''Brasil não reconhecerá eleição hondurenha'', garante Garcia

Assessor do Planalto rebate pressão dos EUA e diz que aceitar resultado legitimaria golpe

Tânia Monteiro, O Estadao de S.Paulo

20 de novembro de 2009 | 00h00

Categórico, o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, rebateu ontem a pressão dos EUA para que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheça as eleições presidenciais em Honduras, marcadas para o dia 29. Para Garcia, aceitar o resultado das urnas seria dar um "atestado de bons antecedentes aos golpistas".

O assessor de Lula disse que as relações entre os EUA e a América Latina "já são muito ruins", ressaltando que, em relação a Honduras, "não há nem discussão". "O presidente Manuel Zelaya foi deposto por um golpe e reconhecer uma eleição preparada por um governo de facto seria muito ruim pelo "efeito demonstração" que isso poderia ter", disse Garcia.

Na quarta-feira, o senador americano Richard Lugar, líder republicano no Comitê de Relações Exteriores do Senado, divulgou um comunicado pedindo para que o Brasil reconheça as eleições em Honduras, independentemente da volta de Zelaya ao poder. Lugar disse ainda que a única saída para os hondurenhos superarem a crise, que já dura cinco meses, seria que países como o Brasil aceitassem as eleições marcadas para o dia 29.

"Não vamos reconhecer as eleições", rebateu o assessor especial do Planalto. Para ele "o efeito de uma atitude como esta (de aceitar as eleições de 29 de novembro) por parte do Brasil seria o pior possível". Garcia voltou a afirmar que não há prazo para a saída de Zelaya da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. O presidente deposto se abrigou na missão brasileira no dia 21 de setembro, quando retornou escondido ao país.

PRESSÃO

O presidente Lula, que não reconhece o governo de facto de Roberto Micheletti, tem mantido Zelaya na embaixada na condição de "convidado", condenando o cerco imposto à missão pelas forças de segurança de Honduras. "Não tenho ideia de até quando Zelaya ficará lá (na embaixada). Vai ficar quanto tempo tiver de ficar", disse Garcia.

Anteontem, em discurso no Itamaraty durante almoço oferecida à presidente da Argentina, Cristina Kirchner, Lula voltou a pressionar o regime golpista. "Exigimos a pronta restituição de Zelaya", disse. "Caso contrário, as eleições do dia 29 serão comprometidas e estará lançado um precedente perigoso. Esse é o consenso em toda a América Latina e Caribe".

A declaração, segundo assessores do Planalto, foi uma mensagem direta a congressistas e ao governo dos EUA. Lula tenta demonstrar que a região está unida em sua condenação à eleição hondurenha sem a restituição de Zelaya, indicando que a Casa Branca ficará sozinha se aceitar o resultado das urnas.

Ontem, Zelaya voltou a dizer que a votação é ilegal, pois a reconciliação política fracassou. "Sem acordo, o processo eleitoral é ilegal e viola o direito dos eleitores. Ele oculta o golpe de Estado e o regime de facto no qual vive Honduras", protestou Zelaya. "Solicito ao povo que reflita de modo consciente, impugne e denuncie essa fraude."

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