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‘Pirâmide mais antiga do mundo’ está mesmo na Indonésia ou é um mito nacional? Entenda controvérsia

Estudo, sob investigação de editora, alimentou disputa sobre a idade de um local parcialmente escavado e provocou alertas sobre perigos da criação de mitos

Por Mike Ives e Rin Hindryati

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - CIANJUR, Indonésia – Em um canto montanhoso da Indonésia existe uma colina pontilhada de terraços de pedra para onde pessoas de todo o país vêm para fazer rituais islâmicos e hindus. Alguns dizem que o local tem um ar místico, ou até mesmo que pode guardar tesouros enterrados.

Gunung Padang é um lugar relaxante para passar uma tarde. Mas também está no centro de um debate acalorado.

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Os arqueólogos dizem que a colina é um vulcão adormecido e que as cerâmicas recuperadas ali até agora sugerem que os humanos vêm frequentando o local há centenas de anos. Mas alguns indonésios, entre eles um geólogo sísmico e um presidente que deixou o cargo em 2014, sugeriram que o local pode ter sido construído muito antes, por uma civilização antiga ainda não descoberta. Essa narrativa se espalhou por mais de uma década dentro do país, mas não muito além dele – até recentemente.

Em 2022, a série de documentários da Netflix Revelações Pré-históricas se baseou na pesquisa do geólogo para fazer um episódio sobre Gunung Padang. E, em outubro, o geólogo publicou um artigo em uma revista científica internacional que gerou um debate sobre questões de ciência, ética e história antiga.

O sítio de Gunung Padang em Cianjur, Indonésia, em dezembro de 2023  Foto: Ulet Ifansasti/The New York Times

Arqueólogos dizem que a conclusão mais controversa do estudo – que Gunung Padang talvez seja “a pirâmide mais antiga do mundo”, porque sua camada mais profunda parece ter sido “esculpida” por humanos 27 mil anos atrás – é problemática porque não se fundamenta em evidências físicas. A Indonésia não tem histórico de construção de pirâmides, dizem eles, e os humanos da era paleolítica, que terminou mais de 10 mil anos atrás, não teriam construído pirâmides. (As pirâmides de Gizé, no Egito, têm cerca de 4.500 anos).

A editora da revista, com sede em Nova Jersey, afirma que agora está conduzindo uma investigação interna, o que significa que o periódico está “avaliando preocupações compartilhadas pela comunidade arqueológica”. Vários arqueólogos manifestaram publicamente suas preocupações, dizendo que o estudo “não é digno de publicação” e que a afirmação do geólogo de que a colina foi construída por humanos “simplesmente não faz sentido”.

Em resposta, o principal autor do estudo, o geólogo sísmico Danny Hilman Natawidjaja, disse que o estudo foi mal compreendido. Entre seus apoiadores estão Graham Hancock, jornalista britânico que estrela a série Netflix e argumentou – a seus próprios críticos – que os arqueólogos deveriam ser mais abertos a teorias que desafiam a ortodoxia acadêmica.

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“Este modelo de arqueologia juiz-júri-e-carrasco, onde eles podem definir o que é evidência e o que não é – o que é aceitável como evidência e o que não é – não é útil para o progresso do conhecimento humano a longo prazo”, Hancock disse em entrevista por telefone.

O portão de entrada para o sítio de Gunung Padang Foto: Ulet Ifansasti/The New York Times

Ouro na colina?

Gunung Padang fica perto da cidade de Bandung, em Java, a ilha mais populosa da Indonésia. A escavação começou no início da década de 1980, disse Lutfi Yondri, arqueólogo do governo provincial de Bandung.

Tempos depois, jovens indonésios, inspirados por esforços quixotescos para descobrir pirâmides perdidas na Bósnia, promoveram a ideia de que as colinas pontiagudas poderiam esconder pirâmides perdidas, disse Lutfi. A equipe do presidente Susilo Bambang Yudhoyono organizou fóruns para explorar essa questão, bem como especulações não comprovadas de que Gunung Padang poderia guardar tesouros enterrados.

Os arqueólogos contra-atacaram desde o início. Mas o governo de Yudhoyono continuou financiando trabalhos de escavação em Gunung Padang. E ele disse, depois de uma visita em 2014, perto do final de seus dez anos na presidência, que o local talvez fosse “a maior construção pré-histórica do mundo”.

O arqueólogo Lutfi Yondri em Bandung, Indonésia Foto: Ulet Ifansasti/The New York Times

A narrativa da pirâmide “tem um toque nacionalista e é apoiada por um ex-presidente”, disse Noel Hidalgo Tan, arqueólogo do Centro Regional de Arqueologia e Belas Artes do Sudeste Asiático, em Bangkok. “É por isso que é um mito que se recusa a morrer”, disse ele.

Um assessor de Yudhoyono encaminhou perguntas a Andi Arief, que certa vez organizou fóruns sobre Gunung Padang como membro da equipe do presidente. Arief respondeu a perguntas, mas não se disponibilizou para uma entrevista.

Ciência ou ilusão?

Natawidjaja, o geólogo que liderou o estudo de outubro, disse que começou a pesquisar o local em 2011. Na época, ele estava estudando uma falha ativa na região e percebeu que a forma pontiaguda de Gunung Padang destacava o local contra uma paisagem de encostas erodidas.

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O presidente Joko Widodo cortou o financiamento para a pesquisa depois de assumir o cargo em 2014. Natawidjaja depois publicou suas descobertas em uma edição recente da Archaeological Prospection. Os métodos e princípios do estudo são os mesmos que ele usaria para analisar terremotos, disse ele em entrevista por Zoom.

“Estou só mudando o objeto de estudo: de falhas ativas para pirâmides”, disse ele.

Vários arqueólogos disseram que o principal problema do estudo é que ele datou a presença humana em Gunung Padang a partir de medições de carbono obtidas por amostras de perfuração do solo – e não de artefatos desenterrados no local.

Estudantes visitando o sítio de Gunung Padang em Cianjur, Indonésia Foto: Ulet Ifansasti/The New York Times

“A lição é que as datações de carbono não são mágicas e têm ressalvas importantes quanto à sua interpretação”, escreveu a arqueóloga Rebecca Bradley em uma crítica de 2016 às descobertas preliminares de Natawidjaja. (Ela disse por e-mail que o estudo publicado recentemente lhe pareceu “uma recapitulação mais organizada das mesmas coisas velhas”).

Tan descreveu a tentativa do estudo de vincular a idade do solo à atividade humana como sua “maior falácia lógica”. A idade do solo não é surpreendente, porque o solo se acumula com o tempo e as camadas mais profundas tendem a ser mais velhas, acrescentou ele. “Mas o solo não está ligado a uma atividade. Não é solo ligado, digamos, a uma fogueira ou a um enterro”.

“É apenas solo”, disse ele.

Cerâmicas e outras evidências das camadas superiores de Gunung Padang indicam que os humanos já estavam lá nos séculos 12 ou 13 e que eles construíram estruturas sobre formações rochosas naturais, disse Mai Lin Tjoa-Bonatz, arqueóloga que conduziu pesquisas na Indonésia.

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“Talvez houvesse pessoas lá antes disso, mas elas não deixaram nada que possamos datar, até agora”, disse Tjoa-Bonatz, que leciona na Universidade Humboldt, em Berlim.

O arqueólogo indonésio Harry Truman Simanjuntak disse que também considerava a afirmação do estudo infundada. “Sempre há cientistas que são ilusionistas e praticam pseudociência, buscando conhecimento que não se baseia em dados”, disse ele.

A afirmação mais controversa do estudo se baseia na datação por radiocarbono do solo, não de artefatos Foto: Ulet Ifansasti/The New York Times

Sob investigação

A investigação interna da Archaeological Prospection foi confirmada pela Wiley, editora da revista. Eileen G. Ernenwein, coeditora do periódico, recusou o pedido de entrevista.

Por e-mail, Natawidjaja defendeu seu trabalho e disse que a investigação dizia respeito a “uma questão de discordância científica”. As amostras de solo eram provas legítimas para avaliar a presença humana em Gunung Padang, acrescentou ele, em parte porque os construtores antigos usavam o solo para revestir estruturas construídas por humanos.

“O rigoroso processo de publicação revisado por pares de nossas descobertas em um periódico respeitável ressalta a validade científica e o mérito de nosso trabalho”, escreveu ele.

Hancock, que se descreveu em Revelações Pré-históricas como “inimigo número 1 dos arqueólogos”, disse que o programa certamente contribuiu para o nível de “vituperação e ataque” que Natawidjaja está enfrentando agora.

Pessoas se reunem em uma área de descanso e se preparam para rituais noturnos no sítio  Foto: Ulet Ifansasti/The New York Times

Em 2022, a Sociedade Americana de Arqueologia disse em carta aberta à Netflix e à produtora do programa, a ITN, que a série “desvaloriza a profissão arqueológica com alegações falsas e desinformação” – um argumento que Hancock refutou vigorosamente. A Netflix e a ITN se recusaram a comentar para este artigo.

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Hancock argumentou que os arqueólogos não deveriam descartar a possível existência de civilizações antigas perdidas, em parte porque muita terra ficou submersa quando a última era glacial terminou, cerca de 11.700 anos atrás.

“Dizer que ainda é necessário pesquisar mais para resolver a questão – isso é bastante justo”, disse Hancock sobre o estudo recente. “Mas basicamente descartar tudo desde o início e dizer que é uma afirmação que vai contra tudo o que sabemos sobre o passado? Isso não ajuda”.

Em uma tarde semanas atrás em Gunung Padang, os zeladores do local disseram que a pesquisa de Natawidjaja apoia o que seus antepassados sempre disseram: que o local é obra de uma civilização antiga. Algumas pessoas relataram ter tido visões misteriosas de figuras pré-históricas ali, acrescentaram eles.

“Estamos confiantes de que tudo isso foi feito pelo homem, não pela natureza”, disse um dos zeladores, Zenal Arifin, tomando uma xícara de café adoçado perto do centro de informações do local.

Fotografias de uma escavação em Gunung Padang Foto: Ulet Ifansasti/The New York Times

O governo de Widodo está em grande parte, mas não totalmente, fora da briga. Hilmar Farid, diretor-geral de cultura do Ministério da Educação, Cultura, Pesquisa e Tecnologia, disse que o ministério não estava envolvido nos debates sobre a idade de Gunung Padang.

Mas ele também disse que a pesquisa mais recente no local “aparentemente não confirma a teoria de que se trata de uma pirâmide feita por humanos”. “Na perspectiva de alguém como eu, que tem de mobilizar recursos para apoiar determinadas atividades”, disse ele, “esta certamente é a última prioridade”.

Este artigo foi originalmente publicado no New York Times.

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The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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