Aceitação das diferenças é um dos grandes legados

Especialistas consideram reflexão sobre o tema e a possibilidade de se eliminar o preconceito como fatores positivos

Nathalia Garcia, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2016 | 17h00

Que sociedade queremos para nossos filhos e netos? Os Jogos Paralímpicos do Rio devem ajudar a responder a essa questão. Na visão de alguns especialistas, a reflexão sobre a inclusão social é um dos legados da competição. “Estamos vivendo um momento divisor de águas”, afirma Vinícius Hirota, professor de Educação Física com experiência em desenvolvimento humano, desenvolvimento motor e psicologia do esporte.

Para ele, a convivência do público com atletas com deficiência durante a competição ajuda a desmistificar certos assuntos e aumentar a aceitação das diferenças. “Tenho visto muitas crianças no Rio, os pais estão dispostos mostrar que a diferença existe na cabeça de quem é preconceituoso.” 

O discurso de Rodrigo Prando, sociólogo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, segue essa mesma linha de raciocínio. Ele destaca a possibilidade de eliminar diversas camadas de preconceito na abordagem ao deficiente e enfatiza: “Transformar alguém em super-herói ou vítima não contribui. Devemos olhar o sujeito como alguém dotado de direitos e deveres. As pessoas querem ser tratadas com dignidade.” 

Exemplos de superação nos Jogos Paralímpicos não faltam. E evitar a glamourização dos atletas é um aspecto fundamental na opinião de Luiz David Araujo, professor de Direito Constitucional da PUC-SP. 

“Não são todas as pessoas com deficiência que atingem metas surpreendentes. A Paralimpíada não pode passar a ideia de que temos de esperar superação de cada pessoa com deficiência. Ela tem seus problemas, suas dificuldades como qualquer outra”, analisa.

O especialista tenta transportar a experiência do Rio para a vida cotidiana. E ele destaca a importância do processo inclusivo nas escolas infantis. A falta de preparo de diversas instituições e de seus profissionais ainda é um empecilho nesse processo e a dificuldade se estende ao mercado de trabalho. “A convivência com crianças diferentes gera pessoas mais preparadas, solidárias e acolhedoras. Esses meninos e meninas serão arquitetos e engenheiros que vão zelar pela acessibilidade”, explica Araujo.

A necessidade de um espaço urbano mais acessível é outro ponto debatido pelos profissionais. A locomoção é um desafio diário. “A conjugação arquitetônica da cidade não favorece as pessoas com mais idade e muito menos aquelas com restrições”, avalia Prando.

O trio de especialistas reconhece os esforços feitos nos últimos anos para incluir os deficientes na sociedade, mas admite que ainda há muito trabalho a ser feito. “Está engatinhando e tende a crescer mais nos próximos anos”, projeta o professor Vinícius Hirota.

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