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Jogadores trans e não binários encontram aceitação e comunidade em videogames

Eles recorreram aos jogos, alguns com criadores de personagens robustos, como locais onde podem se expressar com segurança

Por Zachary Small

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - Quase uma década antes de Anna Anthropy se assumir como mulher transgênero, ela estava usando um vestido no mundo de Animal Crossing no Nintendo GameCube, deixando pistas virtuais para sua família sobre informações que ela não estava preparada para compartilhar quando era adolescente.

Cena do jogo Animal Crossing: algumas pessoas transgênero usam os jogos de videogame para expressarem suas identidades de gênero antes mesmo de 'saírem do armário'. Foto: Nintendo/Monolith Soft/Divulgação

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“Estávamos todos jogando na mesma cidade, e eu havia escolhido uma personagem feminina”, disse Anthropy, 40 anos, hoje professora de design de jogos na Universidade DePaul, em Chicago. “Não era algo sobre o qual conversávamos, mas era a minha maneira de ver uma versão da minha família em que eu era do gênero certo.”

Mais de uma dúzia de pessoas transgêneras e não binárias disseram em entrevistas que os videogames eram um dos espaços mais seguros para explorar suas identidades queer, dada a variedade de ferramentas para modificar a aparência de um personagem e um mundo virtual que aceita prontamente essas mudanças.

As ferramentas de criação de personagens em jogos de interpretação de papéis, como Starfield e Baldur’s Gate 3, estão fazendo menos suposições de gênero do que no passado, dando aos jogadores mais liberdade para selecionar pronomes, moldar seus corpos e selecionar uma extensão vocal. Essas novas opções estão levando alguns jogadores a passar horas criando seus avatares virtuais.

Veronica Ripley, 32 anos, costuma conversar com amigos sobre o papel que os videogames desempenharam em seu despertar trans: “Eu tentava explicar isso, dizendo que estava jogando com a personagem feminina porque ela tinha um hitbox menor ou animações de morte mais rápidas”, disse ela, referindo-se às vantagens do jogo. Então, ela se viu explorando The Sims, que descreveu como um “simulador de casa de bonecas virtual” que lhe permitia criar versões femininas de si mesma.

“Ser uma garota naquele espaço era algo transcendental quando criança”, disse Ripley.

Nos últimos anos, os profissionais da área médica têm dito que os videogames podem ser uma forma de tratamento de afirmação de gênero. Algumas pesquisas indicam que os jogos que permitem que os jogadores expressem suas identidades de gênero sem resistência ajudam as pessoas em transição a se sentirem mais confortáveis no mundo real.

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“Muitas pessoas trans e não binárias não cresceram com um ambiente seguro para jogar, o que se deve a pressões em seus ambientes”, disse Sien Rivera, psiquiatra da Carolina do Sul que pesquisou o assunto. “Os videogames oferecem essa proteção para permitir um mundo privado que é separado da realidade corpórea imediata, mas também compartilhado com tantas outras pessoas em todo o mundo que estão compartilhando essas experiências imaginativas.”

Rivera, que preside o comitê de gênero e sexualidade da American Psychoanalytic Association, acrescentou que “o videogame é o único lugar onde eles podem ter alguma representação de si mesmos que represente com mais precisão sua realidade psíquica”.

Há três anos, Nora Vind publicou um ensaio em vídeo comparando sua experiência de se assumir como transgênero com a experiência transformadora de Madeline, uma personagem do jogo Celeste, de 2018, cuja jornada de autodescoberta é simbolizada por uma escalada traiçoeira na montanha.

Baldur’s Gate 3: a possibilidade de dar características aos personagens faz com que jogadores construam alguns com características mais próximas daquilo que elas acreditam e gostariam de ser. Foto: Larian Studios/Divulgação

“Mesmo antes de saber que estava fugindo, eu estava fugindo para os videogames”, disse Vind, hoje uma estudante universitária de 23 anos na Dinamarca, em uma entrevista. “E havia uma cena no jogo em que Madeline liga para sua mãe e diz que está se sentindo sobrecarregada. Isso me deu coragem para falar com minha mãe sobre ser trans na próxima vez que eu fosse para casa.”

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Ajudou o fato de Maddy Thorson, a designer por trás de Celeste, ter escrito um ensaio descrevendo como o desenvolvimento do jogo coincidiu com sua própria jornada de descoberta trans.

“A história de Celeste realmente começou com a reflexão sobre por que eu jogo jogos difíceis e por que alguém faria isso”, lembrou Thorson em uma entrevista. Mas, em retrospecto, ela percebeu que sua protagonista compartilhava um pouco de sua própria história. “Não parecia estar inventando algo, mas sim descobrindo algo.”

As comunidades físicas e on-line têm sido um recurso importante para os gamers transgêneros em um momento em que muitos dizem que se sentem ameaçados em público pela retórica e pela violência.

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Em 2018, Raffy Regulus ajudou a fundar a NYC Gaymers, que organiza encontros e noites de jogos na cidade e aumentou seu número de membros para mais de 1.500 pessoas. Ripley fundou a Transmission Gaming em 2016 após experiências com agressores on-line que zombavam de sua voz; quase 2.500 membros pertencem ao seu canal Discord, onde os jogadores podem se encontrar e organizar torneios. O slogan do grupo? “Este não é um espaço seguro. Este é um espaço trans”. Afinal, trata-se de um espaço competitivo de jogos.

Plataformas como Twitch e YouTube, onde as pessoas fazem transmissões ao vivo de seus próprios jogos, também ajudaram a ampliar os momentos de autodescoberta. “O streaming mudou a equação porque criou um fórum público”, disse Joanna Fang, uma artista de foley no setor de videogames.

“À medida que o mundo se torna mais agressivo em relação às pessoas trans”, ela acrescentou, “os videogames podem preencher as lacunas entre as comunidades”.

Além das raves virtuais e dos torneios multiplayer que Fang participou durante a pandemia do coronavírus, ela também se juntou a um grupo on-line chamado TransGameDev, que incluía mais de 1.300 membros transgêneros. Ela disse que o grupo foi uma influência positiva no setor, ajudando mais pessoas transgêneras a discutir design de jogos e encontrar empregos.

Os gerentes da Larian Studios deram crédito aos funcionários transgêneros e não binários pelo aprimoramento do criador de personagens que contribuiu para o sucesso do jogo de RPG Baldur’s Gate 3. Um dos lançamentos mais celebrados deste ano, o jogo foi elogiado por sua capacidade de personalização e linhas de história ramificadas que capturam a espontaneidade dos jogos de tabuleiro com Dungeons & Dragons.

“Aprendemos definitivamente que precisávamos ter a mente muito aberta e não nos restringir”, disse Alena Dubrovina, diretora de arte da Larian que supervisionou o criador de personagens. “Um grande pilar do design era permitir que os jogadores vivessem suas fantasias definitivas.”

Um passo importante em direção a esse objetivo foi a decisão de incluir os órgãos genitais entre os traços físicos que podem ser personalizados, com diferentes formas disponíveis.

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A expressão de gênero faz pouca diferença na narrativa do jogo, o que foi comemorado por alguns jogadores transgêneros. “Essas decisões são apenas para nós”, disse Vind. “Você escolhe essas opções, e todos tratarão seu personagem normalmente.”

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