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Eu; robô

Próteses vão além da substituição de membros e dão início à mutação do corpo em máquina

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“Bastava eu me concentrar bastante”, lembra Pierpaolo Petruzziello, “e a mão se movia”. Vítima de um acidente de carro, o curitibano de 27 anos foi personagem principal do projeto Lifehand, que custou mais de US$ 3 milhões à União Europeia. Gerido por cientistas da Universidade Campus Biomédico de Roma, o experimento já dura cinco anos, mas cumpriu seu objetivo no final de 2009: agora um amputado pode fazer movimentos complexos com uma mão biônica, usando apenas a força da mente.

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O caso mostra que as próteses, que antes se limitavam a reproduzir o membro perdido, sofisticaram-se a tal ponto que não só tornam a vida de amputados mais plena, mas revolucionam o entendimento do corpo humano e parecem mostrar o futuro dos tratamentos de saúde. De para-atletas que correm atrás de tempos olímpicos a crianças que voltam a ouvir por conta de implantes cocleares, a biônica promete ser uma das áreas mais inovadoras da ciência do século 21.

No geral, são procedimentos complexos para resultados simples. Para devolver parcialmente a visão, o olho robótico desenvolvido pela empresa norte-americana Second Sight funciona com um chip implantado no globo ocular e conectado ao nervo óptico, além de óculos especiais. Ligados a uma câmera, os visores captam as imagens e as enviam para um processador, que as interpreta e as devolve – na forma de impulsos – para o nervo. Para restituir a audição, um dispositivo equipado com microfone capta sons e os traduz em sinais elétricos, levados para o nervo auditivo. No córtex cerebral, os impulsos viram sons novamente. Aplicado até em recém-nascidos, esse sistema devolveu a audição para mais de 200 mil pessoas no mundo todo.

Por conta de avanços como esses, cada vez mais o corpo humano pode ser tratado como máquina. A peça não funciona mais? Fabrica-se outra. Ou recria-se, como faz o peruano Anthony Atala, especialista em medicina regenerativa, que conseguiu criar biologicamente novas bexigas e aplicá-las em pacientes, ainda em 2006.

De uma maneira ou de outra, a função de quase toda tecnologia, do arco e flecha ao iPod, é tornar o homem mais completo – a diferença é que agora ela começa a se fundir à biologia. O inventor e futurista Ray Kurzweil dá alguns anos para que “centenas de robôs-médicos, do tamanho de células, arrumem os defeitos do organismo, limpem artérias e destruam vírus”, como disse em entrevista ao Link.

“A tecnologia sempre serviu para melhorar os humanos, mas agora ela não é só para aqueles com deficiências, mas para todos que queiram modificar ou melhorar seus corpos”, diz Kevin Warwick, professor de cibernética na Universidade de Reading, na Inglaterra, e pioneiro no teste dessas ferramentas em si mesmo. Em 2002, cem eletrodos foram conectados a seu sistema nervoso e ligados a um computador – experiência que serve, até hoje, como base para outras mais complexas.

Para Ramez Naam, especialista em nanotecnologia, pesquisador da Microsoft e autor de More than Human – Embracing the promise of biological enhancement (Mais que Humano – Aderindo à promessa das melhorias biológicas, inédito no Brasil), “as novas tecnologias preservarão a juventude e a saúde, aumentarão a capacidade de aprender e nos darão poder de decidir em que vamos nos transformar”. Unindo biônica, bionanotecnologia e engenharia genética, a ciência dará a cada um, segundo ele, “o poder de decidir a própria evolução”.

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As próteses mais modernas chegam a ter mais força e capacidades que os membros originais. Não é a toa que essa é uma indústria que movimenta mais de US$ 2,8 bilhões por ano e envolve os maiores institutos de pesquisa do mundo. Essas descobertas não servem apenas para a recapacitação de deficientes, mas dizem respeito ao que ser humano significará daqui alguns anos.

Braços, pernas, olhos, ouvidos e até corações robóticos já foram desenvolvidos. E a última fronteira, o cérebro, já começa a ser ultrapassada, com os chips neurais. Tudo por causa do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que, em 2008, viu que eles poderiam ser aplicados em tratamentos para controlar os tremores de pacientes com Mal de Parkinson e epilepsia.

Ao que parece, seremos todos um pouco máquinas no futuro. Quem sabe se, daqui a uma centena de anos, em vez de corrermos para o médico a cada problema de saúde, não bastará uma ida ao mecânico para uma apertada nos parafusos?

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Pé de atleta

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Alpinista e biofísico podem não ser profissões que combinam, mas o norte-americano Hugh Herr acumulava as duas até 1982, quando se viu forçado a abandonar a primeira. Um acidente no penhasco de gelo lhe custou as duas pernas.

Caindo de cabeça no seu trabalho como cientista, primeiro em Harvard e depois como chefe do laboratório de biomecatrônica do Massachusetts Institute of Technology (MIT), ele desenvolveria e aprimoraria justamente a perna que possibilitaria que ele e muitos outros pudessem voltar a desafiar a natureza, a PowerFoot One.

Equipado com duas próteses inteligentes, Herr voltou a subir montanhas e paredões verticais. E de quebra conseguiu um financiamento de nada menos que US$ 10 milhões para iniciar a sua própria empresa, a iWalk, que deve lançar o aparelho ainda neste ano.

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O PowerFoot One dá uma ajudinha na hora de andar: um motor elétrico impulsiona o pé e reduz o esforço, enquanto 3 chips e doze sensores acomodam o tornozelo. Além de ser ideal para esportes de alto desempenho, a tecnologia consome pouca energia, roubando parte da pressão da sola contra o chão, passo por passo, e devolvendo-a para uma bateria recarregável. “Meu corpo tem upgrades”, brinca Herr.

O homem de 3 milhões de dólares

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Depois de ter eletrodos implantados no que restou de seu braço e ligados ao sistema nervoso, o brasileiro Pierpaolo Petruziello controla o membro biomecânico com mensagens vindas diretamente do cérebro, como faria com seu braço natural.

Uma câmera no olho e uma ideia na cabeça

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Ao ficar cego de um olho depois de um acidente, o documentarista canadense Rob Spence decidiu que resolveria seu problema de maneira criativa: instalaria um olho biônico equipado com uma câmera e um transmissor sem fio. Batizou o projeto com um bizarro nome sci-fi (Eyeborg Project), procurou financiamento e conseguiu. Em 2009, se tornou o primeiro cineasta a não precisar carregar nada nas mãos para fazer seus filmes.

Correndo atrás da tecnologia perfeita

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Antes do acidente que sofreu em 1997, esporte para Paulo de Almeida era só, como ele mesmo brinca, “levantamento de copo”. Treze anos depois de perder a perna direita, esporte para ele é bem mais do que isso, senão tudo. Foi correndo que o hoje ultramaratonista conseguiu levantar a cabeça, ganhar confiança, se afirmar. Competindo, queria “buscar a igualdade, mostrar os limites do ser humano e até onde alguém que não tem uma perna pode chegar” – e não há como dizer que ele não conseguiu.

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Foi correndo (e muito), que o pernambucano se sagrou tricampeão da maratona de Nova York e se tornou o único brasileiro a aguentar os 89 quilômetros da ultramaratona de Comrades, na África do Sul. Até então, nenhum para-atleta daqui havia sequer completado a prova, que tem mais do que o dobro de uma maratona tradicional. Muito menos vencer, como ele.

Resultados de garra, sem dúvida, mas também de uma área da tecnologia que não para de evoluir. Aerodinâmicas, resistentes e leves, as próteses usadas por para-atletas de ponta são resultado de investimentos de milhões de dólares em pesquisa. E cada vez mais aproximam o desempenho de amputados e atletas que competem nas provas regulares. Arqueada, ergonômica e moldada em uma fibra de carbono ultrafina, a FlexFoot Cheetah, usada por Paulo, por pouco não colocou um atleta que nasceu sem as duas pernas nas Olimpíadas.

Por pouco Depois de ser criticado por conta por conta da impulsão do seu “equipamento” e iniciar uma batalha legal para ter direito de largar as Paraolimpíadas e disputar o evento maior, o sul-africano Oscar Pistorius conseguiu a liberação – mas não o tempo necessário para se classificar para a Olimpíada, que deixou escapar por 0,7 segundos.

Cada vez mais, as entidades reguladoras terão que lidar com esse dilema: até que ponto uma alteração no corpo de um esportista é uma melhoria?

Apesar de não acreditar que amputados chegarão lá, Paulo deixou de disputar provas exclusivas para para-atletas em 2000. A intenção, ele garante, não é tentar se alçar a uma posição maior ou negar sua condição. “Quero mesmo é competir de igual para igual. Só para mostrar que eu posso”.

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