NILTON FUKUDA/ESTADÃO
NILTON FUKUDA/ESTADÃO
Imagem Antônio Penteado Mendonça
Colunista
Antônio Penteado Mendonça
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Artigo: A atualidade da Revolução de 1932

O movimento que culmina na Revolução de 1932 tem suas origens na segunda metade do século 19, quando a riqueza gerada pelo café e a imigração intensiva desenham um novo cenário no Estado de São Paulo. (...) A soma das vontades do povo se materializa no progresso do Estado de São Paulo

Antonio Penteado Mendonça*, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2018 | 03h00

Entre 9 de julho e 2 de outubro de 1932, o Estado de São Paulo, apoiado pelas poucas tropas enviadas por Mato Grosso, enfrentou os demais Estados brasileiros, comandados pela ditadura de Getúlio Vargas, numa dura luta ao longo de suas divisas com Rio, Minas e Paraná.

Com perto de mil paulistas mortos ao longo dos três meses de combates, a Revolução de 1932 não se compara aos banhos de sangue de Gettysburg, na Guerra Civil Americana, ou às batalhas do Marne e Verdun, na Primeira Guerra Mundial. Todavia, isso não tira dos combates, principalmente no Vale do Paraíba e na Frente Sul, a violência, a tragédia e o horror que fazem de todas as guerras a manifestação definitiva da estupidez humana.

O movimento que culmina na Revolução de 1932 tem origens na segunda metade do século 19, quando a riqueza gerada pelo café e a imigração intensiva desenham um novo cenário em São Paulo. Com a chegada dos imigrantes, o Estado recebe sangue novo. E eles vieram dispostos a fazer uma vida melhor do que a que tinham em seus países. Com eles chegam novas ideias sociais, novas ideologias políticas, novas tecnologias e capacidades profissionais que alteram rápida e profundamente a sociedade paulista.

Em poucos anos, os imigrantes vindos para trabalhar nas lavouras de café progridem, se mudam para as cidades, criam novos negócios, se tornam fazendeiros, comerciantes, industriais, e seus filhos se casam com os filhos das famílias paulistas, introduzindo novos anseios e sonhos nas veias dos herdeiros dos bandeirantes que, tradicionalmente, eram aventureiros, empreendedores e geradores de riquezas.

A soma das vontades do povo se materializa no progresso do Estado de São Paulo, que se transforma no carro-chefe da economia nacional. Mas, mais importante do que isso, vive uma densa transformação social que tem na oportunidade para todos o diferencial que o catapulta para a modernidade, enquanto os demais Estados brasileiros seguem na antiga toada de uma agricultura ultrapassada e em crise com a abolição da escravidão.

Durante a Primeira República, São Paulo e Minas têm posição de destaque no cenário político nacional, o que permite a população paulista prosseguir na marcha para o desenvolvimento do Estado e para o enriquecimento das pessoas. A Revolução de 1930, na visão paulista, deveria corrigir o rumo nacional, abrindo uma era de progresso para o resto do País. Não foi isso o que aconteceu.

Rapidamente, Getúlio Vargas consolida sua ditadura e, em parceria com os “tenentes”, um movimento de jovens oficiais das Forças Armadas, decide fazer no Estado experiências socioeconômicas capazes de abalar o progresso alcançado por São Paulo, visto por eles como o inimigo vencido pela revolução.

Os paulistas não aceitam a ameaça de desestruturação de sua sociedade, arduamente construída com muito trabalho ao longo dos 70 anos anteriores. Seus valores, suas crenças, seus sonhos não seriam destruídos pela intervenção de gente de fora do Estado, disposta a alterar as regras do jogo que tinham permitido à população um novo estágio social, com educação, saúde e segurança pública garantindo a base para o sucesso de quem ousasse empreender.

Entre 1930 e 1932 os ânimos se acirraram rapidamente, e a capital paulista foi palco de manifestações que foram se tornando cada vez mais violentas, até o movimento ganhar forma e, em 9 de julho, desencadear a guerra civil que se estenderia pelos três meses seguintes. A única chance de vitória paulista estava numa rápida marcha para o Rio. Como isso não aconteceu, o governo federal teve tempo para reunir forças muito superiores e mais bem armadas, que lentamente esmagaram as tropas revolucionárias.

A derrota no campo de batalha não significou a derrota dos ideais de liberdade de ação, crença política e religiosa, liberdade de expressão, empreendedorismo, valorização da iniciativa privada e da livre concorrência, profissionalismo, meritocracia, respeito à lei, honestidade e integridade. Em 1934, tendo por objetivo formar os homens públicos, os empresários e os profissionais necessários ao desenvolvimento do Estado, foi criada a Universidade de São Paulo (USP), avaliada como a melhor universidade da América Latina.

De 1932 até hoje, o brasileiro tem vivido a luta entre os ideais paulistas de progresso e desenvolvimento social contra o atraso, o nepotismo, o conchavo e a corrupção que invariavelmente maculam nossa história e que, nos últimos tempos, atingiram patamares inimagináveis em 1932. Mais do que nunca, em nome de um futuro melhor e mais justo para o Brasil, é indispensável resgatar os ideais que levaram os paulistas a pegar em armas e a lutar pelo seu direito à felicidade.

* É SÓCIO DE PENTEADO MENDONÇA E CHAR ADVOCACIA E SECRETÁRIO GERAL DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.