Análise - Os dias seguintes

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Jean Marcel Carvalho França*, O Estado de S. Paulo

15 Abril 2016 | 20h25

Há quem diga, e diga com ares de inteligência e sabedoria, que o impeachment da petista Dilma Rousseff não resolverá todos os problemas do País. Estranho e paradoxal seria se ocorresse o contrário, se amanhecêssemos no dia seguinte ao término do processo numa Dinamarca dos trópicos, governada por homens formados para tal na república idealizada por Platão. Amanhã ou daqui a uma semana, os problemas, os muitos e graves problemas que atazanam o País, certamente estarão aí, e os homens encarregados de resolvê-los são e serão os que temos à mão. Porém, verdade seja dita, livrar-se da presidente, do seu partido e do sem número de apadrinhados que se apossaram do Estado brasileiro na última década será um ponto de partida para sairmos do enorme buraco em que nos encontramos e, quem sabe, começar a virar o jogo. 

É evidente que ninguém, em sã consciência, acredita que, depois do impeachment, atingiremos níveis de honestidade pública semelhantes àqueles auferidos nos países nórdicos ou em Cingapura. Todavia, mesmo os mais céticos em relação a moralidade e justiça nacionais não serão capazes de negar que a sociedade brasileira, por razões diversas - algumas derivadas da pura sorte e da singela burrice dos criminosos -, tem sido capaz de desmontar um esquema de corrupção de enormes proporções e extremamente danoso para o País, pois interessado em minar as suas instituições e perpetuar um grupo político no poder. A corrupção não terá ido embora depois de tal empenho, sem dúvida, mas a aversão a ela, a consciência de seus perigos para a democracia e o sentimento de que é possível e necessário combatê-la talvez sejam maiores nos dias pós-impeachment e continuem a crescer pelos próximos tempos.

Deve haver, igualmente, um em um milhão de brasileiros otimistas ao ponto de supor que a deposição da presidente inaugurará uma idade de ouro no uso dos recursos públicos; seria demasiado pueril pensar isso de um Estado que, antes mesmo da ocupação sem precedentes promovida pelo PT, já era gigantesco e incompetente. Talvez, porém, o clima de reinvenção pós-impedimento crie um ambiente propício à autocrítica, à revisão - mais ou menos tímida, há de se ver - das expectativas que o brasileiro tem em relação à coisa pública. Quem sabe sejamos capazes de, num futuro próximo, avaliar objetiva e criticamente o quanto um Estado inchado e interventor colabora para a propagação de métodos corruptos de gestão, atrapalha o desenvolvimento da sociedade civil - vendendo a ela soluções para os problemas que cria com suas intervenções - e, sobretudo, tolhe o desenvolvimento individual, criando gerações de indivíduos Estado-dependentes, um pesadelo para o futuro de qualquer nação.

O impeachment, é mais que provável, não fará do Brasil uma estrela internacional ascendente, com assento garantido no Conselho Permanente da ONU. Não levará tampouco as agências de avaliação de risco a imediatamente reverterem o morro abaixo em que anda o País nas suas classificações. Deixar de cometer tantos erros e dizer tantas estultícias em matéria econômica, entretanto, não fará mal à nossa imagem no mercado e assustará um pouco menos os investidores internacionais. Do mesmo modo que não fará mal à nossa imagem diplomática - por subtração, talvez - deixar de assinalar a todo instante que somos antiamericanos, antiocidentais, anticapitalistas, em suma, que somos passadistas, saudosos de um mundo que se perdeu na poeira do tempo.

Impedir Dilma Rousseff, em suma, não será a redenção e não trará de volta o paraíso terreal, paraíso, inclusive, que sempre estivemos longe, muito longe de habitar. Aliás, tolo de quem pensa, neste mundo pós-ideológico e pragmático em que vivemos, ser possível encontrar soluções que redimam uma sociedade inteira e a conduzam à salvação. O impeachment, ou qualquer outra solução, certamente não levará a tal estado de coisas. Terá sido, no entanto, ao menos um bom recomeço se a sociedade brasileira aproveitar o 'entusiasmo' para sacudir de cima de si a poeira do atraso e iniciar rapidamente um processo - que será duro, custoso e demorado - de upgrade, de ajuste com o mundo do século XXI.

* Jean Marcel Carvalho França é professor de História do Brasil da Unesp de Franca

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