, a Universidade Texas A&M disse que “ensinaria vários diálogos de Platão em uma variedade de cursos neste semestre e continuaria a fazê-lo no futuro”. Ainda segundo a instituição, outros cursos “incluirão obras de Platão, mas não módulos sobre ideologia de raça e gênero”.

Nos últimos meses, cedendo às críticas conservadoras do parlamento do Texas, os reitores do sistema de ensino superior do Estado endossaram os novos limites ao ensino acadêmico. De acordo com as diretrizes aprovadas no final do ano passado, os cursos não podem “defender ideologias de raça ou gênero, ou tópicos relacionados à orientação sexual ou identidade de gênero”. Em alguns caso , após “demonstração de um propósito educacional necessário”, cursos de pós-graduação e de graduação “não essenciais” estão autorizados a ensinar sobre esses tópicos.

As universidades em todo o país costumam dizer que as aulas não podem ser usadas para fins políticos. Mas a pressão dos regentes da Universidade Texas A&M reflete um debate acalorado no Estado conservador mais populoso do país.

Republicanos eleitos para o governo local — muitas vezes ecoando as queixas do governo Trump sobre o ensino superior americano — alegam que as universidades estavam se desviando do ensino acadêmico e se voltando para o “proselitismo progressista”. Esse proselitismo, segundo os conservadores, estaria evidenciado por discussões sobre diversidade, equidade e inclusão.

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Brian Harrison, deputado estadual republicano e ex-aluno da Texas A&M que liderou a campanha de pressão em Austin, capital do Estado, disse que era “enganoso e falso” os professores sugerirem que a obra de Platão estava banida. Ele acrescentou que as objeções dos críticos eram esforços “desonestos, falsos e cínicos” para “exagerar quaisquer questões reais ou percebidas”.

Fachada da entrada da Universidade do Texas, A&M  Foto: Katherine Welles/Adobe Stock

“O que estamos vendo aqui é apenas mais uma evidência de que os internos estão comandando os manicômios nas universidades públicas do Texas há muito tempo”, disse Harrison.

Desde novembro de 2024, a Texas A&M encerrou sua especialização em estudos LGBT e viu o cargo de seu reitor ameaçado pelo governador por causa de uma conferência sobre diversidade. Em setembro passado, um professor foi demitido após uma aula controversa sobre literatura infantil. O caso levou o reitor a renunciar. Agora, professores de várias disciplinas estão tentando decifrar o que poderão ensinar quando as aulas forem retomadas na próxima semana.

Não ficou claro quantos professores, cursos ou alunos podem ser afetados. As aulas em grandes universidades como a Texas A&M, que tem dezenas de milhares de alunos matriculados, costumam ter dezenas ou centenas de discentes por turma.

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Segundo o programa da Universidade, o curso que o professor Peterson planejava ministrar — Filosofia e Questões Morais Contemporâneas — examinaria “posições éticas representativas e sua aplicação a problemas sociais contemporâneos”.

O programa original do professor Peterson previa módulos focados em debates sobre aborto, pena capital, justiça econômica e ideologia de raça e gênero, entre outros tópicos. Quando o professor Peterson, que está na Texas A&M desde 2014, enviou seu programa para revisão no mês passado, ele disse ao chefe de seu departamento que “não pretendia defender nenhuma ideologia”. “Eu ensino aos alunos como estruturar e avaliar argumentos comumente levantados em discussões sobre questões morais contemporâneas”, disse o professor no e-mail, obtido pelo The New York Times.

Na terça-feira, o professor Peterson recebeu uma resposta de Kristi Sweet, chefe do programa de filosofia. Ela escreveu que os funcionários da universidade haviam discutido seu programa de estudos e as novas políticas da A&M. A professora Sweet deu ao professor duas opções.

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O professor Peterson poderia “mitigar” o conteúdo do seu curso, removendo os módulos sobre ideologia racial e ideologia de gênero, bem como as leituras de Platão que possam incluir esses temas, ou então poderia ser transferido para um curso de Ética.

De acordo com o programa do curso, as leituras de Platão planejadas pelo professor Peterson incluíam passagens sobre a Escada do Amor e o mito de Aristófanes.

Muitos conservadores têm pressionado as universidades a dedicarem mais atenção à educação clássica e aos fundamentos do pensamento ocidental. Mas a confusão na Texas A&M sugere que mesmo os textos antigos não estão imunes às controvérsias modernas.

A professora Sweet disse na quarta-feira que não tinha comentários sobre as trocas com o professor Peterson. Em uma entrevista, o professor Peterson disse que, de forma relutante, alteraria o curso, substituiria os módulos contestados por “palestras sobre liberdade de expressão e liberdade acadêmica”.

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Mas ele estava irritado, disse ele, bem como incomodado com a sensação de que os alunos receberiam uma educação menos rigorosa e desafiadora em sua sala de aula.

A universidade afirmou que o professor Peterson acrescentou o trabalho de curso contestado depois que os regentes agiram no ano passado, mas o professor insistiu que não estava “tentando deliberadamente ser provocativo” quando incluiu os textos de Platão.

“Estou ciente de que muitos membros do Conselho de Reitores provavelmente discordam de Platão”, disse o professor Peterson. “Eles podem não estar cientes disso, porque não leram Platão — quem sabe? — mas ainda assim é uma perspectiva alternativa valiosa.”

“Não podemos ter apenas uma perspectiva na sala de aula. Então não há nada para discutir. Não há nada para aprender. É doutrinação. É educação ao estilo soviético”, acrescentou o docente.

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Dois outros professores da Texas A&M, que falaram sob condição de anonimato por temerem retaliação, disseram que não tinham planos de alterar seus programas de estudo e que não tinham certeza se teriam permissão para lecionar.

Em um e-mail enviado esta semana, os funcionários da A&M escreveram que estavam cancelando um curso de sociologia porque “concluíram que não podemos ministrar este curso em sua forma atual e cumprir” as políticas do sistema.

Essas políticas do sistema foram definidas no ano passado. Em uma reunião em novembro, Sam Torn, o regente que preside o Comitê de Assuntos Acadêmicos e Estudantis, argumentou que “ficou claro” que alguns cursos da Texas A&M se desviaram do currículo imaginado pelos líderes do sistema.