Conteúdo político faz a dupla receber ameaças constantes

Eles contam que até a energia elétrica do galpão onde trabalham é cortada frequentemente, mas não se intimidam

Cláudia Trevisan, PEQUIM, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2009 | 00h00

O uso de seus próprios corpos é uma constante no trabalho fotográfico dos Irmãos Gao, que costuma ter caráter mais existencial do que político. Na série Percepção do Espaço, os dois artistas e um grupo de estudantes de arte aparecem nus, espremidos nas pequenas divisões de um armário.

As imagens são reflexões sobre os limites nos quais as pessoas vivem e as dificuldades de alcance dos vizinhos que estão em espaços semelhantes. Apesar da nudez, esses trabalhos não são vetados pela censura chinesa e podem ser vistos em uma galeria que os Irmãos Gao possuem no Distrito 798, a duas quadras de seu estúdio.

Corpos nus também aparecem em algumas das obras da série Utopia do Abraço de 20 Minutos. Segundo eles, todas as pessoas que aparecem nas obras participaram de maneira voluntária. O único caso em que foram contratadas - propositalmente - é em Pessoas Pagas para Abraçar, no qual um grupo de migrantes rurais se abraça sobre uma mesa, enquanto os dois irmãos aparecem nas extremidades com ar entediado.

"Nós decidimos usar uma maneira comercial de induzir um comportamento que não pode ser comercializado porque na China quase tudo tem uma natureza comercial", afirmou Gao Zhen.

Em razão de seu caráter polêmico, poucas das obras da dupla são vendidas dentro da China. A maioria é comprada por galerias, museus e colecionadores estrangeiros. O trabalho dos Irmãos Gao já foi exibido nos Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha, Rússia, Itália, Inglaterra, Coreia do Sul, Japão, Bélgica, Grécia, Holanda e Albânia e faz parte do acervo permanente de museus como Georges Pompidou e The San Francisco Museum of Modern Art.

O conteúdo político não provoca apenas a censura às suas criações na China. Os Irmãos Gao recebem ameaças anônimas e enfrentam problemas constantes na manutenção de seu estúdio no Distrito 798, o famoso bairro que concentra a arte contemporânea chinesa.

"A energia elétrica do espaço já foi cortada inúmeras vezes e os administradores tentaram nos expulsar daqui inúmeras vezes. Agora querem de novo que saiamos até o fim do ano", disse Gao Zhen, que não tem intenção de abandonar o local.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.