A ameaça do Afeganistão virtual

Centenas de sites jihadistas recrutam jovens muçulmanos para se juntar à guerra contra os EUA

Thomas Friedman*, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

28 Dezembro 2009 | 00h00

Não vamos nos enganar. Seja qual for a ameaça que o Afeganistão real representa para a segurança dos EUA, hoje, o "Afeganistão Virtual" também significa uma grande ameaça. Esse Afeganistão Virtual é a rede de centenas de websites jihadistas que inspiram, treinam e recrutam jovens muçulmanos para se juntar à guerra santa contra os EUA e o Ocidente. Qualquer aumento de tropas para o Afeganistão não terá nenhuma chance de ter um sucesso sustentável, se não houver um esforço paralelo - por parte de líderes religiosos e políticos árabes e muçulmanos - contra os que promovem o jihadismo violento em solo, nos países muçulmanos, e online no Afeganistão Virtual.

Na semana passada, cinco homens da Virginia foram presos no Paquistão. Eles informaram à polícia que pretendiam participar da jihad contra tropas americanas no Afeganistão. Eles tinham contatado em agosto, por e-mail, dois grupos extremistas no Paquistão.

"O recrutamento online aumenta exponencialmente com o Facebook, o YouTube e a sofisticação crescente das pessoas online", disse um funcionário do alto escalão do Departamento de Segurança Interna ao jornal The Washington Post.

"Os recrutadores estão cada vez menos nas mesquitas e centros comunitários, pois locais como esses estão sendo vigiados. Assim, o que estão fazendo é se voltar para a internet", afirmou Evan Kohlman, analista da Nefa Foundation, um grupo com sede em Washington que monitora sites extremistas.

ALIADOS MUÇULMANOS

A equipe do presidente Barack Obama gosta de citar quantos "aliados" tem na coalizão afegã. Sinto muito, mas não necessitamos de mais aliados da Otan para matar insurgentes do Taleban e da Al-Qaeda. O que precisamos é de mais aliados muçulmanos e árabes para aniquilar as ideias extremistas que, graças ao Afeganistão Virtual, vêm sendo propagadas para pontos ainda mais distantes do que antes. Somente árabes e muçulmanos podem combater a guerra de ideias dentro do Islã.

Tivemos uma guerra civil nos EUA em meados do século 19 porque havia muita gente que pensava em coisas ruins, ou seja, que você podia escravizar pessoas por causa da cor da pele. Derrotamos aquelas ideias e também os indivíduos que as propagaram e o fizemos com tal ferocidade que cinco gerações depois alguns de seus descendentes ainda não perdoaram o Norte.

O Islã necessita de uma guerra civil similar. Ele tem uma minoria violenta que acredita em coisas ruins: que é correto não só assassinar não-muçulmanos, infieis que não se submetem à autoridade islâmica, mas também aniquilar muçulmanos que não aceitam um estilo de vida islâmico mais rígido e nem se submeter ao controle de um califado muçulmano.

O que realmente assusta é que essa violenta minoria jihadista parece desfrutar de muita "legitimidade" no mundo muçulmano de hoje. Poucos líderes religiosos e políticos ousam se manifestar abertamente contra ela. Líderes seculares árabes fazem vista grossa e dizem a esses grupos: "Nós vamos prendê-los se agirem dessa maneira conosco, mas se nos deixarem em paz e forem atuar em outro lugar, não há problema."

Quantas "fatwas" (decretos religiosos) foram emitidas pelos órgãos dirigentes do Islã contra Bin Laden e a Al-Qaeda? Muito poucas.

Na semana passada, onde se viu indignação quando, no mesmo dia em que o Parlamento iraquiano adotou uma fórmula para a realização de eleições multipartidárias justas e livres - algo sem precedentes na história do Iraque moderno - cinco explosões provocadas por homens-bomba mataram dezenas de pessoas, a maioria crianças? Não só não houve nenhuma condenação firme da parte do mundo muçulmano, que se concentrou na proibição da Suíça à construção de novos minaretes, como também não se ouviu um pio em Washington. O presidente Obama não se manifestou publicamente. Está na hora de fazê-lo.

Por favor, diga-me, como esperamos contribuir para criar alguma coisa decente e autossustentável no Afeganistão e Paquistão quando jihadistas assassinam outros muçulmanos às dezenas e não são contestados por ninguém? Uma atitude corrosiva tomou conta das pessoas a partir dos atentados do 11 de Setembro, com base na qual árabes e muçulmanos são apenas objetos, nunca responsáveis por qualquer coisa no seu mundo, e nós somos os sujeitos, responsáveis por tudo que ocorre no mundo deles.

Nós os infantilizamos. Árabes e muçulmanos não são objetos. São sujeitos. Eles aspiram, são capazes e devem ser intimados a assumir a responsabilidade pelo seu próprio mundo. Se quisermos uma região mais pacífica e tolerante do que eles podem conseguir, eles ficarão segurando nossos casacos enquanto vamos à luta e não irão contra seus piores extremistas. Eles perderão, e nós também - tanto no Afeganistão real quanto no Virtual.

*Thomas Friedman é escritor e comentarista político

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