''Competição global pós-crise será feroz''

Diretor do BNDES prevê forte disputa entre os países e defende apoio do banco à formação de múltis brasileiras

Entrevista com

Alexandre Rodrigues e Fernando Dantas, RIO, O Estadao de S.Paulo

07 Dezembro 2009 | 00h00

Entrevista

João Carlos Ferraz: diretor de Planejamento do BNDES

A competição global no mundo pós-crise será "de uma ferocidade horrível", o que reforça ainda mais a estratégia do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de apoiar a fusão de grandes empresas brasileiras, com foco na internacionalização. A visão é de João Carlos Ferraz, diretor de Planejamento do BNDES, e considerado o braço direito de Luciano Coutinho, presidente do banco de fomento.

Ele prevê que vai haver uma disputa por "cada milímetro dos mercados", com os países buscando proteger, induzir e fortalecer as suas empresas. Para Ferraz, não existe país avançado sem grandes empresas que sejam competidores no mercado global.

Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com doutorado na Universidade de Sussex, o economista defende a atuação recente do BNDES, que em dois anos quase duplicou os seus desembolsos, de R$ 65 bilhões em 2007 para algo entre R$ 120 bilhões e R$ 130 bilhões neste ano.

Um dos pontos principais dessa estratégia é justamente o apoio à fusão de grandes empresas brasileiras, frequentemente com foco na internacionalização. O BNDES esteve envolvido em operações como Oi/Brasil Telecom, JBS Friboi/Marfrig, Votorantim/Aracruz (Fibria) e Sadia/Perdigão (Brasil Foods). O banco não está participando, porém, da recente transação envolvendo Pão de Açúcar, Casas Bahia e Ponto Frio.

Ferraz relatou ainda a participação do BNDES na política anticíclica do governo que ajudou o País a sair mais rapidamente da recessão. Para ele, a garantia de bom uso dos enormes repasses recentes do Tesouro ao BNDES ? mais R$ 100 bilhões podem estar a caminho ? é a própria credibilidade do banco. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Com a perspectiva de um novo aporte de R$ 100 bilhões do Tesouro Nacional, quanto o BNDES pretende emprestar em 2010? Mesmo num cenário de recuperação, o banco quer aumentar ainda mais a sua presença no financiamento da economia?

Em 2007, o desembolso foi de mais ou menos R$ 65 bilhões. Em 2008, de R$ 90 bilhões. Este ano vai fechar em R$ 120 bilhões ou 130 bilhões. O salto foi maior antes, a taxa de crescimento é decrescente. Não há meta para 2010. Se ficarmos no nível de 2009, será uma maravilha.

Essa nova transferência do Tesouro é necessária para quê?

A demanda de recursos para 2010 ainda é muito forte e cresce por causa da inércia característica dos projetos de infraestrutura. Os recursos próprios não são suficientes para a demanda que já temos em carteira. O número de R$ 100 bilhões foi dado pelo presidente, mas não está cravado que tem que ser isso. Posso dizer que é suficiente para passarmos 2010 com tranquilidade, desativando as linhas emergenciais, mantendo a posição de infraestrutura e fazendo a transição para o novo governo sem que o investidor se assuste.

Com o reforço de R$ 100 bilhões, o banco já superou em mais de 50% o volume de desembolsos do ano passado. Que critério norteou as decisões?

O BNDES é um instrumento provedor de recursos para a economia, e a economia levou uma pancada num momento virtuoso, quando crescia o investimento, produção, emprego, produtividade. Na margem, o investimento estava crescendo a 19% entre um trimestre e outro. Além das medidas para manter o consumo, foi tomada uma decisão que mais à frente vai ser vista como a mais estratégica: o empréstimo de R$ 100 bilhões para o BNDES. Ele tem um significado simbólico importante: mostrar que para bons projetos não falta dinheiro.

Na crise, a missão, que é o investimento, passou a ser também a de manter a atividade econômica. Então lançamos várias linhas, algumas não usuais para nós, como exportação e giro, para segurar a onda. Mas se olharmos uma linha de tempo mais longa, o BNDES está saindo das coisas simples e entrando nas complexas. Temporariamente, com a crise, voltou às simples e agora vai sair. A agenda nesse final de ano torna-se o investimento de novo.

Quando esse foco no investimento voltou?

Entre abril e maio deste ano, notamos os primeiros sinais de estabilidade da economia. Estava claro que era hora de lançar um programa que animasse os investidores a recuperar aquilo que tinham postergado ou a suplementar planos. A estrutura institucional da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) foi ativada. Os comitês mostravam o que estava acontecendo nos setores. Sabíamos o que estava apertando o calo de cada um e vimos que era hora de um sinal forte. E aí foi decisão de governo ? e o ministro (Guido) Mantega teve papel fundamental ? de lançar o Programa de Sustentação do Investimento (PSI) em junho (com juros de 4,5%). Foi um "V" ? a curva da Finame (linha para aquisição de máquinas e equipamentos), que tinha caído de R$ 160 milhões diários em setembro de 2008 para R$ 60 milhões em junho de 2009, inverteu-se e deve estar em R$ 120 milhões.

Com a recuperação da produção industrial e a manutenção da atividade econômica, o foco do BNDES agora será o investimento em infraestrutura?

Apesar de a disposição ao investimento ter se mantido relativamente, ainda é insuficiente para o crescimento sustentado. Antes, estávamos soprando junto com o vento a favor. Agora, com a vela meio parada, estamos começando a remar. Desde 2007, o BNDES vinha entrando mais na infraestrutura. Nesses projetos, a decisão de investimento é mais lenta. A nossa carteira continuou crescendo na crise, por isso o desembolso do banco não cai. Há decisões que só agora começam a se efetivar. E aqui há um problema do País. Qual é a grande dificuldade do PAC? Projeto de infraestrutura tem um pacote de regras institucionais, técnicas e financeiras que demora muito a dar a partida. Em 2008, os chineses soltaram um programa de infraestrutura de US$ 600 bilhões, mas o governo central tinha o que desengavetar. O Brasil não tem estoque de projetos de qualidade para serem implementados rapidamente. Isso está se recuperando pouco a pouco.

Uma das críticas à política industrial do governo hoje é a de que a atuação do BNDES está reforçando a estrutura produtiva atual e os setores tradicionais, quando os principais esforços deveriam se concentrar na inovação e nos segmentos de maior densidade tecnológica.

Não há esse reforço da estrutura. A PDP é muito simples. O Brasil não tem uma economia de dois setores, o tradicional e o tecnológico. É uma economia complexa. Cada setor está num estágio de desenvolvimento, que não tem fim. A política foi desenhada para induzir o avanço a partir do estágio em que cada um está. Então, nos setores que já são competitivos, as empresas têm que se lançar para o mundo. E essas soluções são via mercado. Quando o BNDES apoia a internacionalização de uma empresa, é com uma lógica financeira completamente diferente do que faz no apoio à pequena empresa de risco tecnológico. Essa vai ter muito dinheiro barato, que o grande negócio não vai ter. Estamos diante de um mundo complexo, mas é simples.

Por que é importante, como estratégia, ter grandes competidores brasileiros no mercado global?

Não há um país avançado que não tenha um grande player. A dinâmica do tal capitalismo faz ele crescer além das suas fronteiras. É a teoria básica de organização industrial e da competição. Se olharmos padrões de concorrência, vemos que existem certas lógicas setoriais. O produtor de commodities precisa de escala, porque ele ganha no custo. Ele tem que sair para o mundo, não tem jeito. Aí a empresa vai para fora. Vou parar de apoiá-la porque tirou o passaporte? Eu quero ir com ela, quero ser o banqueiro dela lá fora. É óbvio que isso vai reverter para a economia brasileira, porque o lucro dela é aqui. Produz lá, mas a retaguarda fica aqui. E nosso papel é gerar mais e melhores empregos no País.

O BNDES então promove o casamento de empresas?

A ideia que se tem é de que esse banco, de forma maniqueísta/simplista, tem a capacidade de juntar empresas. Mas nós não damos subsídio. Apoiamos isso com preços de mercado, de debêntures, não usamos nem TJLP. Não dou dinheiro barato para empresa que é grandinha. Dou porque nos interessa, vamos ser sócios deles. Queremos ganhar dinheiro. Grande parte do que emprestamos vem das nossas participações acionárias. Com esse braço, eu posso financiar os pequenos.

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