Startup Loft aposta em inteligência artificial após as demissões em massa de 2022

Companhia passou a desenvolver novos sistemas de IA neste ano

PUBLICIDADE

Foto do author Bruno Romani
Por Bruno Romani
Atualização:

Em 2022, a startup do setor imobiliário Loft foi uma das mais afetadas pelo “inverno das startups”, período no qual secou a disponibilidade de capital para empresas de tecnologia. No processo, a companhia fundada por Florian Hagenbuch e Mate Pencz precisou demitir 1.195 pessoas, o maior corte entre as startups nacionais. Agora, a companhia tenta se reerguer e operar com um novo tamanho com a ajuda de ferramentas de inteligência artificial (IA).

PUBLICIDADE

Não que a Loft estivesse pensando em substituição de mão-de-obra, um temor bastante comum em relação à tecnologia. Mas ela acabou engolida pelos dois principais temas do mundo tecnológico no começo de 2023: além da influência do ChatGPT, as empresas tentavam entender como operar com menos recursos para melhorar os indicadores econômicos. Em março deste ano, após a Meta cortar 21 mil pessoas, Mark Zuckerberg declarou que este seria o “ano da eficiência”.

Foi assim que as ferramentas de IA passaram a se espalhar pela Loft, como conta ao Estadão Luis Bitencourt-Emilio, diretor de tecnologia da empresa. “A gente vê a IA como um superpoder para alavancar as pessoas na companhia. Os times passaram a ser mais enxutos e aprenderam a operar com menos recursos. Desta maneira, a IA se disseminou pela empresa”, diz.

Com 293 pessoas no time de tecnologia (e outras 8 vagas abertas), Bitencourt-Emilio, que passou por empresas como Microsoft e Reddit, diz que diferentes áreas passaram a testar e a fazer demandas de recursos com IA. Dessa maneira, o volume de implementações da tecnologia se multiplicaram por dez nos últimos meses, segundo o executivo.

Entre as novidades, a Loft diz ter desenvolvido uma ferramenta antifraude na corretagem, que detecta quando compradores e vendedores tentam realizar o negócio fora da plataforma como forma de evitar comissões de compras e vendas. Os algoritmos analisam escrituras, matrículas, compras e vendas do imóvel, visitas ao imóvel, imobiliárias cadastradas, entrada e saída do imóvel na plataforma e outras informações. Em casos suspeitos, o sistema notifica uma equipe humana, que tenta investigar se houve uma tentativa de burlar a plataforma. Posteriormente, essas pessoas podem ser acionadas. A Loft diz que já conseguiu recuperar R$ 300 mil em comissões por causa da IA.

Luis Bitencourt-Emilio, diretor de tecnologia da Loft, afirma que ChatGPT influenciou novo momento da companhia  Foto: Rogerio Pallata/Loft

Outra implementação permite que vendedores criem com ajuda de sistemas de IA generativa, tipo de tecnologia que ficou conhecida depois do ChatGPT, anúncios de vendas mais atraentes. Mais de 80 imobiliárias que fazem parte da plataforma da Loft aderiram ao sistema.

Por fim, a Loft passou a implementar a usar IA para melhorar o seu marketplace. Um dos algoritmos faz a recomendação de imóveis, baseada no perfil dos usuários. Outros algoritmos servem para detectar imóveis duplicados - ou seja, que foram carregados na plataforma por imobiliárias diferentes. No segundo caso, evitar duplicidade é importante: dentro do marketplace, a comissão de venda fica apenas com a imobiliária que colocou o imóvel no portfólio primeiro.

Publicidade

A conversa sobre IA pode parecer redundante para startups como a Loft - desde quando surgiu, a companhia tinha como proposta aplicar tecnologia ao mercado imobiliário. Um dos trunfos da companhia são os algoritmos de precificação de imóveis, que analisa dados que vão de matrículas de imóveis a milhões de anúncios de venda para estimar quanto vale um apartamento - tornou-se inclusive uma ferramenta disponibilizada para imobiliárias.

No entanto, o impacto do ChatGPT parece ter inaugurado uma nova era na empresa. “Até para mim, que sou da área, o que aconteceu no último ano me chocou. O ChatGPT pulou dos early adopters para uso em massa. Fez todo mundo começar a discutir. E ainda acho que vamos ver o impacto disso nos negócios”, diz Bitencourt-Emilio.

Para a Loft, qualquer empurrão dado pela IA generativa seria bastante bem-vindo. A companhia sofreu em 2022 com a escassez de recursos. Ainda hoje, a companhia não atingiu equilíbrio nas contas (ou break even) e precisou levantar em agosto uma nova rodada de investimentos de US$ 100 milhões liderada por um fundo soberano do Oriente Médio, que reduziu pela metade o valor de mercado da startup para US$ 1,45 bilhão.

Em 2023, a Loft diz que já cresceu a receita em 40% e atribui parcialmente isso ao uso difundido de IA. Ferramentas internas de programação e recursos voltados para o RH permitiram avançar mais tecnologia com menos gente. Além de desenvolver algoritmos próprios, a Loft usa modelo de código aberto, como o Llama, e APIs de empresas como a OpenAI, um processo já visto em outras startups do Brasil, como o iFood. A companhia também criou um time focado em encontrar e experimentar novos avanços em IA.

O que Bitencourt-Emilio não planeja fazer é disponibilizar para compradores um chatbot espero, como o ChatGPT. O temor? As alucinações (nome dado ao fenômeno que ocorre quando sistemas do tipo dão informações erradas ou que fogem ao bom senso). “Imagina se o sistema dá uma informação ruim sobre um apartamento a partir de uma interpretação errada dos dados?”, argumenta o executivo.

Não precisa nem ser tão esperto quanto o ChatGPT para saber a resposta. O resultado jogaria contra a ideia da startup de se levantar com a ajuda da tecnologia.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.