EUA continuam interessados em Super Tucano após cancelamento

Os Estados Unidos continuam interessados em adquirir uma aeronave militar da Embraer apesar do cancelamento de um contrato mais cedo nesta semana devido a problemas com documentos, disse um diplomata de alto escalão do país nesta quinta-feira.

JEB BLOUNT, REUTERS

01 Março 2012 | 19h44

A Força Aérea dos Estados Unidos cancelou abruptamente na terça-feira um contrato de 355 milhões de dólares de compra de 20 Super Tucanos e de eletrônicos e serviços relacionados da Embraer e da Sierra Nevada Corp, uma empresa de capital fechado sediada em Nevada.

Nesta quinta-feira o Ministério das Relações Exteriores divulgou nota em que afirma que recebeu a notícia do cancelamento com "surpresa".

"Em especial pela forma e pelo momento em que se deu. (O governo brasileiro) considera que esse desdobramento não contribui para o aprofundamento das relações entre os dois países em matéria de defesa", afirma a nota.

Os EUA comprariam o avião leve de ataques ao solo para fornecer suporte aéreo ao Exército Afegão no campo de batalha e como um turbo-propulsor para treinos de pilotos da Força Aérea Afegã. Incluindo encomendas futuras, acredita-se que o contrato poderia chegar em até 1 bilhão de dólares.

A Força Aérea dos Estados Unidos culpou "problemas na documentação" pelo cancelamento do contrato, que também está sendo contestado pela competidora da Embraer que não conseguiu a licitação, a Hawker Beechcraft.

"A Embraer é obviamente uma ótima empresa e o Super Tucano, uma ótima aeronave", disse o vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, William J. Burns, num evento no Rio de Janeiro. "Os Estados Unidos estão agora em meio a processos internos mas continuamos interessados".

Nem a Força Aérea nem Burns deram detalhes sobre os problemas de documentação.

O cancelamento surge enquanto Burns e outros diplomatas norte-americanos buscam vender aeronaves do país ao Brasil. O F-18 Super Hornet, da Boeing, está competindo com o Rafale, da Dassault, e o Gripen, da Saab, por uma encomenda de 36 jatos para a Força Aérea Brasileira.

A Reuters informou em 12 de fevereiro, citando fontes do governo, que o Brasil "muito provavelmente" escolheria a Dassault. O cancelamento do acordo com a Embraer fez algumas figuras de alto escalão do governo da presidente Dilma Rousseff se perguntarem se a manobra é uma forma de retaliação em resposta ao fato de que a Boeing teria sido preterida, disseram autoridades à Reuters nesta semana.

Burns se apressou a negar estas preocupações. "São contratos separados", disse.

"Nós estamos convencidos de que o F-18 é a melhor das aeronaves disponíveis e um reflexo disso é que essa é a aeronave que os Estados Unidos usarão nos próximos 20 a 30 anos", disse Burns.

Como parte do acordo oferecido pela Boeing, a empresa forneceria a tecnologia para que o Brasil construa boa parte da aeronave por si só, um fator importante para políticos que buscam impulsionar a indústria aeronáutica e capacidade de defesa do Brasil.

"Nós estamos convencidos de que o pacote de transferência de tecnologia que oferecemos junto à aeronave (F-18) não tem precedentes em nossa relação (com o Brasil)", disse. "É exatamente o mesmo tipo de pacote que ofereceríamos a nossos parceiros mais próximos na Otan",

Países-membros da Otan incluem o Reino Unido, o Canadá, a França e a Alemanha.

O General Norton Schwartz, chefe da Força Aérea dos EUA, reconheceu mais nesta semana que o cancelamento do contrato com a Embraer era uma vergonha para a Força Aérea, que tem tido dificuldades com problemas de aquisição na última década. Schwartz disse que "alguém pagaria caro" se o problema de documentação não fosse um erro inocente.

Os Estados Unidos, que têm soldados no Afeganistão assim como outras nações da Otan, está lidando com o acordo para a Força Aérea afegã.

O cancelamento do contrato dos Super Tucanos é um dos vários que a Embraer tem enfrentado envolvendo os Estados Unidos ao longo dos últimos 20 anos. Nos anos 1990, o Super Tucano e a Embraer, em parceria com a empresa norte-americana Northrop Grumman, perderam a disputa para se tornarem as aeronaves de treinamento das tropas da Otan após forte pressão de rivais norte-americanos.

A Embraer vende cerca de dois terços de suas aeronaves, incluindo aviões de passageiros e executivos, nos Estados Unidos e adquire cerca de dois terços de seus motores e outros componentes de fornecedores norte-americanos, disse Burns.

(Reportagem adicional de Brian Winter, em Brasília)

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