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Modern Love: Superando a traição pós-parto em uma jornada de dor, descoberta e cura

Uma exploração íntima da resiliência emocional e do poder da cura familiar, navegando pelas águas turbulentas da traição para redescobrir o amor e a confiança

Por Shelley Akers (The New York Times)
Atualização:

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - Um dia antes do nosso sétimo aniversário de casamento, e seis semanas depois do nascimento da nossa filha, meu marido me contou que estava tendo um caso. (O tempo verbal é importante: “estava tendo” um caso, não apenas “tinha tido” um caso).

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Enquanto sua confissão reverberava nos meus ouvidos, eu embalava nossa filha, que dormia depois da décima (décima primeira?) mamada do dia. Meus mamilos doíam, meu corpo tremia, meu coração se despedaçava.

Lágrimas caíram no body da H&M, a primeira roupinha que comprei quando descobri que estava grávida depois da transferência do embrião congelado. Eu a segurava com firmeza apesar da dor, estava entrando no modo de proteção instintiva das mães.

“Ela não pode saber que estou chorando”, pensei enquanto olhava em choque para o meu marido. Meu rosto estava molhado, mas nenhum som escapava dos meus lábios. Não estava com raiva. Ainda não. Só tinha perguntas: Com quem? Quando? Quantas vezes?

Enquanto ela estava com o novo bebê, o marido estava com outra mulher Foto: Brian Rea/The New York Times

De várias maneiras, minha história não é nova. Meu marido – um administrador escolar que vestia roupas J. Crew e era irritantemente simpático – teve um caso com uma colega de trabalho. Eu estava grávida, cansada e concentrada na nossa bebê. A colega estava concentrada nele: flertando nas mensagens de texto, na sala dele e nos intervalos.

Tempos depois, descobri que outros colegas suspeitavam do caso. Quando a conheci, também tive um mau pressentimento. Até mesmo nosso terapeuta matrimonial, com quem começamos a nos consultar depois da confissão, achou estranho que a mulher tivesse convidado meu marido para ir à casa dela para consertar os armários da cozinha logo depois de ser contratada. Não é um favor muito comum entre colegas de trabalho, mas foi o primeiro passo dela numa série de ações para ficar mais íntima dele, o que criou a oportunidade para a traição.

Na época, achei que o pedido dela era bizarro, mas meu marido sempre se esforçava para ajudar as pessoas. Arrastava móveis pesados para os vizinhos ou ajudava na mudança. Gostava de trabalhar com as mãos – elas pareciam imensas quando seguravam nossa filha, os dedos envolvendo a perninha dela, a bebê toda embalada como uma bola de futebol.

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Assim como muitas outras mulheres, sofri com a insônia durante a gravidez. Meu ritual noturno passou a ser comprimidos de Unisom e livros de Emily Oster. Desde o teste genético até a rotina de sono, eu queria estar preparada para tudo na maternidade. Sempre estive preparada para tudo – até aquele momento.

Além do Unisom, tentava ir para a cama cedo, porque sabia que meu corpo precisava de descanso. Minha gravidez foi de alto risco por vários motivos: eu estava chegando aos 40 anos, tinha diabetes tipo 1 e havia passado por uma fertilização in vitro.

Meu marido, por outro lado, é uma coruja. Então, quando ele se enfiava debaixo das cobertas às duas da manhã, depois de estar com ela, eu não percebia. E mesmo que eu estivesse acordada, não faria a menor diferença. Nunca imaginei que meu marido carinhoso e dedicado poderia fazer uma coisa dessas. Ainda tenho dificuldade de acreditar nisso. E acho que ele também. Tempos depois ele me disse que se sentiu um estranho naquela época – para si mesmo e para mim.

Ele é o tipo de companheiro que se senta comigo no sofá e deixa que eu lhe mostre meus painéis do Pinterest. Antes da bebê, assistíamos a Jeopardy toda noite, jantando aquilo que tínhamos preparado juntos com nossas compras na feira. Ele me levava às consultas com o obstetra e me aplicava quase todas as injeções intravenosas, a não ser quando ele viajava a trabalho. E, mesmo assim, ele arranjava um amigo enfermeiro para fazer as aplicações.

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Depois de três anos de “seja paciente”, porque “vai acontecer quando tiver que acontecer”, engravidamos naturalmente em janeiro de 2021. Mas perdemos essa gravidez. No primeiro ultrassom, já não havia batimentos cardíacos. Meu marido teve que esperar no carro por causa das restrições da covid, então eu me vi sozinha – com aquele gel morno espalhado na minha barriga inchada – quando a enfermeira lamentou a perda.

Acreditando que poderíamos engravidar por conta própria, tentamos várias vezes. O sexo virou uma tarefa árdua, na qual sempre fracassávamos. Testes de ovulação, sexo com hora marcada, testes de gravidez negativos. Um ciclo que forçou nossa união e ao mesmo tempo nos afastou. Um ciclo que fazia com que meu marido se sentisse insuficiente – mas ele só admitiu isso quando estávamos na terapia de casal.

Eu gostaria que ele tivesse me contado. Talvez as coisas fossem diferentes se ele tivesse dito, ou se eu tivesse perguntado.

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“A fertilização in vitro é a melhor aposta”, disse o médico no Zoom depois que a análise indicou uma baixa contagem de espermatozoides. Sem conseguir engravidar de novo, recorremos a uma clínica de fertilidade.

No fim, levaríamos cinco anos e mais de 40 mil dólares para ter a bebê. Mas, depois das injeções, da coleta, dos testes e da espera, eu estava grávida de novo. Ficamos empolgados. E aterrorizados.

A cada ultrassom, prendíamos a respiração até ouvirmos o batimento cardíaco. Depois soltávamos um suspiro, mas bem rápido: não podíamos nos permitir muita felicidade por muito tempo.

Durante nove meses, fiz tudo o que podia para cuidar da vida dentro de mim. Sabia que nossa bebê era uma menina e conversava com ela mais do que com qualquer outra pessoa. Eu lhe contava sobre todas as coisas que faríamos juntas, como esperava que ela gostasse de cachorro tanto quanto eu e por que eu sabia que valia a pena esperar por ela.

Quando meu marido finalmente me contou toda a verdade (várias semanas depois da sua confissão inicial e incompleta), ele explicou que sua primeira noite com ela tinha sido nove dias antes do nascimento da nossa filha.

Nove dias. Depois de cinco anos de esperança, tentativas e sonhos: nove dias. Estávamos tão perto de ter tudo...

Na primeira noite em casa, depois de voltar do hospital, eu não dormi. Nossa filha se recusava a ficar deitada de costas, então minha ansiedade não me deixava descansar. (Aprendi que isso se chama “cólica de recém-nascido” depois de ficar pesquisando no Google no meio do pânico da madrugada). Meu medo de perder a bebê não acabou quando ela nasceu.

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Exausta e desesperada, aluguei um berço moderno, com monitoramento eletrônico e cueiro especial para prender os bebês de costas. Finalmente, eu podia fechar os olhos. E no sofá da sala, sua cama temporária desde a chegada da bebê (para que ele pudesse trabalhar sem parecer um zumbi), meu marido podia usar o aplicativo para saber quando eu estava acordada.

A fabricante não apresenta o “modo de infidelidade” como um dos recursos do produto, mas o aplicativo do berço permitiu que meu marido saísse de fininho, ficasse com outra mulher e voltasse para casa sem que eu percebesse – tudo graças ao monitoramento em tempo real, que informava quando a bebê estava em pé ou deitada, informando quando também eu estava em pé ou deitada.

Minha mãe veio ficar comigo depois do “evento” que terminou com a confissão dele. (Dizer “caso” era muito doloroso e ainda é). Minha mãe cuidou de mim para que eu pudesse cuidar da minha bebê. Ela era a única pessoa em quem eu confiava. Quando minha filha cochilava, conversávamos sobre “o evento”. Ela ficava com raiva quando eu ficava com raiva, ficava triste quando eu ficava triste. Tinha os piores pensamentos à noite quando tentava dormir, assim como eu.

Minha mãe entendia o que eu estava pensando antes mesmo que eu abrisse a boca para falar qualquer coisa. Ela sentia o que eu sentia – eu estava chocada, confusa, com o coração partido e, ainda assim, queria manter minha pequena família unida.

No final das contas, escolhi ficar com ele, mas mudamos toda a nossa vida: pedimos demissão, tivemos reduções salariais e nos mudamos para um novo estado. Os amigos questionaram minha decisão, mas os relacionamentos nunca são preto-ou-branco e existe mais de um jeito de encarar as coisas. Eu estava pronta para lutar pela vida que sempre sonhei. Ele expressou muita vergonha e arrependimento e queria lutar por nós também. Ele até me deu apoio para escrever este texto.

Nove meses depois, de vez em quando ainda sinto uma dor tão profunda que me sufoca. Começa na garganta, passa pelo peito e se instala pesadamente no estômago. Tento engolir, mas minha garganta parece mais apertada do que o normal, como se a dor no coração e o oxigênio não pudessem compartilhar o mesmo espaço.

Quando choro nos cochilos da nossa filha, espirro água fria no rosto para disfarçar as lágrimas antes de pegá-la do berço. Forçando um sorriso, paro na porta do quarto dela e respiro fundo antes de entrar.

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Embora eu tenha tentado protegê-la de tudo isso, será que ela já sabe? Talvez.

Apesar de tudo, ela está me ajudando a me curar? Com certeza.

Como minha mãe me mostrou, há uma conexão indescritível entre as mães e seus filhos. Elas sentem o que nós sentimos.

E a maternidade nunca acaba. Não posso proteger minha filha para sempre, mas quando ela tiver uma decepção, aos quatro ou aos 40 anos de idade, estarei lá para sentir a dor com ela. Assim como minha mãe fez por mim. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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