‘Empresas nem sempre precisam de IAs complexas para ter ganhos’, diz presidente da IBM Brasil

Marcelo Braga conta como usar inteligência artificial no ambiente corporativo

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Por Bruno Romani
Entrevista comMarcelo Braga Presidente da IBM Brasil

Em 2023, a inteligência artificial (IA) furou a bolha e se tornou um dos principais assuntos do ano. Com isso, novos nomes, como OpenAI e ChatGPT, passaram a ser conhecidos, enquanto marcas familiares, como Google, Meta e Microsoft, deram uma guinada em direção à tecnologia. Enquanto isso, um gigante centenário parece ter passado despercebido pelo radar: a IBM.

Isso, no entanto, não significa que a companhia de 112 anos não tenha tido uma atuação importante em IA. Durante o ano, a companhia se comprometeu a treinar globalmente 30 milhões de pessoas em IA, lançou uma plataforma de IA generativa (a Watsonx), incorporou o modelo Llama 2, da Meta à sua plataforma, tornou público o modelo Granite e criou um fundo de US$ 500 milhões para apoiar iniciativas na tecnologia.

Por que, então, pouca gente ouviu falar? “A gente estava concentrado em pessoas jurídicas, então a escala é outra”, afirma ao Estadão Marcelo Braga, presidente da multinacional no Brasil. Ele recebeu a reportagem na sede da empresa em São Paulo para contar como a IBM aumentou o ritmo para desenvolver - e até “educar” sobre - projetos com foco em IA. Todos, claro, com foco no ambiente corporativo.

SAO PAULO SP 16/10/2023 LINK - RETRATO/ PRESIDENTE DA IBM/ MARCELO BRAGA - Retrato do presidente da IBM no Brasil Marcelo Braga. FOTO TABA BENEDICTO / ESTADAO Foto: ESTADAO CONTEUDO / ESTADAO CONTEUDO

Com 25 anos de casa, Braga afirma que nem todo projeto de IA precisa envolver a sofisticação do ChatGPT. Ao contrário, a simplicidade pode gerar eficiência e ganhos financeiros enormes. O executivo também falou sobre o impacto da tecnologia nos negócios e no trabalho, o ambiente regulatório no País e o papel que o País deve desempenhar nesse mercado. Confira os melhores momentos.

A IBM passou a ser mais procurada neste ano com todo o barulho em torno da IA?

Aumentou bastante a procura. Ao longo dos últimos sete ou oito anos, a IBM implementou muitos projetos de IA. Porém, a IA generativa aumentou a demanda. Antes, muita coisa era vista como parte de um departamento de inovação. Agora, a aceitação é muito maior porque mostramos que a IA pode gerar produtividade e alto retorno. Hoje, a gente tem feito “letramento de inteligência artificial” entre os líderes de empresas, pois é um tema que deixa de ser sobre tecnologia e passa a ser um tema de negócios em várias unidades de uma empresa.

Por que mesmo com todo o barulho em torno da IA ouvimos falar pouco sobre a IBM?

Eu vejo dois momentos. O Watson era sinônimo de IA aqui no Brasil até o final do ano passado. Ele ganhou uma notoriedade como marca. Porém, a IA generativa criou uma outra categoria de IA, o que fez pessoas comuns acessarem e se surpreenderem com a tecnologia. A gente estava concentrado em pessoas jurídicas, então a escala é outra. As outras empresas que ganharam destaque têm um toque na pessoa física grande, enquanto a gente continua focado em fazer uma IA para negócios. A gente não tem intenção de fazer um grande buscador, um grande prompt aberto para qualquer que seja o ponto. A gente acredita muito na nossa capacidade de entender o ambiente de negócios.

O papel da IBM também é ajustar expectativas em relação à tecnologia?

O nosso objetivo é encontrar formas de ter a velocidade de transformação que os negócios demandam. A gente acredita que os modelos de linguagem muito amplos são muito caros para serem mantidos. Então, na hora que você fala de IA para negócios, quando as empresas estão buscando produtividade e redução de custo, você tem modelos mais específicos, mais treinados para essa realidade, com eficácia, produtividade e custo muito menor. Você imagina que o idioma do financeiro é diferente do jurídico, que é diferente do marketing. E você tem que falar para o CEO da empresa que ele não precisa ter o ChatGPT explicando como é a atmosfera de Saturno. Você não precisa disso no seu negócio.

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Em quais áreas a IA ainda não rende?

A chave em qualquer projeto de IA está em expectativas. Algumas empresas olham para projetos muito complexos. A frustração de não ser perfeito vai ser alta e acho que se perde muito tempo e dinheiro nisso. Eu acho que a IA se aplica muito bem para resolver problemas de simples e média complexidade em escala, porque aí você dá um mega retorno. Fazer um projeto super específico que vai atender a demanda de um segmento muito pequeno dentro da sua empresa talvez seja algo que eu deixaria para depois.

Quais os principais desafios para empresas que querem adotar IA?

Um dos maiores desafios é ter governança de dados madura. É preciso garantir de onde os dados vêm e para onde vão, além de identificar quem tem autoridade, direito ou acesso àquelas informações. É preciso ter explicabilidade para saber se a IA está sendo treinada com uma base limitada do que representa o escopo de cliente e de sociedade. É preciso atualizar essa inteligência da forma mais rápida possível quando necessário. Talvez para um usuário final a necessidade seja outra, mas dentro de empresa, principalmente empresa listada, empresa regulada e governo, tem que ter essa preocupação redobrada.

Qual é o papel do Brasil na IA no mundo nesse momento?

Eu acho que a gente pode e deve ter um papel muito mais protagonista. Para a IBM, o Brasil é um mercado extremamente relevante e demandante. Então nós demandamos bastante dos nossos laboratórios de pesquisa essas tropicalizações, seja para língua, seja para processos, seja para alguma particularidade nossa com relação ao resto do mundo. E o que está sendo feito aqui é compartilhado lá fora e o que está sendo feito lá fora é compartilhado aqui.

Falta ao Brasil uma estratégia nacional de IA que envolva academia, empresas e governo?

Eu acho que é um mercado que está amadurecendo. Então não sei se teria tido espaço para esse ambiente já ter sido montado algum tempo atrás. No final, todos os países estão discutindo. Então, eu acho que já estão percebendo claramente que o impacto de IA é enorme e que há uma necessidade de entendimento desse impacto, de algum tipo de regulação, dependendo da aplicabilidade da área e de criação de talentos e de programas de incentivo à capacitação de uso.

Ainda dá tempo de fazer tudo isso?

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Eu acho que as empresas brasileiras estão adotando com velocidade. As empresas daqui estão olhando muito a questão de uso nos seus negócios. Quando você olha mais estruturadamente, seja plano de incentivo, seja de academia, seja de regulamentações etc, eu acho que não necessariamente ser um dos primeiros tem tanta vantagem. Porque dependendo de como você montar algum tipo de regulamentação, você pode atrasar ou impedir alguns avanços.

Como tem sido as conversas sobre regulação de IA no Brasil?

O governo está fazendo várias consultas públicas e mesmo dentro das grandes entidades aqui, como Brascom e Abes,a gente é bastante ativo. Mas, eu acho que a IA também traz muitos itens que têm que ser bem discutidos. Porque você pode simplesmente botar um freio e deixar a gente completamente fora da velocidade do mercado global. Seria um erro enorme para o País. Se você bota teto, aí é um problema insolúvel. E por outro lado, tem que haver algum nível de regulação. Porque essa discussão de dados, de impacto e a escala que essa tecnologia tem, ela não é nada do que se viu até agora. Mesmo toda a discussão que teve de regulamentação da internet e de LGPD não é tão complexa quanto a de IA. Então, eu não acho que o melhor caminho é sair correndo para ter algo. Acho que, se a gente fizer algo muito rápido, talvez não tenha uma amplitude tão profunda. E isso será pior do que não ter nada nesse momento.

Qual vai ser o impacto da IA no mercado de trabalho?

Toda nova tecnologia traz suas disrupções. Então, é inegável que vão ter vários tipos de emprego impactados de uma forma mais direta e que vão ter diversos outros sendo criados. Só que são perfis diferentes de empregos. É preciso entender as novas demandas, programas, tanto corporativos quanto públicos, de requalificação para uma nova demanda de emprego. A revolução industrial afetou um monte de empregos. A revolução da informação, que você fazia automação bancária, automação comercial, impactou alguns segmentos e criou vários outros. Então, não há como negar que existe impacto e que a gente tem que trabalhar para requalificar. Eu acho que todas as empresas de tecnologia têm interesse direto em ajudar e contribuir, o governo também, mas acho que é um somatório de várias mãos. Eu acredito claramente que só vai funcionar se todo mundo estiver orientado, coeso e atuante

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