Desligamento do supercomputador Tupã tem impacto econômico, social e científico

Dados processados pelo Tupã ajudam a tomar decisões que impactam as seguranças alimentar, energética e hídrica

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Foto do author Bruno Romani
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Por Bruno Romani e Bruna Arimathea
Atualização:
Represa em Joanópolis (SP) apresenta sinais claros da crise hídrica vivida no Brasil Foto: Tiago Queiroz/Reuters

Sem o supercomputador Tupã, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que pode ser desligado já em agosto por falta de verbas previstas no orçamento da instituição, ficam prejudicadas decisões nacionais de segurança alimentar, energética e hídrica — há ainda impacto econômico e científico no Brasil. 

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Os dados processados pelo Tupã são fornecidos para o Centro Nacional de Desastres Naturais (Cenad), a Agência Nacional de Águas (Ana), a Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha (DHN), o Departamento de Controle do Espaço Aéreo da Aeronáutica (Decea), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Ministério de Minas e Energia, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), além de centros estaduais de meteorologia. 

A importância se acentua quando é considerado o fato de que o Brasil atravessa a pior crise hídrica dos últimos 91 anos, segundo o governo federal. “Em plena crise, podemos ter um apagão dessas informações”, explica Gilvan Sampaio, coordenador-geral de ciências da Terra no Inpe. Sem o recurso, ficarão prejudicadas as previsões climáticas de longo prazo, especialmente importantes para eventos climáticos extremos, como tempestades e períodos de seca. 

A ausência desses dados também podem causar impacto econômico. Segundo um relatório de março de 2021 do Banco Mundial, a previsão meteorológica tem impacto de US$ 160 bilhões na economia mundial. No Brasil, a agricultura seria um dos setores prejudicados.

Segundo Douglas Lindermann, professor da Faculdade de Meteorologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), a falta de informações climáticas a longo prazo pode influenciar diretamente no planejamento do plantio e da colheita, e o impacto seria importante para pequenos produtores, pois o Inpe fornece todas essas previsões gratuitamente.

“A gente não tem como fazer uma previsão tão assertiva a longo prazo, mas conseguimos passar para o produtor uma ideia de comportamento. Por exemplo, a última safra atrasou o início do período chuvoso, que impactou no atraso da soja. E esse é o tipo de dado que é possível obter com uma previsão de longo prazo. A maioria das empresas que trabalham com consultoria usam o produto que o Inpe gera, mesmo que complementando com outros serviços”.

Em outras palavras, os grandes nomes do agronegócio conseguem ferramentas alternativas, muitas estrangeiras, que fornecem dados sobre o clima no Brasil. Mas, devido ao País ter condições bastante peculiares — como microclimas próprios —, tanto grandes quanto pequenos se beneficiam das informações do Inpe para manter a previsão precisa em cada região. 

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Sampaio diz que ainda não há um plano sobre o que será feito para pequenos produtores caso o Tupã seja desligado. 

Política e ciência

As previsões de longo prazo do supercomputador também são fundamentais para os relatórios que o Brasil produz no âmbito do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), programa das Nações Unidas que visa a informar governantes de todo o mundo sobre mudanças climáticas. “Se não tivermos os dados do Tupã, o Brasil vai recorrer a modelos feitos por outros países? Será que esses modelos são precisos para retratar as necessidades do País?”, questiona Sampaio. 

Alfredo Goldman, professor do Instituto de Matemática e Estatística da Universidadede São Paulo (USP), explica que a operação de um supercomputador como o Tupã é uma ferramenta política em cada País. Segundo ele, é necessário ter o equipamento e justificar quais são os benefícios obtidos dessa máquina, o que deveria, em tese, acontecer no Brasil. 

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“Quando se fala em supercomputador, eu também estou falando em como vender isso para a sociedade. É um custo alto? Sim. Mas se eu tiver as aplicações corretas, as simulações corretas, eu consigo mostrar que isso é bom”. 

Os prejuízos também são científicos. Para que modelos de previsão climática sejam precisos, eles precisam do processamento constante de informações - quantos mais dados, mais afiados eles ficam. Assim, o desligamento gera um buraco de informações, o que abala a calibragem dos modelos.

“Da mesma forma que você não desliga o seu freezer para economizar energia à noite, você não desliga um supercomputador. É importante que as aplicações sejam executadas o tempo todo”, afirma Goldman. 

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Sem uma máquina desse porte, o Brasil também corre o risco de perder os cientistas especializados em modelos climáticos. “O modelador é um ser raro. Ele é quem encontra as soluções para as previsões mais precisas. Se não tivermos como trabalhar com isso, eles podem começar a deixar o Brasil”, explica Sampaio. As consequências de um movimento desse tipo são difíceis de contornar no longo prazo. 

Com consequências econômicas, sociais, científicas e políticas, o Brasil corre contra o tempo. “O Tupã deveria ter tido uma atualização há alguns anos, mas não houve esse investimento. Isso significa que ele não é útil? Não. É um equipamento superimportante. Parar de executar uma máquina como essa resultaria em um prejuízo muito maior, porque é dinheiro que já foi investido”, explica Plínio Aquino, coordenador de Ciências da Computação do Centro Universitário FEI.

*É estagiária sob supervisão do editor Bruno Romani