As apostas do mercado

O impeachment da presidente Dilma Rousseff e a melhora das condições gerais da economia continuam nas previsões do mercado, mas ainda há insegurança quanto à contenção da alta de preços

O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2016 | 03h09

O impeachment da presidente Dilma Rousseff e a melhora das condições gerais da economia continuam nas previsões do mercado, mas ainda há insegurança quanto à contenção da alta de preços. Economistas do setor financeiro e das principais consultorias têm apostado na redução gradual da inflação, mas com dificuldades neste ano e um resultado ainda longe da meta de 4,5% em 2017.

A inflação projetada para este ano subiu de 7,20% para 7,31% na semana passada, segundo a pesquisa publicada ontem pelo Banco Central (BC). A estimada para o próximo ano ficou em 5,14% pela segunda semana consecutiva, depois de algumas semanas de queda. O repique de julho, quando a taxa mensal passou de 0,35% para 0,52%, certamente foi considerado nas contas. Mas a incerteza quanto ao ritmo de ajuste das contas públicas, o maior desafio imediato para o governo, ainda justifica uma boa dose de cautela na revisão das expectativas.

Fator muito importante para a reativação dos negócios, a redução dos juros básicos da economia deve ser, segundo as novas estimativas, mais lenta do que se supunha até há pouco tempo. Há quatro semanas, a taxa básica prevista para o fim de 2016 era de 13,25%. A expectativa subiu em seguida para 13,50% e chegou a 13,75% no fim da semana passada, de acordo com o último boletim divulgado pelo BC. Se a nova projeção se confirmar, a diminuição da taxa básica, a Selic, será de apenas um ponto porcentual até o fim do ano.

Mesmo esta previsão pode ser um tanto otimista. O afrouxamento da política monetária, segundo têm repetido os dirigentes do BC, dependerá tanto da evolução dos principais indicadores como do avanço do Executivo na correção das finanças públicas. Tanto os programas de curto como os de longo prazo serão quase certamente levados em conta nessa avaliação. Isso envolverá tanto a fixação de metas fiscais para 2017 como a conquista de apoio a um bom projeto de reforma da Previdência. Mas as possibilidades de ação do Executivo só ficarão mais claras depois de votado o afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff.

De imediato, a ação mais importante do governo será o encaminhamento ao Congresso do projeto de lei orçamentária para o próximo exercício. O presidente deverá encaminhar a proposta ao Legislativo até o fim de agosto. Conhecidas as previsões de crescimento econômico, assim como as projeções de receita e despesa e a meta de resultado primário, o mercado terá um cenário mais claro de como será o jogo. Será mais fácil avaliar, entre outros pontos, se o ajuste envolverá a criação de impostos e contribuições ou pelo menos o aumento de alíquotas.

Pelas últimas projeções do mercado, o Produto Interno Bruto (PIB) encolherá 3,20% neste ano. A redução será, nesse caso, pouco menor que a estimada na semana anterior (3,23%). Para 2017, foi mantida a previsão de um PIB 1,10% maior que o de 2016. Ainda faltará muito, portanto, para o retorno ao nível de atividade de 2014, ano anterior à contração de 3,8%. Mas em 2014 a economia já andou muito mal, com expansão média de 0,1%, e o objetivo de uma política de recuperação deverá ser, no mínimo, o retorno ao ritmo de produção de 2013. Crescimento para valer só virá a partir daí.

Com a inflação caindo para 5,14% no próximo ano, o BC poderá, segundo o mercado, cortar os juros básicos para 11%. Será uma alteração considerável, embora a taxa ainda permaneça, nessa hipótese, bem acima dos padrões observados nos países mais avançados e nos emergentes. Mesmo assim, a projeção pode ser um tanto otimista, diante das incertezas de hoje quanto ao ajuste fiscal.

O mercado se mostra menos inseguro quanto ao próximo ano do que em relação aos próximos quatro meses e meio. A diferença pode ser explicável, pelo menos na maior parte, pela esperada superação do primeiro grande obstáculo, a conclusão do processo de impeachment. A gestão da economia – este é o pressuposto evidente – ficará bem mais fácil.

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