Fim-de-semana

Para me despedir: no título, fim de semana com hífen. Como querem, ou queriam, nossos avozinhos, os portugueses, que, afinal, acabaram enfiando o galho dentro e concordando com essa besteirada da uniformização ortográfica.

Ivan Lessa, BBC

23 de maio de 2008 | 07h50

Para me despedir: no título, fim de semana com hífen. Como querem, ou queriam, nossos avozinhos, os portugueses, que, afinal, acabaram enfiando o galho dentro e concordando com essa besteirada da uniformização ortográfica.Neste espaço não caberiam todos aqueles que irão ganhar uma nota preta com a jogada. Já li e reli, estes anos todos, o que pude sobre a embromação. Poucos tiveram peito para expor as verdadeiras razões por trás da uniformização (e bota uniforme e medalha nisso).Alguns se atreveram. Desapareceram todos misteriosamente. Tá bom, vá lá que seja. Estou exagerando um pouco. Mas que calaram a boca, calaram. Ou, mais provável (afinal de contas é a gente, minha gente), deram um cala-bôca (e é com hífen e acento só para sacanear alguém ou todo mundo) para o pessoal.O resto, como de hábito, ou não ligou, ou de inconseqüência e patetice acabou topando. E citam o Saramago. Nem sempre lembrando que ele disse, entre outras coisas, que continuará escrevendo como sempre escreveu, que o resto é problema dos revisores. Está nas entrelinhas o que ele, de verdade, acha, pois não? Em São Tomé e Príncipe, o clima é de festa. Enfim: um vôo sem circunflexo. Exatamente o que eles precisavam.***Recuso-me a comentar o final de uma dessas copas disputadérrimas aqui pelas ilhas e estas Oropas. Manchester United versus Chelsea. Em Moscou, coitada, como se já não bastasse tudo que essa pobre dessa cidade passou pela História a frente e afora. 42 mil ingleses zanzando pela cidade, pagando uma fortuna por tudo, desafiando uma polícia que, fosse nos bons tempos do comunismo, cairia de cacete em todos eles pelo menor dos motivos.Os 5 ou 6 litros de cerveja que os fans (sim, são com ene e sem til, feito o futebol que assistem) consomem, e que sai a perto de 32 dólares o litro, mais a vodka (há quanto tempo, "dona" letra Ka, ou Kapa, em terras lusas!), que lá é baratinho, foram responsáveis pelas cenas dantescas que, na certa, se passaram em ruas e praças da capital russa. O Manchester United é conhecido como The Reds, pelos pobres dos ingleses. O Chelsea como The Blues. Imensa, vasta pobreza. Desnecessário acrescentar que a terminologia foi violentada como uma rapariga inocente nas mãos e sob o etc dos sórdidos e repulsivos indivíduos que brutalizam diariamente a mídia britânica.De Praça Vermelha a Tristezas (blues, confere?) e por aí adiante. Assim como o Saramago, não tomei conhecimento do jogo, da peleja, da contenda, que deve ter sido tudo isso ao mesmo tempo. Deixei para meus revisores.E decisão por pênaltis é os tinflas.42 mil torcedores ingleses de futebol. Foi para gente assim que Napoleão perdeu a guerra.***Outro dia me aborreceu, e eu acabei aborrecendo o leitor distraído, para não falar de meus revisores e os do Saramago, essa história de bicho em extinção. Bicho é para ser extinto. Trata-se de uma lei imutável da vida. Algo assim feito a unificação da língua portuguesa. Foram-se os dinossauros e todos seus jurássicos companheiros. Em boa hora. Que seria dos museus de história natural se não fosse o desaparecimento daqueles biguanos todos?Vocês têm uma ideia (atenção, primeiro uso legítimo e oficial da palavrinha sem o acentinho querido, essa alma minha, tão cedo desta vida, descontente, et cetera e tal), repito, vocês têm uma ideia (acumulei: segundão) onde estaríamos nós se cronossauros e brontossauros continuassem zanzando pelos campos e cidades do globo terrestre feitos torcedores do Manchester United ou do Chelsea? Nem mesmo o mais arrojado voo de imaginação poderia conceber. Nota minha para meus revisores e do Saramago: atenção, estou sendo o primeiro também a fazer uso da aérea modalidade, sem recorrer a mais ninguém, e chutando para corner, como um zagueiro do Manchester United, a palavra vôo sem o circunflexo, que tão bem sua cabecinha redonda cobriu e protegeu, estes anos todos, como um boné azulmarinho dos New York Yankees.Reparem ainda no hífen afanado da cor do quepe. Sou um homem de nossos tempos: não valho nada.**** Chego agora finalmente, meio exausto, pondo os bofes para fora, onde já deveria estar há algumas linhas. As especialidades comestíveis também ameaçadas de extinção e não só de desastre igual a unificação ortográfica. Aí é chato. Lá encontrei, na lista preparada por técnicos em coisas em extinção, gente do time dessa turma da reforma lusobrasileira (epa), delícias feito o aspargo ou espargo, como devem preferir o Saramago e seus revisores.Vão acabar. Certos comestíveis. Não dão mais que 300 anos de vida para o espargo ou aspargo. Chato, muito chato. A alcaparra também está pela bola sete. Mais uns 200 anos e é beleléu garantido. Queijo de leite cru de vaca. Taí, esse eu tô (to?) pouco ligando. Pra mim é final entre Manchester United e Chelsea. As peras. Mau, muito mau. Mas só as peras de Gloucestershire. No caso, então, tudo bem. Inglês não manja nada nem de pêra nem de banana. Se é para extinguir, mandem bala, brasa ou o que for, no ruibarbo, na jaca e no quiabo. Aí sim. Esses, pra mim, numa mesa, são o equivalente a um trema e um hífen no português do século XXI.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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