Explorando Gana por meio da arte contemporânea

Um mercado de arte globalizado chamou a atenção para artistas ganenses como Ibrahim Mahama. Numa viagem centrada nas artes ao país da África Ocidental, um escritor encontra uma cena próspera seguindo a sua própria agenda

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Por Grace Linden

No fim de 2022, recebi um convite para visitar Gana com um acompanhante a fim de pesquisar a obra do artista ganense Ibrahim Mahama, reconhecido pela sua participação na 56ª Bienal de Veneza em 2015. A missão era compreender o contexto do seu trabalho e também investigar o cenário em ascensão da arte contemporânea no país.

Kwadwo Peprah, 31, à esquerda, passou 2023 como artista residente na Fundação Noldor, em Accra. O diretor de Noldor, Johanes Francis Kuwornu, discute com ele uma das pinturas do artista. Foto: Francis Kokoroko/The New York Times

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Nas últimas décadas, o cenário artístico se expandiu para além das fronteiras europeias e norte-americanas, dando origem a um mercado mais globalizado. Recentemente, artistas ganenses como Mahama, El Anatsui e Amoako Boafo têm conquistado reconhecimento. Nós nos propusemos a investigar como essa crescente atenção tem impactado a cena da arte contemporânea em Gana.

Nossa intenção era passar a maior parte do tempo na capital, Accra, onde se concentram a maioria das galerias renomadas do país, e em seguida viajar ao Norte, com Kumasi como nosso primeiro destino. A cidade abriga a prestigiada Faculdade de Arte da Universidade de Ciência e Tecnologia Kwame Nkrumah (Knust) e é a antiga sede do Reino Axante. Tamale seria nosso segundo destino ao Norte, onde Mahama estabeleceu diversos espaços para acolher e expor a arte contemporânea.

Noldor patrocina anualmente artistas residentes, incluindo Sena Burgundy, 26, que recentemente trabalhou em seu estúdio em Accra. Foto: Francis Kokoroko/The New York Times

Um passeio pelas galerias de Accra

Escolhemos o Accra City Hotel como nossa base em Acra por ter piscina, por estar dentro do nosso orçamento e pela localização central. No entanto, logo percebemos que isso não existe em Acra. Não foi exatamente fácil navegar pela cidade, para não dizer impossível. O transporte público é inexistente e não fomos capazes de compreender os velozes micro-ônibus privados conhecidos como tro tros (fomos informados de que os acranianos “simplesmente sabem” para onde estão indo). Dado que na maioria dos dias a temperatura ultrapassou os 32ºC, recorremos ao Uber e aos táxis para nossa locomoção.

Na manhã do nosso primeiro dia, fomos de carro até a Fundação Nubuke, pequena instituição conhecida pelas exposições de obras de artistas ganenses. O táxi nos deixou diante de um longo portão que conduzia a edifícios baixos de concreto adornados com bandeiras Asafo, as vibrantes bandeiras regimentais do povo fante, grupo étnico ganense. O local exalava calor e vegetação. A exposição, intitulada “Como uma Memória da Noite”, exibia obras de Sika Amakye, jovem artista ganense que incorpora técnicas tradicionais de bordado transmitidas de mãe para filha. Suas esculturas, compostas por cortinas de miçangas de cores vivas e membros fabricados, estavam dispostas de maneira eloquente por todo o edifício brutalista.

Em seguida, fomos até a Residência Artística Noldor, que abriga vários artistas ao mesmo tempo. O prédio da Noldor, impressionante, abriga exposições e estúdios em plena atividade, onde os artistas foram generosos e nos permitiram interromper seu trabalho para conversar sobre arte.

Os alunos da Universidade de Ciência e Tecnologia Kwame Nkrumah, em Kumasi, são incentivados a usar toda a cidade como espaço para arte. O artista Musah Yussif, 26 anos, montou sua exposição dentro de um armazém abandonado. Foto: Francis Kokoroko/The New York Times

Encerramos nosso dia no Centro Dikan, a primeira galeria de fotografia do país, que apresentava uma exposição sobre a independência de Gana do domínio britânico em 1957. As paredes estavam adornadas com fotos em preto e branco dos protagonistas da revolução, entre eles Kwame Nkrumah, líder nacionalista ganense e posteriormente presidente, e com imagens de crianças sorridentes na idade escolar, soldados e recortes de jornais antigos. Embora o espaço seja compacto, a atmosfera tranquila permitia que as fotos históricas respirassem.

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Para quem é vegetariano, como nós, a alimentação em Gana não é das mais fáceis. Depois de nos enchermos de frutas e iogurte no café da manhã, as opções para o almoço se tornavam um pouco mais limitadas. Em alguns dias, optamos por wraps no Vida e Caffe, uma rede africana; em outros, exploramos o Purple Café em Osu, bairro movimentado a leste do nosso hotel. Em busca de refeições confiáveis, escolhemos jantar repetidamente no Restaurante Etíope Abyssinia, no Pomona e no Bistro 22, todos localizados em Labone, o epicentro da vida cotidiana dos expatriados em Accra.

Dedicamos alguns dias a explorar o passado de Accra. Com nossa guia, Salia Amara, da Yenko Ghana Tours, visitamos Jamestown, o centro histórico da cidade, e subimos até o Black Star Gate, monumento encomendado por Nkrumah para celebrar a independência de Gana. Exploramos os animados mercados de alimentos, o Centro W.E.B. DuBois de Cultura Pan-Africana e o Museu Nacional, aproveitando também momentos de relaxamento na piscina do hotel.

Caixões feitos sob encomenda em exposição na Erico Carpentry Shop em Accra. Os caixões são conhecidos como caixas de provérbios. Foto: Francis Kokoroko/The New York Times

Amara também nos levou à Carpintaria Erico, onde pudemos apreciar os abeduu adekai, caixões fantásticos feitos à mão, projetados para refletir os interesses do falecido. Lá, vimos caixões em formatos tão diversos como peixes cor-de-rosa, aviões reluzentes e pimentas chili. Destacava-se um táxi feito para um nova-iorquino, que inicialmente havia encomendado um caixão no formato do Museu Guggenheim – escolha que, todos concordamos, não seria particularmente confortável como local de descanso eterno. Eric Kpakpo Adotey, o artesão fabricante dos caixões, compartilhou conosco histórias fascinantes sobre seu processo de aprendizado. Essa arte, apesar de ser exportada, revela uma forte ligação com as raízes do país.

Kumasi, a segunda cidade de Gana

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Em uma tarde de terça-feira, o voo 108 da Africa World Airlines pousou sem atrasos no pequeno e imaculado aeroporto de Kumasi. A área de check-in consistia em apenas um balcão, e o depósito de bagagens se resumia a um único trilho de dois metros e meio.

Voamos para Kumasi para visitar o Departamento de Pintura e Escultura da Knust, em seu amplo campus no oeste da cidade, provavelmente a universidade mais arborizada que já vi. Esse departamento serve como centro para a blaxTARLINES, plataforma que reúne artistas, curadores e professores que, juntos, remodelaram radicalmente a abordagem do ensino e da concepção da arte na Knust e, consequentemente, em Gana.

Eric Kpakpo Adotey está entre suas criações na Erico Carpentry Shop. Foto: Francis Kokoroko/The New York Times

O nome é uma homenagem a Marcus Garvey, ativista e líder político que ajudou a estabelecer a Associação Universal para o Progresso Negro & as Comunidades Africanas, organização ativista pan-africana. Dentro da organização, Garvey fundou a empresa de navegação Black Star Line, que teve vida curta.

Embora Kumasi seja a segunda maior cidade de Gana, sua infraestrutura turística é limitada. Um motorista do nosso hotel nos encontrou no aeroporto e nos levou rapidamente ao Golden Bean, complexo de hotel com jardim tropical. Ficamos agradavelmente surpresos ao descobrir que o quarto duplo que tínhamos reservado incluía uma sala de estar, e a equipe se destacou pela simpatia, sendo uma das mais acolhedoras que encontramos no país. Diante das nossas necessidades alimentares e do calor, optamos por fazer a maioria das refeições no hotel, onde todos se esforçaram para garantir que estivéssemos bem alimentados. Foi no Golden Bean que nos deleitamos com o kelewele, prato de banana frita temperada servida com amendoim, proporcionando uma deliciosa combinação de sabores doces e picantes.

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Sob a liderança do prof. karî'kachä seid’ou, a Knust se consolidou como o principal departamento de arte do país, com mais de 500 alunos. O currículo os estimula a encontrar um local próprio em Kumasi ou nos arredores, como um matadouro ou uma oficina mecânica, para que sua arte se integre à cidade.

Versões em miniatura dos caixões também estão disponíveis. Foto: Francis Kokoroko/The New York Times

As exposições surgem de maneira espontânea, divulgadas nas redes sociais, no site do departamento e no Instagram da blaxTARLINE, embora a visita aos estúdios dos alunos por si só pareça uma exposição. Vimos as esculturas de casca de árvore pulverizada de Piloya Irene, as cortinas pintadas de Dennis Addo e os tecidos de Gideon Hanyame, confeccionados com redes de filtro de água. Havia pessoas entrando e saindo dos estúdios uns dos outros, conversando e ajudando a mostrar trabalhos em vários estágios de conclusão.

Sem querer negligenciar a rica história cultural de Kumasi, que serve como a capital do Império Axante desde o século XVII, fomos guiados pelo professor sênior da Knust, Kwaku Boafo Kissiedu, em uma visita aos tecelões de Kente, na cidade vizinha de Bonwire. Os tecidos kente têm uma história de uso pela realeza, mas hoje são emblemáticos de celebrações e ocasiões especiais, cada padronagem carregando um significado único. Homens habilidosos trabalham nos teares em uma velocidade quase incompreensível, e dos edifícios de Bonwire pendem tecidos em uma variedade caleidoscópica de cores.

O artista Isaac Ato Jackson, 29 anos, trabalha em seu estúdio MFA na KNUST. Foto: Francis Kokoroko/The New York Times

Tamale, lar de Ibrahim Mahama

Embora tenha uma população de mais de 300 mil habitantes, Tamale parece pequena e mais remota. O clima é tropical, e a exuberante estrada do aeroporto é ladeada por cabanas redondas de barro intercaladas entre residências e pastagens. Com poucas opções de hotéis disponíveis, ficamos no Little Afrika Lodge, sugerido por membros do estúdio de Mahama. A pequena pousada familiar é acolhedora, e a maioria dos hóspedes está em Tamale por conta de projetos de pesquisa. Os quartos são espaçosos e impecáveis, embora os colchões sejam tão firmes que chegamos a conferir se não eram, na verdade, tábuas de madeira.

Mahama, reconhecido por suas instalações monumentais, muitas vezes construídas com objetos descartados, é responsável pela recente consolidação de um circuito de arte em Tamale. Nos últimos anos, financiou a construção do Centro Savannah de Arte Contemporânea (SCCA), espaço dedicado a projetos e pesquisa; a expansão notável do próprio estúdio, conhecido como Red Clay; e o Nkrumah Volini, que funciona em um silo de grãos desativado e, depois de reformado, servirá como extensão do SCCA.

Exceto pelo carro que pegamos no aeroporto, utilizamos tuk-tuks para circular em Tamale, transporte que os ganenses chamam de “amarelinhos”. Primeiro, fomos ao SCCA, espaço aberto e imponente. Embora não houvesse nenhuma exposição em cartaz, a porta estava aberta e fomos convidados para entrar e explorar o prédio e a instalação prestes a ser inaugurada. O centro segue um calendário rotativo de exposições e eventos, com uma retrospectiva anual dedicada a um artista ganense.

Os tecelões criam tiras longas e estreitas que depois são costuradas para formar o tecido kente. Foto: Francis Kokoroko/The New York Times

O SCCA pode se assemelhar às galerias de paredes brancas de Nova York ou Londres, mas Selom Kudjie, o diretor, nos assegurou que está longe de ser uma reprodução do modelo de galeria ocidental. “A base do nosso trabalho é a educação artística, mas não exclusivamente para a arte. Queremos que os artistas desenvolvam a coragem, porque a arte não é uma ilha”, afirmou ele.

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O ponto culminante dessa visão anti-isolacionista é o Red Clay, estúdio de Mahama, embora essa seja uma descrição bastante simplificada. O complexo abriga espaços de tijolos com treliças que exibem algumas das instalações mais conhecidas de Mahama, incluindo “Um Grão de Trigo”, na qual centenas de macas médicas verticais estão apoiadas nas paredes da galeria. Em vez de faixas de tecido, elas são revestidas com materiais provenientes de processadoras de peixe defumado da África Ocidental. Perto dali está “Non-Orientable Nkansa”, estrutura gigantesca construída com caixas usadas para armazenar ferramentas de polimento e conserto de sapatos, criada por Mahama em colaboração com trabalhadores migrantes.

Red Clay, o estúdio de Ibrahim Mahama em Tamale, abriga algumas de suas instalações mais conhecidas, incluindo “Non-Orientable Nkansa”, uma estrutura gigantesca construída a partir de caixas usadas para guardar ferramentas para polir e consertar sapatos. Foto: Francis Kokoroko/The New York Times

O centro também oferece uma programação dinâmica de exposições; um cinema usado para apresentações de dança, reuniões comunitárias e formaturas; e uma série de vagões de trem e aviões desativados, alguns convertidos em salas de aula. Os aviões também são uma atração em si, proporcionando cenários ideais para fotos do Instagram e atraindo visitantes para o Red Clay que, de outra forma, não o conheceriam. Tudo é oferecido de forma gratuita e promovido principalmente pelo boca a boca.

Outras instituições estão começando a surgir, com destaque para o Nuku Studio, localizado no centro da cidade. O edifício costumava abrigar uma fábrica de impressão de jornais e, em seu longo salão, visitamos a exposição “Uma Retrospectiva: Vida no Norte de Gana”. Vídeos e fotos de artistas internacionais preenchiam o espaço industrial, proporcionando um retrato abrangente da região, abordando temas como a produção de manteiga de karité, os rituais dagomba e a classe média de Tamale.

Parte do atrativo do SCCA, do Red Clay e do Nuku Studio reside em sua profunda ligação com Gana. Kudjie e Mahama, assim como o corpo docente da Knust, desejam que pessoas fora do mundo da arte se envolvam no crescimento dessas instituições e tentam, tanto quanto possível, incluir as comunidades locais em seus projetos. Conforme explicado por Kudjie, o objetivo não é competir com o cenário artístico global, mas sim “construir uma narrativa artística específica deste local”. Essa é a essência dos espaços artísticos mais bem-sucedidos em Gana, onde o processo é uma parte intrínseca do trabalho, e a programação não é ditada pela agenda ocidental.

Seis aviões desativados estão entre as atrações do Red Clay, que é gratuito para visitantes. Foto: Francis Kokoroko/The New York Times

Dedicamos mais de duas horas a explorar o Red Clay, admirando as aeronaves e conversando com Kudjie e outros membros da equipe. Conversar – conhecer pessoas – e fazer descobertas inesperadas foi tão importante quanto a arte em si, e as pessoas presentes ficaram felizes em guiar os visitantes pelo local e falar sobre as obras expostas. Crianças pequenas brincavam à sombra das instalações de Mahama, enquanto duas pessoas tiravam fotos sob as asas de um avião.

O Red Clay está um pouco afastado do centro de Tamale, e nosso “amarelinho” não queria esperar enquanto explorávamos o local. O céu, antes espesso e sem ar, escureceu com o início da chuva, e Kudjie gentilmente nos ofereceu uma carona de volta para casa em sua van.

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