PUBLICIDADE

Presidente do Uber, Travis Kalanick renuncia ao cargo em definitivo

Decisão foi tomada após pressão de investidores, que enviaram uma carta solicitando que ele renunciasse o mais rápido possível

Por Claudia Tozzeto e Bruno Capelas
Atualização:
Travis Kalanick, fundador e CEO do Uber, pediu licença por tempo indeterminado da companhia Foto: Reuters

O cofundador e presidente executivo do Uber, Travis Kalanick, renunciou ao cargo em definitivo na noite desta terça-feira, 20. Sua saída ocorre algumas horas após membros da empresa enviarem uma carta pedindo a renúncia de Kalanick o mais rápido possível. De acordo com o jornal The New York Times, foram horas de drama entre o executivo e os principais investidores. Kalanick consultou um membro do conselho antes de anunciar sua decisão. O executivo já estava afastado temporariamente da empresa desde a semana passada, quando anunciou uma licença com prazo indeterminado.

PUBLICIDADE

Por meio de um comunicado, quando anunciou a renúncia, Kalanick, de 40 anos, justificou a decisão. “Eu amo a Uber mais que tudo no mundo e neste momento difícil na minha vida pessoal, aceitei o pedido dos investidores para renunciar para que a Uber possa continuar crescendo em vez de estar distraído com outro conflito”, afirmou.

Com a saída em definitivo, ainda não se sabe quem deve assumir a vaga – Arianna Huffington, que é membro do conselho administrativo do Uber, tem ampliado sua influência na empresa e pode ser um dos nomes considerados para assumir a empresa. Outros nomes, como Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook, e Marissa Mayer, ex-presidente executiva do Yahoo (recém-vendido para a operadora Verizon), também são citados por fontes próximas às negociações à imprensa internacional.

"Escolher uma mulher como presidente executiva teria um significado forte, especialmente considerando que parte dos problemas do Uber vem de uma cultura machista e do assédio sexual", diz Fabro Steibel, diretor executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio) e professor da ESPM-RJ.

Confira, no vídeo abaixo, a conversa entre Bruno Capelas, repórter do Link, e Claudia Tozetto, editora do Link, sobre a renúncia de Travis Kalanick e o futuro do Uber:

Apesar de sua saída, Kalanick ainda terá relevância nas decisões tomadas no Uber, já que ainda é acionista majoritário da empresa e continuará ocupando uma cadeira no conselho de administração."O Uber hoje precisa de um grande administrador no cargo de presidente executivo. Alguém que pode guiar a transição organizacional e ganhar confiança do mercado, mostrando o horizonte para a empresa para evoluir serviços de mobilidade conectados", diz Martin Birkner, diretor de pesquisas do Gartner.

Além de procurar um novo presidente executivo, o Uber ainda tem dois desafios de recrutamento: procurar um diretor de operações e um diretor financeiro, cargos que estão vagos na empresa há algum tempo.

Publicidade

"Com a saída de Kalanick, encontrar esses postos talvez fique mais fácil: o jogo está em aberto agora, e a promessa e o modelo de negócios do Uber são bastante atraentes para talentos de liderança no mundo digital", avalia Birkner. "Ainda assim, não será uma transição fácil", diz o analista do Gartner, citando que a empresa precisa resolver questões como o seu programa de carros autônomos e a capacidade de ter um negócio sustentável sem precisar infringir a legislação trabalhista em vários países.

Para Fabro Steibel, do ITS-Rio, a situação do Uber é melhor que parece. "Eles têm uma crise de marca, mas também têm recursos financeiros e intelectuais. O Uber faz parte de um mercado que está crescendo. É muito diferente de empresas de hardware, que estão vendo seu mercado em declínio", avalia. 

Segundo os analistas, a saída de Kalanick e a escolha de um futuro novo presidente executivo podem ter poucas consequências diretas para a qualidade do serviço do Uber no Brasil, no curto prazo. Para Pedro Zanni, professor da Fundação Getúlio Vargas, a reorganização da empresa é uma boa notícia para seus competidores no País, como 99 e Cabify. "Havia o risco de que o Uber avançasse em questões éticas para derrubar o 99. Com essa mudança de gestão, espera-se que o Uber seja cada vez mais alinhado a protocolos de ética, e isso vai aumentar a competição no mercado", diz o pesquisador. "Para o consumidor, é bom lembrar, competição é sempre saudável."

Na carta enviada pelos investidores a Kalanick, a missão de encontrar um diretor financeiro foi dada como extrema prioridade para o Uber. Entre os investidores que assinaram a carta, estão o fundo Round Capital, Lowercase Capital, Menlo Ventures, Fidelity Investments e Benchmark Capital.

Em sua conta no Twitter, Bill Gurley, do Benchmark, fez homenagens ao executivo. "Haverá muitas páginas nos livros de história devotadas a Travis Kalanick. Poucos empreendedores tiveram um impacto tão duradouro no mundo."

PUBLICIDADE

Retrospectiva. Nos últimos meses, o Uber vive uma grave crise. Desde fevereiro, a empresa conduz uma investigação interna sobre a cultura, após denúncias de casos de assédio sexual e moral dentro da companhia. Há duas semanas, mais de 20 funcionários foram demitidos. Os resultados completos da investigação também foram liberados na última semana, quando o vice-presidente de negócios – e segundo na linha de comando – Emil Michael deixou a empresa. Muito próximo a Kalanick, Michael estava no Uber desde 2013, e auxiliou a companhia em áreas como fusões e aquisições. No relatório final de Holder, entregue na última semana, era sugerido que Emil Michael saísse da empresa.

A empresa também enfrentou outros escândalos recentemente, como quando Kalanick discutiu com um motorista do serviço e foi gravado, as revelações que mostraram que o Uber usou um software para evitar a fiscalização pelo governo e a competição do rival Lyft em diversos países. Mais recentemente, há ainda o embate na Justiça com a Waymo, divisão de carros autônomos do Google, sobre um suposto roubo de tecnologia por um executivo do Uber. No Brasil, é importante lembrar, o Uber também passa por uma batalha contra motoristas na Justiça do Trabalho – as decisões divergem até aqui.

Publicidade

Travis fundou o Uber em 2009 e transformou a empresa -- que usa um aplicativo de carona paga para ligar motoristas e passageiros -- em um colosso do mundo dos transportes. A empresa já teve valor de mercado estimado em US$ 68 bilhões, mas, segundo analistas, os escândalos podem ter encolhido o valor de mercado da empresa para cerca de US$ 50 bilhões -- o valor de mercado não é conhecido, já que a empresa ainda não negocia ações na Bolsa de Valores. Diante de tal perspectiva de perdas, o afastamento temporário de Kalanick, anunciado na semana passada, não parece ter sido uma ação suficiente para os principais acionistas da empresa.

Tudo Sobre
Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.